Estudos em Escrita Criativa On-line – Junho, 2020

A escrita do Leste Europeu

Patricia Gonçalves Tenório*

 

Viajamos com os Estudos em Escrita Criativa On-line quase 24 horas para estarmos aqui, no restaurante Bellevue, na Smetanovo nabrezi em Praga, com vista para a Ponte Carlos sobre o rio Vltava. O corpo, ainda modificado pelo fuso horário da viagem, encontra-se aberto para toda percepção, para qualquer sentido que o faça despertar um cenário, uma cena. Um personagem principal.

Chegamos aqui nas asas de Teresa, e Tomas, Sabina, e Franz. Os personagens que nos guiam na Praga dos anos 1960 em A insustentável leveza do ser, do escritor tcheco Milan Kundera.

Descobrimos com o professor e escritor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil que o seu Escrever ficção é alicerçado em dois pilares: os personagens e o sistema orgânico. Os personagens gerando os eventos imprescindíveis da narrativa. É o que nos aconselha Assis Brasil. É o que realiza Kundera, a começar por Tomas.

O espírito kafkiano impregna as paredes de cimento dos prédios burocráticos da Praga dos anos 1970. Em nós impregna o espírito da cidade, como se soubéssemos escrever em outra língua que não é e é tão diferente da nossa, assim como fizeram Kafka (em alemão) e Kundera (em francês).

Milan Kundera explica essa herança que faz autores tão diversos quanto ele mesmo, Franz Kafka e a poetisa polonesa, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 1996, Wislawa Szymborska, falarem uma mesma linguagem. A linguagem do silêncio que o totalitarismo, o comunismo, o império russo impregnou na escrita do Leste Europeu, em cidades como Varsóvia, Budapeste, Praga.

Em A insustentável, Kundera possui vários temas: o peso, a leveza, a alma, o corpo, a força, a fraqueza. E vai utilizando-os em forma de digressão, mas sempre atrelados a um personagem, sempre os iluminando e os tornando mais profundos. Enquanto isso, Szymborska, numa seleção de Poemas, navega pela política, pelo mito, e pela própria construção da poesia.

E realizamos mais uma viagem pelo Leste Europeu. Dessa vez viajamos para a Áustria e analisamos a construção da novela A baronesa (obra inédita de minha autoria, e que será lançada no site dos Estudos em formato PodCast) ambientada na época áurea da Viena do fim do século XIX e início do século XX, na qual foram contemporâneos nomes como Gustav Klimt, Otto Wagner, Arthur Schnitzler e do pai da Psicanálise, Sigmund Freud.

Finalizamos o quarto módulo dos Estudos em Escrita Criativa On-line com um exercício de desbloqueio a partir dos autores elencados e a sugestão de filmes relacionados com o Leste Europeu e a Escrita Criativa.

_______________________________________

* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

_______________________________________

Módulo 4 – Aula 1: 

Módulo 4 – Aula 2:

Módulo 4 – Aula 3:

Módulo 4 – Aula 4:

_______________________________________

Exercícios de Desbloqueio – Módulo 3 – Brasil:

 

Américo Pinheiro

Contatoamericopinheiro@gmail.com

Prosa Poética

 

Andei pesquisando sobre essa tal prosa poética. É um texto em formato de prosa, porém com um pouco de estética. Parágrafos de puro lirismo, que há demais nisso? Poesia vem de poiesis, e na prosa ela deita sua prece. As palavras precisam ser sabiamente escolhidas, para formar uma combinação de todo específica. Algumas letras podem ser propositalmente repetidas, provocando no leitor uma súbita e sutil sensação de sonoridade, suave. Não parece nada fácil pra mim, mas vou tentando e tentando mesmo assim.

 

Angélica Glória

Contato: angelicagloria@id.uff.br

Te implica!

 

É que antes, pra mim, viver era como a escrita: momentos que brotam enquanto eu só acompanho. Bonito até pensar assim, sempre me achei sensível demais, única, por me deixar levar pelas contingências. É poético. Só que tem um preço. A vida que passa como uma história de fluxo contínuo, sem responsabilização, escapa da liberdade, o que tem maior valor sagrado.

Depois eu entendi que não sou um conceito, minha subjetividade é, sim, construída por mim, são nesses lances de implicação comigo mesma é que me torno mais liberta.

Fumo um cigarro de filtro amarelo sentada na baixa soleira da porta da minha avó, foi isso que me fez lembrar de Elena. Hoje, com as pernas bambas e o olfato prejudicado, minha avó não vai mais repetir as broncas que eu ouvia quando garota, fugindo para fora do casebre para dar tragadas rápidas. Então tenho bastante tempo para encarar meus pensamentos, o que me leva para um passado gelado, quando ficava horas sentada fumando com Elena, na mesa do lado de fora. Eu não tinha mais trabalho nenhum para fazer, mas queria aproveitar qualquer oportunidade para passar mais tempo com ela. Fazia frio e, mesmo agasalhada da cabeça aos pés, eu precisava acender cigarros um após o outro para aguentar a ventania no meu pescoço enquanto seguiam nossas conversas. Nem gostava tanto do cheiro da fumaça nessa época, o gosto amargo de nicotina martirizava minha boca por dentro e eu me esforçava para não transparecer numa cara feia. Posteriormente aprendi a gostar.

De alguma forma eu achava que, por ser quem me ensinou a amar, Elena era figura primordial na minha existência. Eu devia priorizá-la em tudo. Passamos incontáveis finais de semana agarradas, trocando carícias, assistindo séries na televisão pequena de sua sala de casa ou simplesmente deitadas uma ao lado da outra enquanto mexíamos no celular. No começo o silêncio ao lado de Elena era reconfortante, depois foi tornando-se tão sólido, duro, apertando meu peito todas as vezes que eu esticava minhas pernas em seu colo e ela mal me olhava.

Nossa relação foi perdendo um pouco a forma, a magia, mas Elena continuava sempre ali. Às vezes um pouco ausente, um pouco distante, necessitando da frequente corrida de minhas pernas para alcançá-la. Elena sempre me dava bolo em cima da hora ou atrasava ou aparecia no dia seguinte ao combinado e eu me sentia egoísta se não entendesse e aceitasse suas explicações. Como eu poderia julgá-la mal se gostava tanto de mim? Foi um amor confortável até nos seus desconfortos, cujos problemas eu demorei muito tempo para notar. Ficamos juntas por pouco mais de três anos. Por pelo menos metade deles, eu me senti inadequada.

Foi difícil ter forças para sair. Se eu saía, depois de pouco tempo voltava. Quando eu pensava em escapar desse ciclo e viver de uma outra maneira não conseguia porque se eu pensasse em Elena, logo via minha imagem junto a dela. As pessoas sempre nos associavam também, eu chegava em um encontro de amigos na praia ou numa lanchonete e logo perguntavam “a Elena vem?”. Nossas testemunhas sabiam que éramos inseparáveis. Mas ninguém sabia de nada, do que eu sentia, dos vácuos temporais, dos pensamentos autodestrutivos, da falta de valor que eu atribuía a mim, nem Elena. Só eu sabia.

Minha perna sinaliza que tenho uma materialidade, dando indícios que começará a ficar dormente a qualquer momento, troco de posição. Hoje faz realmente muito frio, minha coluna se arrepia e eu penso em ligar para Elena, contar como me senti durante todo aquele tempo, me explicar. Talvez se eu fosse um pouco mais sincera poderíamos ter dado certo.

Cogito um contato que sei que não farei. Foi tortuosa e lentamente, mas aprendi que a minha narrativa não se conta sem meu papel articulando os atores, tudo ficou mais fácil quando escolhi a liberdade de poder ser eu mesma. Não é tão ruim assim ficar sozinha, como eu temia.

Me levanto e volto para dentro. É hora de esquentar a janta da minha avó.

 

Bernadete Bruto

Contatobernadete.bruto@gmail.com

Crônica de uma vida anunciada

 

Mote: “Tudo havia passado, porque nada passa. É agora que tudo é.” – Adélia Prado

 

Neste intervalo de tempo, sinto que o movimento do mundo parece ter diminuído o ritmo, posso ficar aqui sentada procurando entender o que é este agora que fala Adélia Prado.

Neste intervalo de tempo, tomo consciência da finitude da vida e que muito tempo já se passou desde quando tomei conhecimento da dimensão do tempo aprendendo a contar as horas e minutos num desenho de relógio analógico. Tempo avisado por badalar relógios da minha infância.

Agora, muito já é passado. Quase uma vida inteira…vejo uma criança feliz correndo sem preocupação com as horas. Depois, uma mocinha morena na beira da praia, desfrutando o sol despreocupadamente. Mais para frente, já é uma mãe de família que trabalha e se desdobra para estar com os filhos, para tudo que precisa fazer…na escuridão da vida, uma mulher madura enfrentando a solidão, a angustia de uma longa espera de histórias sombrias…até chegar a mulher idosa reconciliada com o tempo.

Neste intervalo tempo, enquanto escrevo, sinto saudades de um passado onde muitos entes queridos ainda viviam. Procuro por eles nesses melhores momentos, no meu álbum de memórias coloridas e minha alma se conforta, porque sinto a forte presença de todos os que se foram batendo forte nesse coração. Sinto também a força de todos os antepassados que nem conheci e estão presentes em mim, através de suas histórias e do meu DNA. Meus bisavós, avós, meus tios, tias, primos e primas têm seu lugar no coração da minha grande família.

Enquanto escrevo, neste intervalo de tempo, tomo consciência da eternidade da existência dentro da vida, tão corrida e breve, que sorrio para o agora que é. Olho de frente o que foi mal passado, entretanto carrego no peito aquele passado bem passado. E porque nada passa, deixo-me levar na plenitude deste amor eterno, agora.

Recife, 27 de maio de 2020.

 

 

Elba Lins 

SENTIMENTO DE SERTÃO

Contatoelbalins@gmail.com 

 

Sentimento de Sertão!

Talvez não tenha sido uma frase vinda da boca (ou do papel) dos escritores da vez, mas quando na aula Patrícia fala em “Sentimento do Sertão” algo se liga no meu pensamento.

 

Sentimento de Sertão!

É algo longínquo no tempo

Algo distante no espaço

Mas que, uma centelha

Me traz de volta:

– O cheiro da terra molhada em dias de chuva.

– As águas enchendo as biqueiras, limpando telhados e escorrendo pelas calçadas.

– Aquela poesia de Guilherme de Almeida sobre o barquinho de papel – Quando a chuva cessava e um vento fino franzia a tarde tímida e lavada.

– Aqueles trovões distantes que de repente iam ficando próximos. O barulho dos trovões cada vez mais próximo da luz que rasgava o céu cinzento e cobria de luz breve a noite escura. Era o céu se preparando para parir, em contrações cada vez mais próximas. Era o céu abrindo seu ventre para muito em breve inundar o meu lugar. [Belíssima imagem!]

–  Os galhos secos do marmeleiro (que também era, a Fazenda do meu avô) que se faziam verdes após as chuvas.

– Os galhos do marmeleiro que tirados do pé, se transformavam em pequenos cavalos de pau. E nós corríamos em cima deles, pelo terreiro da fazenda Marmeleiro, em viagens que marcaram minha infância.

 

Sentimento de Sertão!

– É o queijo quente, feito na grande tigela.

– É a toalha de quadros tentando se despregar da mesa da fazenda para voar livre, ao vento.

– É o cavalo de verdade, onde uma vez minha prima montou e ele saiu em disparada.

 

Sentimento de Sertão!

– É quando o céu está escuro, dizer que “está bonito para chover”.  Diferentemente daqui no litoral onde dizemos que “o tempo está feio”.

 

Sentimento de Sertão!

– É tudo isso que mesmo tantos anos distantes traz à nossa alma esta presença de chão seco/ de vento seco/ de redemoinho empoeirando tudo.

 

Sentimento de Sertão!

– É ser matuto e mesmo na cidade se ver representado no trecho da música que diz

Por ser de lá
Do sertão, lá do cerrado
Lá do interior do mato
Da caatinga do roçado.
Eu quase não saio
Eu quase não tenho amigos
Eu quase que não consigo
Ficar na cidade sem viver contrariado.

(Lamento Sertanejo -Gilberto Gil / José Domingos)

 

 

Gabriela Vieira

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

“o que me comanda não gosta de divisões”, de Adélia Prado.

 

não nasci para me doar em metades.

o universo não levou todos esses anos

para criar a galáxia que dentro de mim vive

só para eu contar nos dedos as estrelas

que deixo cair de meus céus

c u i d a d o s a m e n t e

 

não, meu coração não diz meias verdades.

quando abre a boca não apenas fala,

grita para quem puder ouvir

suas dores, seus amores

porque quando eu deixo alguém aqui entrar

não é só para a vista apreciar

como uma daquelas corriqueiras paixões

mas para receber minha alma por inteiro

s e m   d e v o l u ç õ e s

 

então não ouse

esperar de mim

uma vida contida

porque não se

doar em metades

é indispensável parte

do artista cujo coração

é sua maior obra de arte.

 

Giovana Teixeira

Contatogigiteixeira.pereira@gmail.com 

 

“[…] Pois como eu disse a palavra tem que se parecer com a palavra, instrumento meu. Ou não sou um escritor? […].”

(A hora da estrela, Clarice Lispector, 1977)

 

Não sei se sou alguma coisa. Queria ser, mas me imagino à margem, não sei a qual lugar pertenço. Nada daqui, desse texto e de todos os outros, é digno de nome. Não tenho voz agora e me pergunto se alguma vez já tive. Minha voz costuma ser emprestada dos outros, assim como minha vida também os diz respeito. Tenho sede de palavras, mas elas não são minhas. O que isso faz de mim? Sou eu quem escreve, mas não sou escritora.

Não sei se estou perdendo tempo confessando minha falta de originalidade aqui. Parece-me que estou conversando comigo mesma, coisa que sempre fez sentido. Escrevo por motivos de força maior também, Clarice. Mas mesmo assim sinto que não uso meu próprio instrumento para fazê-lo, assim como também não uso de minhas próprias pernas para viver. Não sei de onde vem esse sentimento que me balança inteira, mas existem momentos que sou página em branco, quem escreve por mim são as palavras que me alimentaram desde a infância. [Belíssima imagem!] Devo sofrer com isso? Talvez não, mas sofro. Entro no campo da confusão: quero ser muito algo que ainda não sou. Vocação é mesmo diferente de talento e eu fui chamada, sim, diversas vezes me chamaram, Clarice, mas não sei como ir.

 

Joel Martins Cavalcanti

Contatojmartinscavalcante@gmail.com 

O pedido de casamento

 

Sinopse baseada na frase: “É preciso necessidade para as coisas acontecerem.” (Adélia Prado em O homem da mão seca)

 

O conto narra o pedido de casamento de João a Luiza. Apesar de trabalharem juntos há muito tempo e sentirem uma atração mútua, nenhum dos dois tinha coragem de expressar seus sentimentos. Quando Luiz, o novo empregado, chega na fábrica, e passa a se aproximar de Luíza, João fica com ciúmes. Certo dia, na hora do intervalo, quando saía do banheiro, João ouve Luiz se declarando para Luíza, interrompe a conversa de supetão, e faz o pedido, antes que ela pudesse responder ao outro.

 

Júnior Melo

Contatojuniormelo2005@gmail.com 

Desbloqueio criativo 3 (C. Lispector e A. Prado)

 

A caneta começou a riscar o papel lentamente, mas o coração batia forte. Não era inspiração, nem nada. Era raiva mesmo. Raiva de mim e dos outros. Raiva de tudo. Eu queria mesmo era sair gritando aos quatro ventos tudo que está na minha garganta feito um bago de jaca parado na goela. Mas, esse sol sobre minha cabeça, arde a alma e paralisa as atitudes. Ainda ontem, vieram me contar sobre ele. Que estava bem, que arranjou um novo amor. Uma mulher nova… não me importo. Quero mesmo é que ele refaça o calvário que teve comigo, já que me deixou. Eu? Eu sou mulher o bastante pra viver sozinha. Não sei porque o mundo masculino se acha imprescindível. Claro que na hora do sexo, sim, mas isso é tão pequeno em relação às grandes lutas. Hoje, o dia amanheceu mais calmo. O senhor do andar de cima não reclamou com a esposa na hora do café. Maria me ligou logo cedo. Mulher, pequena, ágil, nordestina. Veio morar aqui no prédio assim que chegou de Recife. Logo vi que era boa pessoa. Um dia, me percebendo triste, falou com aquela sabedoria das pessoas simples: despeja tua peleja no caderno! Ah… Maria.

 

Lis Diniz

Contato: lisgranjeiro@gmail.com

Coma poético

 

O Sol invade a rotina em anestesia com pouca frequência. Quando acontece, eu me tomo de uma dança interna como se meu corpo todo tivesse memória, mas eu sequer noto uma unha encravada, tampouco uma adaga cravada nesse vazio indigesto.

Ah, a indigestão, as palavras inauditas de um silêncio provocador. O quanto comiserei, quanto poupei o mundo de meus ordinários tropeços pensando ter alguém a assistir. Agora: aplausos para o nada. A cortina fechou.

As poéticas escapam à confusão por serem inconvencionais, disse Adélia. O tempo se confunde nessa caixa, quem diria as palavras acumuladas não transbordaram e sem as pretensiosas revoluções a poesia ficou entalada. Como um cano de esgoto, fétida, cujo caráter cáustico não corrói as paredes do silêncio, diamante de tamanha rareza e deveras lapidado, nostálgico.

Se alguém espera respostas para indagações poéticas, esse livro é mais uma pergunta a propriamente um diário de resoluções. Quem quer resoluções busca por vidas instangramáveis perfeitas e a paupérrima literatura auto-ajuda -avesso de toda poética -, por vezes sonsa e mesquinha.

Menina Clarice tinha a língua presa e além de ruiva em um país de morenos, era clandestina. Decerto romantizaram a sua existência, todo poeta carrega algum incômodo de fundo e toda poeta carrega o silêncio a mais.

Quanto tempo para desengavetar sabendo: de futuro célebre são poucas. Nas palestras um caderno cheio, nada dito. Nos recitais um constante incômodo, como o quebra-panela que fizeram em seu aniversário com uma panela de barro, mal sabiam entre as camadas de barro havia ferro.

Para fluir incólume precisaria de uma força estranha ali. Sem tamanha ousadia dos artistas performáticos e da oralidade mnemônica foi se guardando, até as pedras pesaram seu estômago, mãos e vértices. Virou um corpo poético no além êxtase flutuando sobre a vida.

 

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com 

 

 

A morta-viva

Expirou vida

À beira da morte.

 

Grávida de esperança,

Desfez-se em luz.

 

Sem título

Engasgada pelo passado

Muda pelas palavras não ditas

Cega por tudo aquilo que não queria ver

Coração descompassado por falta de amor.

Cansada

 

Ao dobrar a esquina

Descobriu-se grávida.

Grávida de esperança

Pelo que estava por vir.

 

Cai o pano.

 

Mariana Moura

Contatomariana.moura88@gmail.com

O amor às palavras

 

Aquele que gosta de escrever

Parece tradutor da vida

Ele descreve em palavras, sentimentos

Descreve pequenos grandes momentos

Como quando se vê depois de dias de mal tempo

O sol aparecendo em uma fresta entre as nuvens

Ou como quando os olhos brilham ao ver pela primeira vez

Aquele que pode ser o próximo grande amor

Ou ainda o sorriso da criança ao ver uma simples taça de sorvete

que se abre como um botão de flor

É, a poesia e a prosa são nossas portas para o mundo

E aqueles que têm em escrever mais que vontade

Uma necessidade

São a ponte.

 

Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br

Folha em branco

 

O temor da folha em branco transforma o sentir em concretude. Mais do que isso, transforma o vazio existencial que parecia vago e abstrato, porque egoisticamente me pertencia, em algo compartilhado porque confrontado. A folha branca me confronta. Confronta-me com minha miséria de ideias, de conexões e de conhecimentos. Empobrecida, vejo-me transformada em uma máquina reprodutora de pensamentos alheios repetidos atrás dos muitos sinônimos que a rica língua portuguesa oferta. Não há tempo para maturar. É tempo de reproduzir à luz do fordismo, taylorismo e todos os ismos em que nós passivamente nos inserimos. Folha em branco, vazio concretizado, pânico instaurado. Fugir dessa branquitude é um remédio que insidiosamente torna-se um poderoso veneno. Preencher a folha de qualquer forma para escapar da angústia nos empobrece. Não é para isso que vivo. Isso é apenas sobreviver. Isso é apenas manter um controle ilusório sobre algo que adormece e logo despertará. Pensar é um ato, dizia Lispector. É um ato de resistência, talvez o único ato em que posso me singularizar, em que posso me recriar e, por meio do qual posso viver.

 

Paulo Roberto de Jesus

Contatopoujesus@hotmail.com 

 

“Não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas”, disse André pensativo. Joãozinho que o escutava atentamente disparou: ”explique, Sujeito, o que quer dizer. Para mim parece uma dessas frases de efeito”. “Frase de efeito, João? Pô, cara! Parece que não me conhece. E a frase é autoexplicativa. A interpretação faz parte do pacote”. Joãozinho gargalhou com vontade e disse: “Não falei que estava enrolando? Saiu esta frase e você disse a esmo.” O outro insatisfeito com o comentário do amigo disse: “frase de efeito é o…  tenho o meu desejo nas coisas você pode entender de maneiras diferentes. A primeira é auto evidente. Pô! Não tenho tudo que desejo, mas desejo estas coisas e por deseja-las tenho meu desejo nelas, entendeu, Caroço?” O outro coçou o nariz e disse: “Caroço é a senhora que te pariu e acho que entendi. Tenho cara de burro por acaso? E qual seria outra maneira de entender?” André disse: “Caroço, você é um caroço. E se falar da minha mother novamente o bicho vai pegar. Fique esperto, Caroço. O outro modo é que se tenho o meu desejo nas coisas é só porque tenho as coisas que desejo, só tenho as coisas que me são úteis. Óbvio. Porque teria coisas que não me fossem úteis? Neste caso não teria nelas o meu desejo, entendeu?” “Entendi, Senhor Cabeção, mas não concordo. A segunda interpretação por vós exposta não passa de enrolação, porque o mote diz que não tenho todas as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas, o que implica dizer que não são somente as coisas que possui mas estão também inclusas neste conjunto as coisas que não possui e por isto tem o seu desejo nelas, entendeu, Crânio?” “Sim, Caroço, acho que tem razão, pisei no melão…” “Caroço é a velha que te pariu”, disse Joãozinho que saiu rapidamente do lugar antes que o clima esquentasse entre os amigos.