apaguei a playlist / comecei a dançar* | Fernando de Albuquerque**

logo acabou a infância

veio aquele desejo louco de ir embora

quis ser padre frade noviço rebelde

sempre apaixonado pelo padre amaro

ele era doce e hostil

como devem ser as paixões do eça

*

daí foi só cultivar o bigode

cavanhaque costeletas

cabelo grande ou curto

há sempre uma estratégia certa ereta

incerta

o assanhado começou a me dar um ar

de adulto sedutor

que nunca tive

Fernando de Albuquerque

Deve-se ler este primeiro livro de Fernando de Albuquerque como quem está apaixonado. Ele utiliza o eu-lírico não só para revisitar seus desejos, mas também para colocar os pingos nos is e se elevar. Ele trabalha com a memória da guerra interior, depois da paz estabelecida.

Quando a gente lê apaguei a playlist / comecei a dançar, músicas vão se amplificando nas páginas e nos sentimentos do leitor. Dá vontade de fechar os olhos depois de cada poema, só para reconstituir cada passo. Dois pra lá, dois cá. Ou levantar e dançar numa pista imaginária.

O livro é erguido sobre o que restou dos escombros afetivos e de seu repertório sofisticado. Personagens e eventos de outrora desfilam pelos versos, sempre trazendo uma reflexão filosófica, ora pra botar o dedo na ferida, ora para aliviar a dor, como uma espécie de merthiolate.

Nos poemas, Fernando tem um cuidadoso trabalho com a linguagem e o faz a partir de um olhar inusitado, que surpreende e foge do lugar comum. Um bom exemplo é o poema “AHTÓH YÉXOB”, no qual uma atriz entra em cena com um cavalo e dispara frases aparentemente desconexas para a plateia. O humor e a ironia estão presentes em todos eles.

Os poemas são como pequenos monólogos destinados a uma plateia de homens: o vizinho, o drogado, o prostituto, o boy lixo, o pintoso, o da rua. Fernando tocou meu coração e, agora, vai tocar o seu.

Cleyton Cabral

ouvindo menino do rio, na voz de baby,

enquanto escrevia estas linhas.

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* apaguei a playlist / comecei a dançar. Fernando de Albuquerque. Prefácio: Cleyton Cabral. Ilustrações: Márcio Junqueira. Projeto Gráfico: Fred Caju. Recife: Castanha Mecânica, 2020.

 ** Eu nasci em 1984, quando ainda se chorava a morte de Clara Nunes. Entrei para a faculdade de jornalismo querendo fazer Letras e foi lá que conheci meus melhores amigos. Li César Leal, João Cabral de Melo Neto, Carlos Pena Filho, Ascenso Ferreira e Cyl Galindo ouvindo New Order, The Clash e Portisehad.