Estudos em Escrita Criativa – Outubro, 2020

Os italianos

Patricia Gonçalves Tenório*

No sétimo módulo dos Estudos em Escrita Criativa On-line apresentamos o conceito do mise-en-abîme, inaugurado por André Gide, que, por sua vez, tomou emprestado da heráldica, “em que a reprodução de um escudo ad infinitum, um dentro do outro, gera a sensação de espelhamento que encontramos em dois espelhos um diante do outro, ou na impressão de ‘não acabar jamais’ de se extrair” das mamuskas.

Quando se termina a última página de Por que ler os clássicos, do escritor italiano, apesar de nascido em Santiago de las Vegas, Cuba, Italo Calvino (1923-1985), sente-se um mesmo estranhamento. Ou melhor, sente-se uma vertigem que nos acompanha antes, durante e depois da leitura do livro, assim como nos acompanha na leitura de certos livros bons.

Vem-nos à mente duas conexões. A primeira é com o livro já mencionado nos nossos Estudos, Mimesis: a representação da realidade na literatura ocidental, do filólogo alemão, nascido em Berlim, Erich Auerbach (1892-1957). A segunda tem a ver com um livro do próprio Calvino, Se um viajante numa noite de inverno.

Quando abrimos a primeira página de Se um viajante numa noite de inverno, do escritor “italiano”, “apesar de nascido em Cuba”, Italo Calvino, ficamos tontos,  presos em uma vertigem: o autor inicia afirmando que estamos começando “a ler o novo romance de Italo Calvino, Se um viajante numa noite de inverno”…

Feito em um jogo de espelhos, Calvino numera os doze capítulos que serão o fio condutor da narrativa, e intitula os seguintes com os nomes dos romances que vão sendo desfiados, que vão sendo apontados de um romance para o outro, sem contudo passar do primeiro capítulo.

E viajamos uma última vez no tempo e no espaço e encontramos a ubiquidade entre o medo e o desejo da viagem no quarto romance do diretor, cofundador da escola de escrita criativa Scuola Holden (Holden, de O apanhador no campo de centeio), escritor, nascido em Turim, Itália, Alessandro Baricco (1958): Seda.

Finalizamos o oitavo módulo e os Estudos em Escrita Criativa On-line 2020 com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados, a sugestão de filmes relacionados com os italianos e a Escrita Criativa, e nos perguntamos: O que encontraremos a seguir? Que viagem empreenderemos em 2021? Que escritores nos guiarão? Continuem comigo, conosco, nessa busca sem fim por uma voz própria, uma expressão que abarque a imensidão de eternidade que existe dentro de nós…

E até a próxima!

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* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

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Módulo 8 – Aula 1:


Módulo 8 – Aula 2:

Módulo 8 – Aula 3:

Módulo 8 – Aula 4:

Exercícios de desbloqueio:

Módulo 4 – Leste Europeu:

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com

POESIA SEM COR

A realidade nua e crua

Escancarada na nossa frente.

Bofetada na cara,

Soco no estômago,

Pedra no coração.

*

Gerando um mal-estar,

Vergonha do ser humano,

Vergonha de ser humano.

*

Um grito suspenso no ar,

Forte,

Sufocante.

Onde foi parar a poesia?

*

Módulo 5 – Japão:

Luciana Beirão de Almeida

IMPROVISO

O desassossego leva Macabéa até a esquina, onde encontra o corvo.

Silêncio.

Sua alma, antes pesada, sai da carcaça e põe-se a sonhar.

*

Módulo 6 – Os russos:

Luciana Beirão de Almeida

Focalização

Eu

Tu

Ele.

Ela.

Onipresente,

Onisciente.

Paciente.

Independente.

Simplesmente

Ardente,

Desesperadamente

Consciente.

Consistente ou Inconsequente?

*

Módulo 7 – Os franceses:

Luciana Beirão de Almeida

(IM)POSSÍVEL VIAJAR NO TEMPO?

A alma viaja.

*

Uma foto,

Uma música,

Uma memória

*

Basta fechar os olhos e se está lá.

*

O corpo não viaja?

*

O coração bate mais forte.

As mãos tremem,

A lágrima insistindo para vir à tona.

*

Podemos viajar no tempo, sim.

Revivendo com todas as forças o que passou.

Imaginando com igual deleite o que está por vir!

*

Somos donos do nosso destino?

*

Módulo 8 – Os italianos:

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

AO FIM DA VIAGEM

Como no Gênesis, no princípio de tudo era a escuridão do pensamento. Um silêncio profundo habitava o espírito das ideias. As palavras surgiam partidas, jogadas na angústia do tempo marcado que não aguarda a concatenação do pensamento. Depois, já aparece o conteúdo no jardim florido, um pomar de ideias que se tornou aquele lugar semeado por diversas nacionalidades de expressões. Um coral afinadíssimo de palavras ensaiando interessantes acordes. Hoje, já se colhe alguns bons frutos. Há luz na escuridão.

Também no princípio era o verbo, a fagulha inicial da criação, timidamente escondida, a receber um abano mensal transformando-se em fornalha criativa. Era a história prefigurada nos apóstolos da escrita alimentando o fogo criativo, agora semente germinada. Assim ela pensou ao desligar o áudio e ligar o cronômetro no celular. Esboçar um agradecimento por todo esse tempo, neste dia, escrever uma resposta à professora, caprichando para fazer sentido com o que foi ensinado, para em seguida digitar em letra bem bonita, porque, assim corrida no papel, a grafia está feia e é ininteligível.

Agora, no final da viagem, aparece uma escrita que se apropria de uma imagem para descrever o agradecimento, que surge em um avião no aeroporto da Itália aterrissando seu carinho. Na pista, como no filme Dio comme ti amo, em que Gigliola Cinquenti encontra com o ser amado, a aprendiz oferece um fraternal abraço, em gratidão após tantas viagens realizadas, mesmo neste espaço limitado, mesmo em tempos tão reclusos. E para encerrar a história dentro da história, retorna à Bíblia, recolhendo palavras do Evangelho segundo São Mateus: “Vós sois o sal da terra…” (…), para oferecer a flor da escrita à professora, aquela que traz luz ao mundo dos alunos com seu amor às letras.

Recife, 15 de Outubro de 2020.

*

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Borboleta púrpura

Oh, alma minha!

Te queria leve.

Pluma suave.

Borboleta púrpura.

Voando pelos ares.

*

Por que não deixas

Este casulo?

Este tirano…

Que te mantém.

Mente insana

Que te impede de voar.

*

Vem, alma minha.

Singrar mares.

Romper os ares.

Em descobertas fatais.

*

Vem, alma minha.

Também quero viajar.

Nas tuas asas macias.

Na tua pele de seda.

Te dar meu beijo suave.

Impulsionar teu salto.

Para fora desta redoma.

*

Vem, alma minha,

Navegar comigo.

*

Deixa que eu infle as velas,

Enquanto abre tuas asas.

Singremos mares,

Por ti nunca navegados.

*

Joel Martins Cavalcante

Contato: jmartinscavalcante@gmail.com

A hora de Pedro

No dia que ele decidiu tirar a vida não choveu na cidade. Há dias, como é normal no mês de junho, chuvas fortes desciam em Alagoinha. Época de colheita de milho e feijão verde, festas dos santos mais devotados do Nordeste, como São Pedro, nome pelo qual foi batizado por sua mãe, uma devotada católica.

No dia que ele decidiu tirar a vida, como por essas coincidências do destino, a filha ligou para o orelhão da esquina de onde morava. Fazia tempo que não se falavam.

– Alô, pai, benção!

– Deus te abençoe, minha filha – respondeu a Marta.

– Como o senhor vai?

– Bem, com a graça de Deus.

– Pai, quero voltar aí no final do ano. Rever o senhor, os amigos, tia Júlia.

– Tudo bem, minha filha. Mas minha saúde não anda muito boa. Não sei se estarei vivo até dezembro – disse, rindo em seguida.

Falaram mais algumas coisas. A ligação não durou mais de dois minutos. Ela não citou como estava o irmão, João, que havia acabado de tornar-se pai pela segunda vez.

Desde que Maria, sua esposa morreu, há dez anos, que os dois únicos filhos partiram para o Rio de Janeiro, levando apenas poucas coisas nas costas, e querendo deixar os traumas da bebedeira do pai para trás. Marta havia acordado naquele dia com algum pressentimento. Ligou, antes de falar com o pai, para João. Ouviu do irmão o relato da noite insone e dos pesadelos que teve nos poucos momentos que conseguiu pregar os olhos. Mas ele não queria saber do pai.

Ele não bebeu no dia que decidiu tirar a vida. Acordou cedo. Foi na pocilga ver como estavam os porcos. Depois de colocar a lavagem para alimentar os animais, foi tomar banho. Colocou a melhor roupa que tinha no armário, comprada para a celebração do Crisma dos filhos gêmeos há quinze anos. Perfumou-se. Saiu pelas ruas da cidade.

– Pedro, tem carne de porco já?

– Não. Não venderei mais. Vou me matar – respondeu a um freguês, mas não foi levado a sério.

Chegou no principal bar no centro da cidade, perto do açougue onde vendia a carne suína. Pediu uma Coca-Cola.

– Tá de brincadeira, né? Não beber cana hoje? – perguntou o dono do bar.

– Vou me matar. Não quero ser encontrado com cheiro de cachaça, disse.

– Arrumado do jeito que tá você deve ter algum encontro.

– Com minha morte – respondeu, não sendo levado a sério.

A carne de porco que vendia era a melhor da região. Mas fazia muito tempo que havia se entregado ao alcoolismo. Já bebia antes de Maria morrer. Mas aumentou muito depois que os filhos foram embora. Diziam as más línguas que o câncer que ceifou a esposa foi causado pelas brigas e surras constantes que ela levava dele. Nem conseguia matar mais os animais. Nos últimos tempos pagava para alguém ficar vendendo em seu lugar.

– Até mais, Severino. Qualquer coisa a gente se encontra no outro lado da vida – disse após pagar a conta e sair do bar.

Foi em direção ao antigo prédio de um armazém abandonado. Pegou a corda escondida há três dias. Era por volta de duas e meia da tarde. Pouco movimento na rua. A maioria das pessoas tiram a soneca após o almoço, despertando por volta das três horas, com o toque do sino da igreja, convidando para o terço da misericórdia.

Amarrou a corda em um ferro alto perto da lavanderia do velho armazém. Pegou um tamborete. Subiu nele. Colocou a corda no pescoço. Rezou uma ave-maria, se benzeu, pediu perdão a Deus, e pulou para a sua viagem eterna.

Pouco depois, uns adolescentes que iam para o quintal do velho armazém pegar goiabas tiveram um susto ao ver o homem pendurado. Saíram correndo. Primeiro encontraram Severino, já que o bar ficava perto.

– Pedro tá pendurado no armazém – disseram.

Severino foi lá. Constatou. Aos poucos a notícia foi se espalhando na pequena cidade. Curiosos e conhecidos viram Pedro enforcado. Uns choravam, outros só comentavam da tristeza que ele expressava nos últimos tempos. O dono do bar falou do suicídio anunciado, mas ele não havia acreditado. Um pouco mais adiante o sino da igreja começou a repicar. No alto-falante da matriz começou a reza: “Pela sua dolorosa paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro.”

*

Luciana Beirão de Almeida

Uma Viagem Inesquecível

Oito módulos,

Oito meses.

Viajando no tempo e no espaço.

Respirando arte,

Banhando-me em cultura.

Mamuskas, Macabéas, Kareninas,

Entre travesseiros e corvos eu sonho.

Embarco nessa viagem com muita curiosidade.

Vamos juntas trilhando

Caminhos repletos de beleza e novidades.

Chego ao destino final

Com a certeza de que há muito ainda a se explorar.

Me pergunto quando será a próxima aventura,

E duas palavras saem voando do meu peito

Para pousar no papel

Em forma de poesia.

Obrigada, Patrícia!

*

Paulo Roberto de Jesus

Contato: poujesus@hotmail.com

Vestida de noiva

Muitas dúvidas na cabeça de Jorge. Pensava que o dia em que passasse dessa para outra esfera teria certeza das coisas, dos conhecimentos, mas que nada.  O casamento marcado com Virna tinha tudo pra dar certo. Isto dito no duplo sentido. O casamento enquanto vivência a dois, ou seja, a vida de um casal que se ama e o casamento enquanto festa. Sim. Estava tudo finalizado para os comes e bebes. Igreja, salão de festas, comidas, bebidas e tudo o mais estava providenciado.

Jorge foi à casa de Virna para passar algumas horas com a noiva. Faltava uma semana para o casamento. Virna era só alegria. Jorge chegou de supetão e viu Virna experimentando o vestido de noiva. Fazendo os últimos ajustes com o auxílio da mãe Josélia. A mãe de Virna disse para Jorge sair porque não é de bom agouro que o noivo veja a noiva com o vestido de noiva antes do casamento. Jorge deu uma sonora gargalhada e disse pra sogra que isto é bobagem, superstição, coisa de gente que acredita em mula-sem-cabeça. Josélia respondeu que acreditava porque, como diz o povo, onde há fumaça há fogo, e não é de bom tom brincar com a sabedoria popular.  Jorge não deu ouvidos e inclusive ajudou a sogra a ajustar o vestido da amada. Aproveitava a ocasião para dar uns leves beliscões em Virna com o intuito de provocá-la.  A noiva também não gostou da ideia de Jorge ajudar no ajuste do vestido, mas como o noivo teimava em ficar, concordou.

Após o ajuste, lancharam e dona Josélia deixou o casal a sós. Trocaram beijos e carícias antes de Jorge retornar à casa.  Ao se despedir, o jovem beijou a noiva, subiu em sua moto e dirigiu-se para casa. Andava tranquilo e dentro da velocidade da via. A neblina, serração como chamamos em Curitiba, era alta e não deixava Jorge ter visibilidade do que estava a sua frente. O rapaz seguia tranquilo quando de repente bummmm. Tudo apagou. Tudo ficou escuro. Então Jorge viu a moto toda torta com a batida e um corpo estendido no chão. O corpo parecia ser o seu. Não entendia direito o que havia acontecido. Viu uma caçamba de resíduos deixada no meio da via e viu que a falta de visibilidade o impediu de ver a caçamba e, embora estivesse na velocidade recomendada, o choque foi o suficiente pra retirar-lhe a vida.                

Via o corpo no caixão sendo velado na capela. Via sua noiva inconsolável. A sogra e os amigos chorando. Todos lamentando o acontecido. Pensou quem será o infeliz que colocou aquela caçamba fora de lugar e provocou o fim de sua vida e o enorme sofrimento da noiva? De repente um silencio total e Jorge vê Josélia dizer para Virna e um grupo de pessoas que a rodeavam que ela havia prevenido o genro que não é de bom agouro ver a noiva com o vestido de casamento antes do casamento. O teimoso não acreditou.