Estudos em Escrita Criativa On-line – Agosto, 2020

Os russos

Patricia Gonçalves Tenório*

Um dos principais propósitos dos Estudos em Escrita Criativa On-line é tentar se colocar no lugar dos autores de todos os tempos, descobrir suas técnicas e compartilhar com os que desejam escrever bem.

Se Liev Nikoláievitch Tolstói nascesse hoje, iria nos encontrar analisando um dos textos mais conhecidos da Literatura Ocidental: Anna Karenina. E analisando-o à luz das técnicas e dos conceitos trabalhados em nossos EEC desde 2016. Narrado em terceira pessoa do singular, acompanhamos a vida de dois personagens principais e seus núcleos: Anna Arcádievna Kariênina e Konstantin Dmítritch Liévin. Cidade ou campo. Kariênin e Kariênina. Amor ou ódio. Aleksei Kariênin e Aleksei Vrónski. Perdão ou vingança. Aliás, muitos estudiosos, comparando Liev Tolstói com Fiodor Dostoiévski, afirmam que Anna Karenina está para a lei do Antigo Testamento enquanto Crime e castigo está para a graça do Novo Testamento.

É interessante notar como Tolstói narra a partir de diversos focos narrativos, ou como o professor da PUCRS e romancista gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil enumera no seu manual de EC, Escrever ficção: as focalizações interna, externa e onisciente.

Parece-nos que Tolstói usa a focalização interna mesclada com a focalização onisciente. Notamos essas características em personagens pouco comuns – o filho de Anna e Aleksei Kariênin, Serioja, ou até mesmo a cachorra de caça de Liévin, Laska. Por meio de aspas ou da linguagem corrida, adentramos no universo de uma criança de oito anos, ou de uma cachorra, e, de maneira fluida, passamos de um personagem a outro.

Outra técnica de EC usada por Tolstói no seu romance-bíblia encontra-se nas repetições. Como vimos em nossos Estudos, tudo tem uma função no texto bem escrito. Nada sobra. Nada está fora do lugar. Quando Tolstói repete certas frases, as entendemos como refrões de uma música.

Encontramos mais técnicas de EC na leitura de Pais e filhos, do prosador, poeta, dramaturgo, tradutor e ensaísta russo Ivan Serguêievitch Turguêniev (1818-1883). A começar pelo seu personagem principal, Bazárov. Inspirado em um médico de província que Turguêniev conheceu numa viagem de trem na Rússia, o personagem foi sendo construído à medida que escrevia o romance e carregava em si os conceitos essenciais do niilismo, também herdados de Vissarión Griórievitch Bielínski, a quem o autor dedica o livro.

Finalizamos o sexto módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com os russos e a Escrita Criativa.       

* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

Módulo 6 – Aula 1:

Módulo 6 – Aula 2:

Módulo 6 – Aula 3:

Módulo 6 – Aula 4:

Exercícios de Desbloqueio:

Módulo 5 – Japão:

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Um livro de cabeceira na vastidão da escrita

There is another sky,

Ever serene and fair,

And  there is another sunshine,

Though it be darkness there (…)

                                                                                                                                           (Emily Dickinson)

Em um mundo distópico como o de Atwood , desapartado do mar de Sofia, a vela do pensamento se abre para a brisa da retrospectiva desse tempo passado em muitos lugares percorridos na escrita. Consulto mentalmente a relação dos livros que precisarei reler, a dos filmes que ainda faltam assistir e dos poemas, como o de Emily Dickinson, que ainda desejo recitar nesta permanência em casa. Se as listas estivessem todas juntas numa só caderneta, poderia até chamar de livro de cabeceira, como o da Sei Shônagon! E lá, naquele local, o deixaria, caso quisesse consultar, não me perdendo em meio a tantas listas em tempos tão cheios de atividades e projeções futuras.

Observo a mulher que escreve com a mesa abarrotada de planners, cadernetas e papeis avulsos com suas listas de atividades diárias que precisam ser cumpridas, da interminável feira semanal que mal se extingue, recomeça do zero, da relação de consertos acumulados, de novas aquisições tão necessárias e a indispensável lista de pagamentos a serem efetuados e monitorados para não haver esquecimento no meio de tantas listas não tão agradáveis, contudo imprescindíveis. Mesmo assim, sabe que até o cotidiano tem seu lado literário, conforme aprendeu. É de longe, como Murakami sugeriu, que vejo minha personagem favorita fazer o esforço no aprendizado da escrita, procurando, como no jazz, a cadência melhor para deixar fluir as palavras rascunhadas no papel, por vezes apressadas, pois o relógio lhe avisa do esvair dos segundos e no esforço para não perder o tom nem o fio da meada. Da mesma forma, vejo-a surgir na escrita com personalidade, do mesmo jeito que o Tomas de Kundera, ou, quem sabe, como um dos heterônimos de Pessoa?

Maria para por um instante, me acalma e aponta para mim outras listas mais queridas, marcadas na sua agenda que, desapercebidamente, se encontra na gaveta da cabeceira… Lá encontra-se a lista dos livros que já leu este ano, a relação do muito que realizou, mesmo nesse período de isolamento, e me responde que, ainda que esteja nesse alvoroço diário das listas obrigatórias, tem algo que também se acumula dentro de si, assim como fazem as árvores que florescem depois de um tempo acumulando vida.

Ela avisa que as palavras encontrarão o caminho para a história daquele momento singular, o melhor que pode entregar nesse difícil, corrido e exíguo tempo que se chama agora, um tempo quase tão escuro quanto naqueles períodos de guerra dos poemas de Wislawa…

Ao me deixar contemplativa, Maria volta para sua escrita. Olha para a luz da tela da TV, lá está a mulher que chama todos de escribas e anima a escrever. É para ela essas linhas perante um mundo de possibilidades que vem recebendo. Um vasto mundo de conhecimentos, como o mar de afetos que faz com que deslize a escrita no papel, ainda neste dia, dentro do tempo estipulado. Aproveitando a duração do dia, como Adélia.

Maria aprendeu que a história surge nesse repente e do aprendizado resultante de um livro próprio de cabeceira guardado no fundo do coração. Depois, é só trabalhar o instante e entregar o texto numa hora perfeita, brilhante como uma estrela de Clarice, que pode resultar simplesmente daqueles minutos carregados com a leveza do ser, ou com a profundidade da lua.

O despertador toca, a escrita congela. Maria fecha o caderno, desliga a TV, eu sujeito mais um texto que comporá o rol daqueles produzidos no possível agora e agradeço.

Recife, 22 de Julho de 2020.

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

LEVEZA

01.08.2020

Borboletas

Luz pálida

Orvalho

Grama verde

Sorriso

Corais

Madrepérola

Tuas mãos

Flor de algodão

Beija-flor

Cor lilás

Nuvem de pó

Flauta doce

Amanhecer

Abelha

Pérolas

Cristal

Raio de luz

Tua pele

Arrepio

Arco-íris

Cetim

Papel em branco

Girassol

Joel Martins Cavalcante

Contato: jmartinscavalcante@gmail.com

Um dia da quarentena

        Acordei desesperado. As imagens que passavam na minha frente eram aterradoras. Que espécie é essa? Grito. Parece que ninguém escuta. Faço um esforço para ver esse ser estranho. Um esqueleto, com chifre, típico das imagens medievais do diabo, com um algo parecido com tridente na mão, aponta para o meu pequeno guarda-roupa. Em cima do móvel havia minha garrafa de mel, que devia estar guardada no armário da cozinha. Que estranho.

        Faço um esforço tremendo para acender a luz. O interruptor, apesar de ficar bem próximo, um pouco acima da cama que durmo, parece ter desaparecido. Quando o acho, ele não atende ao meu comando. E agora? Sem luz, sem entender direito o que acontece ao meu redor, me entrego por completo ao momento.

        Consigo, com muito esforço, sair de minha cama. Vou até o quarto ao lado. Minha mãe está nele. “Mãe, estou tendo paralisia do sono, só vejo imagens ruins, ninguém me escuta, a luz não acende, já rezei e tudo, mas nada”, falo. Ela não diz nada. Sento na cama um pouco, mas retorno ao meu quarto.

       Finalmente, depois de um momento, consigo acertar a luz. Nessa hora acordo. Ufa, tudo era sonho, na verdade paralisia do sono. Interessante que, mesmo nesse estado, diferente das outras vezes, eu tenho a percepção do que está acontecendo. Minha mãe estava há mais de 100 km de distância, mas eu conto tudo que passa, durante o fenômeno, a ela. Estou consciente de tudo.

       Rezo. Dessa vez rezo consciente, já passada a situação. Peço a Deus para voltar a dormir. Mas não consigo. Daqui a pouco são cinco horas da manhã. Escuto, aumentando o número de vezes, sons de carros e motos passando na avenida principal. Isso me perturba.

        Vou até o chuveiro. Enquanto a água escorre pelo corpo tento reviver, ou melhor, rememorar a situação vivida na madrugada. Nem percebo que já saí do banho quando me dou conta que esta segunda-feira será longa.

        Tomo três copos de água. Penso em ir até a padaria comprar algo para comer, já que não sinto nenhum pingo de coragem de fazer alguma coisa na cozinha. Desisto. Vou ficar em jejum. A quarentena aumentou muito meu peso corporal.

        Ligo o rádio. Notícias policiais em uma emissora. Passo a estação. Música de forró na outra. Mudo a frequência novamente. “O Senhor tem um plano para a sua vida, aceite logo Ele”, diz o pregador da rádio evangélica. Nada me agrada. O dia será longo.

        Fico na cama. Pego rapidamente no sono, mas logo o despertador me chama para a aula remota da faculdade. Que saco. Abro o notebook e entro na sala virtual. “Bom dia, professor Rodrigo”, digo, “bom dia, Caio”, ele responde.

Levo o computador para a cama, e finjo, por alguns instantes, interesse pela aula. Logo as pálpebras ficam pesadas. Cochilo. Desperto pouco depois das onze horas, morrendo de medo de ter perdido a chamada. Pouco tempo depois, o professor começa a fazer. Graças a Deus, suspiro de alívio.

Termina a aula. Peço um almoço pelo aplicativo. Vinte minutos para chegar. Uma eternidade. Acompanho o movimento do motoboy todo no app. Quando ele se aproxima, eu desço para receber a refeição. “Comida ruim”, falo. Nada hoje está bom. Que dia!

Refeição feita, escovo os dentes, tomo outro banho. Vou pra sala e pego novamente o notebook. Começa meu estágio. De uma às cinco da tarde. A redatora manda uns releases, faço umas modificações e publico no site. Droga, tenho que ligar para uma fonte, checar uma informação e depois fazer a matéria. Esse dia não acaba.

Fim do estágio. Tento fazer exercícios, mas logo desisto. Tomo um banho. Preparo uma refeição rápida. Às sete da noite tenho uma reunião. Que saco. “Por que inventei de entrar nesse coletivo?”, penso.

Reunião começa. Oito pessoas na sala virtual criada. Muitas discussões. Desacordos. Falo rapidamente minha opinião sobre um determinado assunto. Depois abro o microfone para apoiar uma companheira. Pronto, são quase vinte e duas horas quando tudo acaba.

Estou morto de sono. Faço chá de camomila para tentar dormir logo. Tomo dois copos grandes. O efeito demora a chegar. Olho o celular: quase meia-noite. Estou com sono, mas não consigo dormir. O dia ainda está sendo longo.

Pego no sono. Acordo de madrugada, mas volto a dormir em seguida. São seis da manhã de terça-feira. Fico um pouco mais na cama já que não tenho aula hoje. Desperto quase meio dia. Acesso o Youtube e vejo a última aula do módulo cinco do curso de escrita criativa. Assisto. Tenho de fazer mais um exercício de desbloqueio. Começo a escrever sobre o dia longo de ontem, enquanto não chega a hora do estágio.

Paulo Roberto de Jesus

Contato: poujesus@hotmail.com

Optei pelo modelo citado por Murakami, até porque não li Shônagon. Escrevo com o ritmo de uma valsa na cabeça.

                No primeiro módulo estudamos os autores de língua inglesa onde degustei os recortes feitos por Patricia Tenório. Não lembro de ter lido os autores trabalhados, mas o que pude absorver dos recortes certamente soma nesta caminhada literária. Ah, gosto de lembrar de uma fala de Patricia: “A escrita é salvadora”.

                No segundo módulo foram os autores portugueses que estudamos. Sophia de Mello Breyner e Fernando Pessoa entre outros. Sophia ainda não li. Mas já li Pessoa e seus heterônimos: Caeiro, Bernardo e outro que não recordo agora. Gosto também de Eça de Queiroz e outros. Não sou especialista em literatura portuguesa, mas alguns autores me gustan. Recentemente estive lá e trouxe Florbela Espanca, Camilo Castelo Branco entre outros. A literatura portuguesa é vasta e riquíssima. Viva Camões.

                No terceiro módulo estudamos os autores tropicais. Clarice Lispector e Adélia Prado. Clarice já li alguma coisa, mas de Adélia li somente alguns poemas. Estou em débito com Adélia. Do Brasil gosto de muitos autores, de Machado a Paulo Leminski. Não esquecer dos Veríssimos, Patativa do Assaré com sua poesia genuína, homem do povo, poeta de vida sofrida. São tantos os autores que o pouco tempo para escrever o texto faz-me citar estes que vieram à memória.

               Depois demos um pulo para o Leste Europeu quando Patricia nos falou de Kundera que não li, de Kafka que já li alguma coisa e gostei muito. Quando jovem, talvez uns dezoito anos, menos de vinte certamente, e sem formação acadêmica, li A metamorfose. Aquela leitura me deu um “barulho” que não foi mole. Eu torcia para que Sansa voltasse a ser homem e deixasse de ser barata. Aquela agonia do sujeito metamorfosear-se em barata… Loucura. Li, porque encontrei free na internet, um livro de poemas de Wislawa Szymborska. Não lembro muito dos poemas. Talvez deva ler novamente.

Finalmente no quinto módulo viajamos dentro da literatura japonesa. Não consegui nada da Sei Shônagon, mas consegui o Romancista como vocação de Murakami que estou terminando de ler. Gosto das dicas, não sei se as aplicarei. Mas tudo o que aprendi neste curso até agora estou gostando. Pretendo colocar em prática algumas das técnicas junto com outras que domino e veremos no que dará. Certamente uma nova técnica que seja o misto das técnicas que conheço, das que estou aprendendo e das que conseguirei pôr em prática. Também vi alguns filmes que sugeriu. Alguns já havia visto. Sempre que vejo algum filme baseado em literatura ou fatos reais assisto. O Curso está gostoso e sempre espero a terça-feira para assistir um novo módulo. Prazer em conhecê-la. Grato pelo curso. Saudações poéticas e democráticas.


Módulo 6 – Os russos:

Bernadete Bruto

SEM TEMA

(…) eu canto

porque o instante existe e minha alma está completa.

(Cecilia Meirelles)

As batidas do coração saltam fortemente até os ouvidos. Mãos geladas, respiração em suspense, mente vasculhando ideias na pressa. Um estado de alerta sempre despertado em momentos como este, como se fosse assim sua natureza em resposta à vida e agora na escrita. O dia não estava ventando para que a friagem perpassasse pelo corpo como um aviso refletido em rosto tenso.

Sempre ele. O Senhor Tempo com um relógio entre as mãos cronometrando os passos por toda uma existência, marcando os dias, meses, anos… até aquele instante de criação. Está presente também na escrita que se espicha enviesada no caderninho em resposta, ao mesmo tempo em que vasculha as paredes da memória. Um caderno, a caneta, a escrita. Escreve buscando um tema que faça sentido as letras entortadas de forma quase ininteligível preenchendo o espaço entre linhas tão retas. Linhas tão retilíneas exigindo o perfeito à altura dos russos. E o tema brinca de esconde-esconde com aquela menina que ainda hoje vive correndo para acompanhar os passos largos cadenciados da mãe caminhando por todo centro da cidade. Agora, na escuridão da caverna empilhada de livros, se pergunta qual é mesmo o tema para hoje e tudo isso por culpa do tempo!  Caros leitores, quantas vezes ouvira e até afirmara que o tempo cura tudo? Parece que não é sempre assim… Mas talvez nem seja o tempo o verdadeiro vilão…

Faz muito tempo que respirou o ar puro olhando o céu azul, sentido a brisa leve passando como uma suave canção pelo corpo, o coro de passarinhos nas verdes copas das árvores, ressoando no coração em completa comunhão com a natureza. O tempo já distante nas deliciosas horas de ócio. Neste momento, somente a Água viva de Clarisse com uma pergunta se o tema é o instante.  O que sente é algo associado ao correr das horas sem gosto de passatempo. Faz muito tempo que o receio se instalou naquela mente a recitar Cecilia Meirelles: não sei se fico ou se passo… talvez ela não saiba mais como sair de casa e sabe que não pode ficar indefinidamente…

A mão crispada correndo aflita dá o tom da urgência perante o Senhor Tempo. É daí que surge aquilo que se esgueira no peito. O anseio de sempre que pensa que o momento acabou sem a chance de encontrar um tema. Quase enxerga os poucos grãos de areia que ainda restam no alto da ampulheta, sente na pele a fração de segundos que não permitirá chegar ao final. Respira fundo e abraça a ansiedade. Rende-se ao sentimento que caminha ao lado faz um bom tempo. Nem sabe mais quando se instalou em sua vida. Sabe que deve encarar a angústia.

Observo-a procurando a palavra derradeira, leitores. Percebo o esforço de tentar utilizar em pequeno pano de fundo algo dos ensinamentos da apurada escrita russa. Naquela estação da vida, os trilhos devem correr soltos, o trem que chega em breve parte e não pretende entregar os pontos desistindo da vida, tão amada! Chega, então, na aceitação do que pode ser escrito. Decide se entregar àquele instante poético cheio de serenidade onde um coração bate compassadamente, pura melodia, mesmo sem um tema.

Recife, 19 de agosto de 2020.

Joel Martins Cavalcante

Mulher virtuosa

        As palavras do pastor no culto de ontem, domingo, não saíam da cabeça de Lúcia. “Não leste que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher e disse: – Por isso deixa o homem pai e mãe e une-se com sua mulher e os dois formam uma só carne? Não separe, pois, o homem o que Deus uniu.” Acordou cedo. Tinha de fazer o café da manhã do marido e dos filhos, além de passear com Bela, sua cachorrinha.

         “Oi, seu João, bom dia”, cumprimentou o vizinho idoso. Saiu por algumas ruas com Bela. Na mente a pregação do pastor remoía. Casamento é coisa de Deus. Divórcio é coisa do diabo. Se você não aguenta seu marido, ore e seja firme, porque Deus tem um propósito em tudo. Olha para o braço da mão que segurava a corrente da cadela. Estava roxo.

         Caminha pelas calçadas e nem percebe que Bela faz xixi onde não devia. A mulher de Deus é virtuosa. Se o casamento vai mal, a culpa é da mulher. Uma lágrima desce do rosto. Lembra das vezes que fez surpresas para o esposo, mas era ignorada. Só ganhava tapas em troca.

         Casou cedo. Nunca havia namorado antes. No encontro de jovens da igreja batista de uma cidade vizinha ficou encantada com aquele jovem que cantava louvor tão bem. As amigas em comum fizeram as apresentações. Ela, 16 anos, ele, 19. Um ano depois estavam casados. Nove meses em seguida vieram os gêmeos. Passaram cinco anos.

        No começo tudo foi como Lúcia sonhara. Amor para cá, amor para lá. Só bastou os filhos nascerem que tudo mudou. Ele ficava irritado com os choros, não queria ajudar nos banhos, colocar para dormir. “Isso é coisa para você”, dizia.

         Um dia, quando os bebês choravam muito com fome, ela foi fazer comida para eles. Na mesma hora o marido chegou do trabalho. “Cadê minha janta?”, disse. Não adiantou explicar o motivo do atraso. Ele derrubou a panela com papa de leite e meteu um tapa no rosto dela. “Eu sou prioridade. Eu, eu.” Depois vieram outras e outras.

         Todo domingo iam para a igreja. De mãos dadas entravam no templo. Ele levava um bebê, ela o outro. Lá havia um local onde as crianças pequenas ficavam. Duas horas de tranquilidade que passava. Orava para que a celebração fosse maior. Queria demorar para chegar em casa. O marido ainda cantava no grupo de música.

         Nem se deu conta quando já estava abrindo a porta de casa. O passeio com a cachorrinha passou rápido. Acordou o marido para o café. Deu banho nos filhos e os vestiu para irem para a escola. “Mãe, o que foi isso em seu braço?”, perguntou um deles. “Mamãe dormiu mal, meu anjo”, respondeu. Mas não ficou ressentida por mentir. Casamento é coisa de Deus.

        O marido foi para o trabalho. Lúcia levou os filhos para a escola. A professora, antes de receber os gêmeos, perguntou se estava tudo bem com ela. Viu seus olhos vermelhos. “Sim, professora. Graças a Deus.” Nunca teria coragem de deixar aquele casamento. Divórcio é coisa do diabo, disse o pastor.