Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2020

Estudos no outro lado do mundo

Patricia Gonçalves Tenório*

Viajamos milhares de quilômetros sem decolar das páginas de O livro do travesseiro, de Sei Shônagon, para a única região/país/língua que (ainda) não foi visitada na vida real pela ministrante dos Estudos em Escrita Criativa On-line.

No período Heian (794-1192), viveu a dama Sei Shônagon, nome de nascença Nagiko, e neta do poeta Kiyoharano Fukayabu. Shônagon serviu à corte de Teishi, na cidade de Heiankyô, atual Quioto, Japão. Em 994, a consorte recebeu um volume considerável de papéis. Inspirada nos travesseiros de poemas – tropos de poesia ou emprego figurado de palavras ou locução –, Shônagon deita sobre aquelas páginas a vida real, mas esteticamente metamorfoseada.

Chegamos à metade da nossa jornada de oito módulos dos EEC On-line. Para sedimentar os conhecimentos, fazemos uma retrospectiva, e encontramos, no primeiro módulo, o caso de O conto da aia, cuja narrativa é em primeira pessoa do singular, narrativa oral sem registros escritos, enquanto em O livro do travesseiro tudo é registrado nos papéis recebidos pela dama da consorte imperial.

Ao navegarmos para o nosso segundo módulo, descobrimos narrativas de viagens de Shônagon sem mesmo sairmos de Quioto, sem mesmo sairmos da Lisboa de Alberto Caeiro, Bernardo Soares, Fernando Pessoa, da cidade do Porto de Sophia de Mello Breyner Andresen.

Trouxemos o conceito de autobioficção da nossa tese em EC (PUCRS) tanto para o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, no segundo módulo sobre Portugal, quanto para A hora da estrela, de Clarice Lispector, e O homem da mão seca, de Adélia Prado, no terceiro módulo sobre o Brasil.

Em forma de fragmentos, encontramos diferenças e semelhanças entre o livro de Shônagon, A insustentável leveza do ser, do escritor tcheco Milan Kundera e até mesmo os Poemas, da escritora polonesa Wislawa Szymborska, que estudamos no quarto módulo dos EECs.

O segundo escritor do outro lado do mundo que apresentamos no quinto módulo dos EEC On-line é também nascido em Quioto: Haruki Murakami. No livro de ensaios Romancista como vocação, Murakami narra o início de sua trajetória como escritor. Avesso às academias, Haruki buscou a formação nos livros, sendo “ler muito” o primeiro e grande passo para quem deseja escrever. O segundo passo: observar detalhadamente os acontecimentos, mas sem julgá-los, sem chegar a conclusões rápidas.

Finalizamos o quinto módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com o Japão e a Escrita Criativa.    

* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com  e http://www.estudosemescritacriativa.com/

 

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Módulo 5 – Aula 1:

Módulo 5 – Aula 2:

Módulo 5 – Aula 3:

Módulo 5 – Aula 4:

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Exercícios de Desbloqueio – Módulo 4 – Leste Europeu:

Ágata Cruz

Contato: agatamg7@gmail.com

No escrever há o ser

O criar

O gerar

O fazer

Ter então a essência do ser-fazer.

Quem tem, gera em si

Dentro se forma

Ganha forma quando sai

E vai

Criando.

Escrever é ver o visto

Sentir o sentido

Criativo criar

Escrever é criar palavras que estão órfãs.  

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Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Para Milan Kundera, com admiração.

Surgiu na minha frente assim miúda, boca grande e sorridente. Um ar sapeca, como quem quer brincar, ao invés de expor uma história. Vejo uma garota espevitada de short e camiseta caminhando descalça em direção a sua casa depois de muitas brincadeiras nas redondezas. Está acompanhada de três irmãos também miúdos, em tamanho variados como se fossem uma escadinha, e vestidos do mesmo modo. O maior e todo metido a mandão ordena ao pequeno grupo que apresse o passo. Os dois menores o seguem sem protestar. A garota vai mais devagar, um pouco atrás, como quem desafia aquela autoridade que desconhece.

Os quatro adentram por um portão bem maior do que eles. A casa é invisível do lado de fora, porque é coberta por um muro bem alto pintado de branco e aquele portão também elevado, estreito e cinzento, faz um barulho peculiar quando se fecha. Há um caminho calçado, ladeado por uma aleia de arbusto que leva a casa cortando um grande jardim gramado. O jardim assim dividido em duas partes, tem diversas flores, plantas ornamentais, dois pinheiros, um de cada lado do jardim, um flamboyant pequeno e muitos copos de leite.  As crianças param nesse caminho e se dispersam.

 O maior, vai para o beco estreito que há no lado direito da casa. Segue em direção ao quintal. Vai tentar juntar-se aos meninos maiores e barganhar um lugar no jogo de futebol. O menorzinho, coitado! Foi pego pelas duas senhoras, sua mãe e sua tia, para ser levado ao banho. Segue calado por entre as duas senhoras que tagarelam comentando sobre seu estado, sem reclamar, obediente que é. A outra pequena sobe as escadas atrás deles e para no terraço onde se encontram as mocinhas. Vai ficar por lá escutando as conversas, se achegando como uma gatinha, esperando sua vez do banho.

A garota da nossa história permanece no jardim. Apenas vai para o lado esquerdo, por trás do pinheiro de corte arredondado, onde tem uma espécie de praça com dois bancos de granito, um defronte do outro, no centro da praça um pequeno flamboyant. Passeia pelo local. Inventa lugares, personagens. Histórias que ela ao mesmo tempo em que cria, também participa e organiza da melhor forma, como sente que seja melhor. Se não gostar, reconstrói e pronto, pois o divertimento é dela! De lá, por trás do flamboyant, ela me olha e pisca um olho. Sorri acenando para mim, apontando para o começo da escrita.  É lá no fundo das histórias, no lugar de era uma vez, do faz de conta, que toda criança encontra com seu inesgotável baú de narrativas, naquela pequena e criativa “caixola”.

A autora acha graça na personagem que dita um caminho. A caneta desliza pelo papel numa alegria desmedida, o prazer de deixar fluir a narrativa de forma leve. A personagem se chamará Berta! Esse som bem combina com aquela garota que recorda outra. E o título da história que irá desenvolver, já sabe de cor: A LEVEZA INSUSTENTÁVEL DE SER.

Recife, 25 de Junho de 2020.   

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Giovana Teixeira

Contato: gigiteixeira.pereira@gmail.com

A ficção

Costumava achar, quando li meu primeiro livro, que as personagens ali eram feitas de carne e osso. O papel era mero detalhe. O que descobri mais tarde, junto com todas as coisas tristes, foi que histórias não nascem com vida. Não importa o quão só estejamos o ato de coloca-las no papel não as torna reais. Qual é a função de quem escreve então? Bom, não posso deixar de pensar que a função de quem escreve é a de fingir e não, talvez, a de dar vida. Porém, fingimento esse que, ao contrário da vida, deve ter esboço. Quem cria raramente explica como o faz e, por isso, concepções de que clássicos literários surgem do nada são feitas. Mas a verdade é: nada surge do nada. O caos é a origem de todas as coisas fingidas, é impossível um improviso ser melhor do que uma peça ensaiada. Dessa forma, quando leio hoje me vem à mente que a ficção não é a vida, mas sim algo melhor do que ela. É um lugar que nasce debaixo da terra, cresce e permeia a humanidade.

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Joel Martins Cavalcante

Contato: jmartinscavalcante@gmail.com

Demônios e a escrita

         Escrever é exorcizar meus demônios internos. Não apenas quando relato acontecimentos reais. Criar situações e personagens que, de alguma forma, expressam meus sentimentos e visões de mundo, ajuda a tirar do meu interior o que me perturba, me abala, me sufoca.

         Os demônios internos, diga-se de passagem, não necessariamente são ruins. Na tradição cristã que fui criado, sobretudo a evangélica neopentecostal na minha adolescência, esses seres espirituais são sempre ruins, estão constantemente fazendo o mal, e expulsá-los é um dever para que o bem, Deus, possa habitar.

         Mas meus demônios internos são uma força criadora também. Tem algo negativo. Mas, ao mesmo tempo, me ajudam a prosseguir, a ter uma causa, a melhorar, a escrever, a ser mais humano. Parece contraditório, não é? Como um demônio ajuda no meu processo constante de humanização? Porque eles são como um espelho que eu me vejo. Sou o bem e o mal. A propósito, nunca esqueci do que um amigo, em uma noite de farra, me disse há uns anos: a vida é como um fio de energia, tem o lado negativo e o positivo, os dois são fundamentais para gerar a luz.

            Assim, quando escrevo, seja um texto real ou ficção/autobioficção (que comecei a partir deste curso de Escrita Criativa), aquele demônio interno sai e ganha uma outra vida. Ao expor meus medos, desejos, frustrações, sonhos, alegrias ou qualquer outro sentimento na escrita sinto uma leveza na alma no fim do processo criativo.

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Johany Medeiros

Contato: johanymedeiros6@gmail.com

Não lembro meu nome,

minha idade, de onde sou,

e para onde quero ir.

Não saber não me sufoca,

me liberta!

Principalmente quando minha caneta dança

pela folha em branco.

Agora na leveza do meu ser,

tudo vejo com novos olhos,

e meus dedos ágeis de fotografia,

registram cada cena tocante

ou insignificante.

O sofá velho no canto da sala,

o abajur em forma de gente,

os milhares de livros que talvez eu tenha lido,

as roupas com cheiro de naftalina,

o eco da minha garganta doente,

as minhas mãos enrugadas

e até as fotos de desconhecidos na parede

fazem sentido, mesmo sem fazer.

Mesmo esquecida de tudo,

diante do papel, minhas mãos ganham vida própria

e agora, consigo entender.

TUDO É POESIA. 

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Júnior Melo

Contato: juniormelo2005@gmail.com

Eu sinto o gosto amargo da angústia

As notas do piano não acalmam a alma perfuram-na

O gelo dos campos arde a pele e os olhos

Não sabemos o horizonte.

Sempre é inverno na alma mesmo que brilhe o sol

Nossas crianças pálidas e tristes, são como fantasmas vivos nossas retinas

Onde acharemos descanso a não ser no sono final?

Vem, amiga silenciosa, e abraça-me…

Mas o fio de prata ainda não se rompeu

Nem a roda junto ao poço cessou de ranger

O latido medonho dos cães me despertou

Encontrar significado no caos é a resposta

Ainda que em nosso vale, a sombra da amiga silenciosa seja quase palpável

As antigas palavras prometem redenção

O sal de minhas lágrimas perfurou o gelo nas retinas

Ergo-me como trigo após a chuva

Agora sou aço, puro e inoxidável aço

A vida não permite esboços ou ensaios

Ela é uma estreia contínua

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Lis Diniz

Contato: lisgranjeiro@gmail.com  

Primeira aparição

A palavra surgiu da necessidade.

Ao máximo possível segurou o silêncio, pois assim estaria na melhor posição:

em descoberta plena, até ser confrontada parindo uma frase inteira.

O gosto? Era sequioso de se afogar, como ser embalada a vácuo ou viver em eterna paralisia do sono.

Nada poderia contra a palavra, ela era sua títere.

E no meio dos VHS rebobinados e do teatro vazio, já em uma caixa, sentia-se pela primeira vez algo de uma natureza frágil e inútil, ao passo que em sua boca esperava o retorno dos cupins.

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Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br

Saturação do sentir

03/07/2020

O gole de vinho

perdido

no dia.

O gole de vida

sentido

todos os dias.

O ar que respiro

não flui

como antes.

Do que se trata?

dos tempos revoltos

sem eira nem beira

nem condescendência.

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Paulo Roberto de Jesus

Contato: poujesus@hotmail.com

A escrita criativa é um processo ótimo para desenvolver novas maneiras ou processos de escrever. Ela põe o escritor em movimento ao criar condições para que produza algo dentro de determinadas circunstâncias. É importante porque há escritores que vivem deixando pra depois o que apodem fazer agora. Incluo-me.

Ela faz o escritor produzir algo diferenciado do que normalmente costuma produzir. Tira o escritor de seu lugar comum e o desafia, retirando-o do conforto. Deste processo saem obras maravilhosas. A escrita criativa é necessária para desenvolver novas maneiras de produção. Ao conhecer o modus operandi de diversos escritores, o oficinista, sem perceber, acaba captando algo de cada autor visto ou estudado e, somado ao seu modus operandi de produzir, sai um novo processo produtivo.

Particularmente sinto-me desafiado quando alguém coloca algum texto e condições para que este texto seja produzido. Tenho um poema de nome Brincadeira de Criança na Síria que versei a partir da sugestão de um poeta chileno. Ele sugeriu que escrevêssemos sobre as crianças na guerra da Síria anos atrás. Uma produtora curitibana acabou gravando minha declamação do poema. Conto isto para provar a importância do desafio. Se uma sugestão de tema provoca isso, imagina um curso de escrita criativa.

Gosto de fazer cursos de escrita criativa porque o autor que fez o curso poupa-me de fazer a pesquisa que ele(a) fez para produzi-lo. Isso possibilita-me fazer outras pesquisas relativas à literatura neste período.  A leitura de cada ser do que quer que tenha lido é única, logo a pesquisa e recorte que o escritor que ministra a oficina faz também é único, e isto propicia uma troca de saberes, uma apropriação de saberes por parte daqueles que recebem o conteúdo de quem preparou. Acho 10. Fazia tempo que não produzia um texto e seu desafio de produzir um em 15 minutos tirou-me do ócio e colocou-me em movimento. Grato, escritora Patricia.