Escrita Criativa em mim* | Patricia Gonçalves Tenório**

Agosto, 2020

Capítulo 1 – Domenico

            Pode-se escutar os passos das pessoas subindo a escadaria de ferro. No auditório, as cadeiras organizadas em fileiras de cinco, e os inúmeros convidados não param de subir os degraus da escadaria, com roupas coloridas, sorrisos e o desejo de conhecer aquele velhinho misterioso.

            Abril de 2002. 18h. José Mindlin chega na hora marcada. Eu o aguardo na entrada da Livraria Domenico que inaugurei há aproximadamente um mês. Ele traz debaixo do braço um exemplar do seu Uma vida entre livros[1]. E uma dedicatória:

“Para Patricia, que também sofre do mesmo mal de viver entre livros, a piedade do José Mindlin.”

            Mindlin nos presenteia com uma palestra inesquecível sobre a leitura, ainda melhor, sobre o amor à leitura dos livros raros que ele tanto possuía. Nos conta casos detetivescos de como conseguiu escavar exemplares originais de O guarani, Os lusíadas, por exemplo; de como abriu e fechou uma livraria por vender e logo em seguida recomprar dos clientes os livros que, no íntimo, não desejava se desfazer; de como esse repórter, advogado, empresário, escritor, editor, livreiro e bibliófilo da cidade de São Paulo, aos treze anos iniciou a sua coleção de livros raros pelos sebos da cidade e além-mares, até chegar ao número inacreditável de trinta mil volumes, que guardava com todo cuidado e carinho na biblioteca da sua residência – em 2006 o acervo foi inteiramente doado para a Universidade de São Paulo (USP).

           E nada mais justo, para inaugurar o primeiro dos doze capítulos desta coluna mensal, do que trazer o exemplo do grande leitor que foi José Mindlin. A leitura, especialmente dos clássicos, é a base para que se escreva cada vez mais e melhor. Não canso de lembrar do saudoso mestre Ariano Suassuna quando na sua bíblia, Iniciação à estética,[2] nos avisa que é preciso o ofício, ou trabalho diário, mas também – ouso dizer principalmente – a técnica, ou estudo contínuo, para quando a forma, ou intuição criadora, descer do sol feito ave de rapina, estarmos preparados para dar o salto e fazermos nascer uma obra de arte.

            No próximo capítulo, navegaremos pelas oficinas literárias, do Brasil e do mundo, uma das ferramentas imprescindíveis para alavancar a Escrita Criativa em mim.


Domenico Livraria. Abril, 2002.



[1] MINDLIN, José. Uma vida entre livros: reencontros com o tempo. Prefácio: Antonio Candido. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo e Companhia das Letras, 1997.

[2] SUASSUNA, Ariano. Iniciação à estética. Texto revisado e cotejado por Carlos Newton Júnior. 5ª edição. Recife: Ed. Universitária da UFPE. 2002.

* Coluna publicada mensalmente nos blogs www.veragora.com.br/tesaoliterario e www.patriciatenorio.com.br.      

** Escritora, dezessete livros publicados, sendo um em formato vídeo-podcast, mestre em Teoria da Literatura (UFPE) e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e https://www.youtube.com/estudosemescritacriativa