Estudos em Escrita Criativa On-line – Maio, 2020 | Patricia Gonçalves Tenório*

Eu vi o mundo… ele começava no Recife

Antes da pandemia, acordaríamos cedo e sairíamos, a pé, para nos deslumbrarmos com uma cidade que parecia não ser nossa, como se estivéssemos em um país que não é nosso, como se fôssemos estrangeiros: Recife do Marco Zero, Rua do Bom Jesus, Torre Malakoff, Praça da República, Rua da Aurora, Praça Maciel Pinheiro, Brasília Teimosa, Pina, Boa Viagem.

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Foi essa a cidade escolhida para falarmos para o mundo – como pintou o artista pernambucano Cícero Dias  no painel “Eu vi o mundo… ele começava no Recife” –, no terceiro módulo do curso gratuito Estudos em Escrita Criativa On-line, cidade que vestirá com suas cores uma das escritoras que se sentia a mais brasileira de todas, apesar de haver nascido na Ucrânia, e habitou em Recife ainda na infância: Clarice Lispector.

A começar pelo conto “Felicidade clandestina”, que nos descreve uma Clarice menina e o desejo de ler um livro: As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. O cenário é o centro do Recife. Podemos imaginar a pobre menina Clarice caminhando pelas ruas da capital pernambucana, saindo da Praça Maciel Pinheiro em direção à Rua da Imperatriz, buscando o livro desejado em uma das principais livrarias da cidade. E uma colega rica, depois de exercer um poder sádico em reter o livro desejado, é obrigada pela mãe a cedê-lo, por tempo indeterminado, à menina pobre que, ao chegar em casa, toma-o nos braços, na rede, e se faz mulher com o livro-amante.

Chegaríamos ao estado-nação das Minas Gerais. Viríamos de ônibus noturno do Rio de Janeiro de Macabéa (de A hora da estrela, de Clarice) para cá, numa viagem de doze horas. Sentiríamos o aroma mineiro, o sabor do pão de queijo, da couve refogada, do doce de leite com queijo minas. Olharíamos ao redor, e parece que também nos sentiríamos em casa, apesar das singularidades ou alteridades de cada tempo-espaço visitado.

Em O homem da mão seca, da poetisa e escritora mineira Adélia Prado, a narradora Antônia escreve em seus cadernos poéticas, compartilha conosco segredos do seu processo de criação. Descobrimos que sempre fecha as passagens, revisando os conceitos, e que uma personagem (a filha Clara) fala dentro da fala da outra personagem (a mãe Antônia), como se fossem aquelas bonecas russas, as mamuskas.

Finalizamos o terceiro módulo dos EEC On-line com um exercício de desbloqueio a partir das autoras elencadas e a sugestão de filmes relacionados com Recife, Minas Gerais, Brasil e a Escrita Criativa.

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* Escritora e doutora em Escrita Criativa (PUCRS). Contatos: grupodeestudos.escritacriativa@gmail.com e http://www.estudosemescritacriativa.com/

 

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Módulo 2 – Aula 4 – Portugal:

 

Módulo 3 – Aula 1 – Brasil:

Módulo 3 – Aula 2 – Brasil:

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E os nossos Exercícios de Desbloqueio!

 

Módulo 1 – Língua Inglesa:

 

Ágata Cruz

Contato: agatamg7@gmail.com 

Olhar Offred (of Fred)

 

Eu a via com diversão, estava exausto, tenso, irritado, com medo. Mas agora, iria relaxar. Seus olhos me fitavam com medo, mas eu não me importava, no fundo a guerra tinha endurecido meu coração. Era provável que antes disso eu não a tratasse assim, me lembro de Anne. Ela me lembra a Anne. Tão doce, suas mãos eram macias, seu beijo era suave, seus olhos me olhavam com amor, com desejo. Nunca pude ter a Anne por completo em meus braços e abraços e saciar o meu desejo. Mas ela não está mais aqui, a guerra destruiu todos os nossos planos… Quem sabe destruiu também os planos dessa aia… Mas isso não importa, porque estou pensando isso? O que está acontecendo comigo? Devo estar completamente louco, estressado. Não perderei mais tempo e irei simplesmente me satisfazer esta noite. Não serei delicado, como seria com Anne. Não farei ela feliz, como faria com a Anne. Anne… Ela se parece com a Anne. Que saudade que sinto! Meu peito está apertado, não posso demonstrar afeto… Porque não? Será que a guerra também não destruiu os sonhos dela? O que está acontecendo comigo?! Devo estar ficando completamente louco…

Já chega de pensar e ficar perdido em meus devaneios do passado. Preciso aceitar que a Anne se foi e nunca mais irá voltar. Nunca mais a terei em meus braços.

Daqui sinto o medo dessa mulher como nunca antes senti. Realmente não devo estar bem, não posso deixar que perceba. Mas ela está tão tensa que não consigo evitar. Seus olhos, seus olhos me fitam com ódio, nojo e repulsa. Ela não me quer, como a Anne me queria. Mas ela se parece com a Anne. Eu a beijo com doçura, envolvo meu braço em sua cintura e minha mão em sua nuca. Sei que ela está me olhando, mas sinto seus ombros relaxarem. Continuo a beijá-la e agora parece que a Anne está em meus braços, sinto seu cheiro, sinto sua mão macia no meu rosto. Estou completamente apaixonado, a beijo com mais intensidade, sinto seus braços em volta do meu pescoço, ela cada vez mais próxima a mim corresponde com paixão. Me sinto feliz, mais leve, amo a Anne. Essa será a nossa primeira noite e farei com que seja inesquecível para ela. Paro pra respirar e me afasto um pouco, abro os olhos e… onde está a Anne? O que aconteceu? Quem a levou?

 

Olga Nancy

Contato: olga.cortes@acad.pucrs.br 

(Sem título)

03/04/2020

 

Arquitetura.

Tua.

Nada.

Crua. Safada.

Fada.

Sem asa. Amada.

Calada!

(Sem título)

 

Victoria Gorelik

Contato: gorelik.vbg@gmail.com 

 

A catarse é sem sentido

Voz teimosa

Negação

Maníaco quer ordenar

A desordem com sentido

Quer dar-se vida

A ti

Que morreu

És enlutado às palavras

Tenta formas à dependência

 

Mas sua catarse tem sentido

E o sintoma é escritor

 

Módulo 2 – Portugal:

 

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com  

Atracada em casa

“Viver a vida em sonho falso é sempre viver a vida.”

                                                                                                            (Livro do desassossego, Fernando Pessoa)

                                                                                                             

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Sentada naquela sala de casa, sem saída, a empregada pública, em frente ao computador, olha na tela o cursor que pisca, como se contasse o tempo de espera para se ter uma resposta. Sente a solidão deste trabalho em tempo incerto.

Enquanto espera, no silêncio da manhã, ouve em seu coração o compassado eco das ondas do mar e sonha. Vê o amplo mar que cobriu sua infância e juventude. Mar por diversas vezes experimentado em vários tons, gosto e tepidez, hoje, uma quimera escondida no fundo da alma, no mar absoluto de seus pensamentos e naquele quadro afixado na parede.

Despertando do transe, a empregada pública responde ao e-mail que brota na tela, como uma concha na areia da praia, depois que a onda recuou. Em resposta, recebe um WhatsApp com explicações mais detalhadas sobre o que fazer, rompendo o sossego das quatro paredes onde está encerrada.  Mais incógnita do que antes, aguarda um sinal de vida vindo lá de fora. Notícias boas e as más…

Em seu trabalho solitário, emparedada como aquela tela onde barcos enfileirados estão refletidos no mar, ela sente sua limitação. Recorda da velha imensidão do mar, da existência colorida, além de seu apartamento, além do tempo. Aquele instante eterno, aquele rumor de gente saudável, contente!

O que ela sente, ali atracada, é o que os portugueses nos confiaram desde o nascimento e se chama SAUDADE.

 

Elba Lins

Contatoelbalins@gmail.com

Isolamento Social

29.04.2020

 

Nestes dias de solidão inquietante

Preciso desenhar dentro de mim

O mundo inteiro

O sol

O mar

A vastidão infinita de pessoas

 

Sou só.

Um simples fio.

E não posso ser puxado para fora

Para não destruir toda

A trama tecida do Universo.

 

Sou apenas uma dama de ouro

Que se tirada destrói

O castelo de cartas.

 

Johany Medeiros

Contato: johanymedeiros6@gmail.com 

Isolamento de uma poetisa II

 

Você trocou o verde por arranha-céus e
claustrofóbicas massas cinzentas.
Partiu para a cidade grande,
para poluição constante,
sem ao menos me dizer adeus.

Enquanto isso,
escrevo poemas que nunca chegarão até você,
mantenho-me isolada do que sobrou do mundo,
porque preciso,
— porque eu quero,
porque não mais posso olhar os pássaros do meu jardim,
admirá-los, sem me sentir culpada.

Afinal, eles me ensinaram a voar
e você sempre teve medo de altura.
— por que você não gosta de pássaros?

 

Luciana Beirão de Almeida

Contato: lubeirao@hotmail.com

De Fora Pra Dentro

 

A cidade,

Antes agitada,

De repente parou.

Aquietou-se.

E eu,

Aqui dentro,

Consigo ouvir

O canto dos pássaros.

Uma criança que brinca,

Alheia aos perigos que nos assolam.

Consigo escutar o silêncio.

Consigo escutar o meu silêncio.

Meus pensamentos,

A minha alma,

Que me acalma.

Eu, aqui de dentro,

Estou aprendendo a olhar pra dentro.

 

Mariana Moura

Contato: mariana.moura88@gmail.com

O Mar e o fim de tarde

 

Lá no final dessa vila circundada de areia

Existe um pôr-do-sol irretocável

Que cai todos os dias alaranjado, como se o mar beijasse

Nele mora toda a simplicidade do que é viver em plenitude

Contemplar aqueles instantes do dia traz todo o sentido da existência

Que é amor gratidão paz e presença

Os quais vêm como ondas mostrando que nada é perene

Mas taí a vida em magnitude.

 

Giovana Teixeira Pereira

Contato: gigiteixeira.pereira@gmail.com 

UM DIA NA FEIRA, SONHOS E EU

 

Minha mãe me acordou cedo naquela manhã de sábado. Tínhamos que ir às compras, porque muita coisa lá em casa estava acabando. Leite, pão, manteiga, arroz. Essas coisas, sabe. Nem fiquei brava nem nada, porque a verdade é que as férias já estavam me cansando. Tudo o que eu fazia era dormir, comer e brincar (mas não era legal, porque eu não tenho irmãos, então sempre tenho que inventar todas as brincadeiras sozinha).

Desci as escadas bem rápido depois de trocar a roupa e escovar os dentes. Encontrei mamãe no quintal me esperando e regando nosso jardim. O dia estava bem claro, sabe, como aqueles dias de verão em que você, ou tem piscina, ou derrete no sol.

Bom, saímos logo em seguida e mamãe disse que antes do mercado íamos à feira. Eu não me importei. A verdade é que estava um pouco desanimada. Todas as minhas amigas tinham ido viajar e eu não tinha nada para fazer durante o dia. Às vezes eu conversava com a minha mãe, mas não eram conversas muito longas. Quando eu dizia isso para ela, mamãe falava: “Bom, mas é claro, você tem nove anos, o que uma menina de nove anos e uma mulher de quarenta e dois vão dizer uma para a outra? Você devia procurar a Laís para brincar um pouco, ela vai adorar.” Eu consegui pensar em muitas coisas sobre as quais podíamos conversar, mas não disse nada, porque mamãe parecia ter certeza. (Laís era uma garota que morava lá na rua, mas ela era cinco anos mais velha do que eu e eu não achava que gostava tanto assim de mim. Os adultos nunca entendem as coisas direito.)

Quando chegamos à feira já tinha bastante movimento. Mamãe e eu estávamos na barraca das maçãs quando uma senhora com um vestido lilás falou “Roberta, quanto tempo!!!!” Mamãe virou e respondeu “Madalena, meu Deus! Quando foi a última vez que nos vimos mesmo?” E as duas começaram a conversar como se eu nem estivesse ali. Fiquei meio emburrada. Até minha mãe tinha uma amiga e eu não. Quando a senhora que minha mãe chamou de Madalena pareceu me notar, mamãe me apresentou para ela como sua filha, Elena, só de nove anos.

Depois daquele dia fiquei pensando nas palavras dela, porque eu não entendia. Por que eu tinha nove anos? Minha mãe tinha quarenta e dois? Parecia que a única coisa que eu tinha era aquilo, mais nada. Seria isso eu? Só o meu tamanho? Talvez seja por isso que mamãe nunca conversa comigo e ninguém me enxerga direito na feira. Não sei se faz sentido, mas eu não me acho tão pequena assim. Quero dizer, sei que sou pequena, mas não me sinto assim. Meus sonhos são bem grandes, isso não vale de nada? Não quero crescer só para ter tamanho, já sou grande, porque tenho sonhos. Sabe, eu queria muito falar isso para mamãe, mas não acho que ela ia me ouvir. Aí acabei escrevendo aqui.

 

 

Vanessa da Silva

Contatonessacy99@gmail.com

Adentro de mim

 

Uma vez, certamente, li…

Que sou do tamanho que me vejo

Como posso então ir

Além dos acordes desse sofrimento

Que enfrento no meu mundo adentro?

 

Sou feita de grandes desafios em um mar aberto

Coberta de tamanha profundeza

Eu sou meu mundo inteiro ferido

Que se dissolve no restante do

Cosmos místico.