O Amor Perfeito existe?*

Patricia Tenório

06/02/2011

(Melhor ver com o Internet Explorer)

Para a Confraria das Artes

&

Gabo

Me perguntam se o Amor Perfeito existe. Penso ser esta a questão primordial do Ser Humano, para o que viemos a esse mundo, mesmo que o coloquemos num trono distante e inatingível.

Pouco a pouco a foi idealizando, atribuindo-lhe virtudes improváveis, sentimentos imaginários, ao fim de duas semanas a única coisa em que pensava era ela.

Às vezes perseguimos o que não possuímos, o que não nos foi legado de geração em geração, o que não nos foi ensinado na matemática da vida.

Contudo, Fermina Daza estava ainda a salvo da mera curiosidade do amor, e a única coisa que lhe inspirava Florentino Ariza era uma certa pena, porque lhe pareceu que estava doente.

O vemos pela primeira vez. Inocentes, mergulhamos no mar sem fim, escavamos para encontrar terra fértil e o fazer germinar.

Lembrou a ele que os fracos não entram jamais no reino do amor, que é um reino impiedoso e mesquinho, e que as mulheres só se entregam aos homens de ânimo resoluto, porque lhes infundem a segurança pela qual tanto anseiam para enfrentar a vida.

Ouvimos pedidos de casamento, juras eternas de um amor perdido no tempo, no espaço. Nas horas.

… Fermina Daza se sentia tão confusa que pediu um prazo para pensar.

Mas o Amor Perfeito não passa, não nasce de um simples instante, não se constrói do nada. Ele nos alicerça onde pertencemos, o lugar para onde retornaremos em busca de sal e luz do mundo.

E mais: do instante em que se viram pela primeira vez até o instante em que ele reiterou sua determinação meio século depois, jamais tiveram uma oportunidade de se verem a sós nem de falar de seu amor.

Abro a cortina e vejo a luz despontando no horizonte, entregue por mães, mulheres que se apresentam a mim pela primeira vez, e pela primeira vez sinto que o coração se aquece.

Uma noite voltou do passeio diário atingida pela revelação de que não só poderia ser feliz sem amor como também contra o amor.

 

Não bastam os encontros. É preciso o olhar sincero, mãos que se estendem e não me deixam só, palavras acarinhadas aos ouvidos e olhos numa noite em minha casa.

Naquela tarde, enquanto o pai dormia a sesta, mandou-lhe por Gala Placídia uma carta de duas linhas: Hoje, ao vê-lo, descobri que só nos unia uma ilusão.

Por mais enganos, desencontros, ele estará sempre, lá, aqui, no âmago da palavra chamada desejo.

Era ainda jovem demais para saber que a memória do coração elimina as más lembranças e enaltece as boas e que graças a esse artifício conseguimos suportar o passado.

Nos encolhemos à sua procura, padecemos por não sabê-lo mais perto do que imaginávamos.

Florentino Ariza não sentiu ciúme nem raiva, e sim um grande desprezo por si mesmo. Sentia-se pobre, feio, inferior, e não só indigno dela como de qualquer outra mulher sobre a terra.

Mas vem o vento com o tempo escamando a pele em rugas e nos traz a sabedoria dos pequeninos, a paciência dos que muito viram, e sentiram, e amaram.

O comandante olhou Fermina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites.

Cortemos o que não nos vê, lancemos fora a quem nos reprova. Abramos o coração altivo e infinito para os que enxergam em nós a imensidão de amar e ser amado.

Acabou pensando nele como jamais imaginara que se pudesse pensar em alguém, pressentindo-o onde não estava, desejando-o onde não podia estar, acordando de súbito com a sensação física de que ele a contemplava na escuridão enquanto ela dormia, de maneira que na tarde que sentiu seus passos resolutos no tapete de folhas amarelas da pracinha, custou a crer que não fosse outro embuste da sua fantasia.

Casados, solteiros, a maior solidão é de quem não se enxerga, inteiro, como presente da Criação, Bondade e Amor infinitos.

Contudo, era sua convicção que uma viúva desconsolada, mais do que qualquer outra mulher podia carregar em si a semente da felicidade… As muitas viúvas de sua vida, a partir da viúva de Nazaret, tinham tornado possível que ele vislumbrasse como eram as casadas felizes depois da morte dos maridos.

Mas é preciso construir, cuidar dia-a-dia, senão a semente morre e não germina, a planta cresce e não dá flor, o fruto nasce e apodrece.

O problema do casamento é que se acaba todas as noites depois do amor, e é preciso tornar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do café.

Para que cada instante seja único, na alegria, na tristeza, na morte-vida dos seus sonhos, dos meus sonhos. Dos nossos.

O problema da vida pública é aprender a dominar o terror, o problema da vida conjugal é aprender a dominar o tédio.

Não haverá encontro igual ao outro, idéias, percepções serão distintas, dores e prazeres comungados, nesta festa que se chama Confraria das Artes.

Mas se deixou levar por sua convicção de que os seres humanos não nascem para sempre no dia em que as mães os dão a luz, e sim que a vida os obriga outra vez e muitas vezes a se parirem a si mesmos.

E o muito obrigada a Gabo que nos convida a nunca desistir de buscar o Amor Perfeito, mesmo que se passem cinqüenta e um anos, nove meses e quatro dias.

O Amor nos Tempos do Cólera

título original: (Love in the Time of Cholera)

lançamento: 2009 (EUA)

direção:Mike Newell

atores:Javier Bardem, Giovanna Mezzogiorno, Benjamin Bratt, Fernanda Montenegro.

duração: 139 min

gênero: Drama

httpv://www.youtube.com/watch?v=l7pSWkCd3Xk&feature=related_________________

* Um diálogo com as frases escolhidas por Alice Côrtes e Diana Corte Leal, da Confraria das Artes, frases retiradas de O amor nos tempos do cólera, de Gabriel Garcia Marquez. Informações e fotos retiradas do site www.adorocinema.com/filmes/amor-nos-tempos-do-colera