“2020”* | David de Medeiros Leite**

À GUISA DE INTRODUÇÃO

 

– Feliz Ano Novo, Guiomar!

– Feliz 2020, Zezinho!

Apertei ainda mais sua mão direita, pois a esquerda estava imobilizada pelo acesso do soro. Aquele ambiente hospitalar, de UTI, não era aprazível para uma noite de réveillon. Mas, apesar de quase um mês de internação, Guiomar mantinha razoável humor.

Naquele momento, inesperadamente, ela me fez jurar que escreveria o tão esperado livro. Assunto que nos era bastante familiar, desde sempre. Aliás, durante os quarenta e nove anos de nosso casamento, nunca deixamos de falar sobre. Em alguns períodos, tratávamos do tema de forma mais intensa, contrastando com outros lapsos temporais em que o assunto subjazia.

Enquanto estava trabalhando, ou “na ativa”, como dizem, mantive a desculpa de esperar minha aposentadoria. Após esta, a cobrança amiudou-se. E, naquele momento, Guiomar voltou à carga:

– Quero que você me prometa que irá escrever seu livro, agora, neste ano que começa amanhã. E não vale mais a desculpa de não saber usar o computador, depois das aulas que lhe dei.

– Prometo! – disse, levando minha mão direita ao peito e, propositalmente, esboçando um rosto sério, desfazendo o quase-riso que sustentava nas visitas.

– Qual o título? Isto nunca decidimos – completei, como forma de dar continuidade à conversa.

– 2020! – respondeu-me incisiva.

– 2020? E aqueles outros? Ouro do Carmo? Ouro e Pecado?

– Esqueça todos. Você sempre falou que o título seria escolha minha… então, será 2020.

Aproximei-me para beijar-lhe a testa e, com isso, selar o nosso pacto. Por trás daquele gesto, existia uma larga caminhada. Desde nosso casamento, ruminávamos a “história” que prometia, um dia, contar em livro. Guiomar sempre argumentando contra desculpas que “inventei” ao longo do tempo. Possíveis melindres, em relação a alguém que estivesse vivo e que, por acaso, soubesse da publicação, sempre foi por mim suscitado. Guiomar sustentava o contra-argumento de que a própria distância temporal, conjugada com o artifício de citar codinomes, desaguaria numa autobiografia romanceada e, assim sendo, transporia quaisquer dos receios.

De outra parte, havia quatorze anos que estava aposentado e, por conseguinte, eu perdera a argumentação de “falta de tempo”. E, por fim, esquivei-me, um bom período, sob a desculpa de não saber lidar com o computador, considerando que nunca me afeiçoei às novas tecnologias. Paralelo a isso, Guiomar comprou o equipamento, aprendeu a utilizá-lo e ensinou-me, pelo menos, a usar o editor de texto, desconstruindo minha derradeira cidadela esquivadora.

Só nos faltava uma situação de compromisso quase solene, como a que ocorreu naquela noite na UTI. E hoje creio, piamente, que ela o fez com certa premonição. Foi sua última vontade. E nosso último diálogo. Nos dias seguintes houve agravamento do quadro, entubação e óbito. Guiomar lutava contra um câncer pulmonar havia meses. Sem ter sido fumante, diga-se de passagem.

Mesmo abatido e pesaroso, somente esperei passar a missa de sétimo dia e desvencilhar-me um pouco das obrigações burocráticas do pós-morte, para mergulhar no cumprimento da promessa. Aquela narrativa contada, recontada e repisada entre nós dois finalmente seria transposta para publicação. Ou, pelo menos, esboçaria, em forma de um pretenso livro, uma história que tinha se passado comigo. A sequência dos acontecimentos que seriam narrados, a ênfase nesse ou naquele episódio, os recursos literários que deveria buscar quando a memória não alcançasse o pormenor… tudo, absolutamente tudo, já havia sido escrutinado entre nós. Até mesmo nuances que poderiam causar ciúmes a um casal nunca foram suscitadas por Guiomar.

Vale dizer que cheguei a cogitar, mais de uma vez, que ela própria escrevesse, tamanho era seu entusiasmo. No entanto, ela nunca aceitou tal propositura. Em tom de blague, dizia que, além de “consultora”, somente lhe caberia intitular a obra. Assim ocorreu. Por tudo isso, considerei rabiscar essas linhas introdutórias, ao invés de uma mera e burocrática dedicatória.

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* Texto de abertura de 2020. David de Medeiros Leite. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2020.

** David de Medeiros Leite nasceu em Mossoró-RN (1966). É professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Doutor pela USAL (Universidade de Salamanca) – Espanha.

Sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP); sócio-correspondente da Academia Apodiense de Letras (AAPOL), além de pertencer à Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Norte (AMLERN) e Academia Mossoroense de Letras (AMOL). Com o escritor Clauder Arcanjo, idealizou a editora Sarau das Letras, onde, atualmente, compõem o Conselho Editorial. Contato: davidmleite@hotmail.com