Trechos de “Exílio” ou “Diário depois do fim do mundo”* | Patricia Gonçalves Tenório

Março, Abril, Maio…, 2020

 

Dia 4

 

21 de março. Sábado. 11h45 da manhã.

Estou no meu quarto e resolvi escrever uma espécie de diário para acompanhar o período de exílio.

Acordei às 06h com Preta latindo muito para alguém descer. Minha filha levantou meio tonta e desceu com ela, mas fiquei preocupada se a cachorrinha continuava com diarreia, e não consegui meditar.

Meditar me deixa em paz comigo mesma. Assim como ir para a missa, e amanhã não poderei ir. Parece que faz um mês que fui para a missa no domingo passado, e não sei quando poderei ir novamente. Parece que faz um mês que foi o dia 1.

 

Dia 1

 

Quarta-feira. 15h11.

Passei o dia tentando ensaiar para as gravações de sábado pela manhã. Conseguimos chegar em quinhentas inscrições no site e cem no Youtube dos Estudos em Escrita Criativa On-line.

É o que me salva. Deus, em primeiro lugar, e a minha produção em segundo. Mas em segundo lugar encontra-se também a análise, que faço há quase quinze anos.

Não consegui ensaiar para as gravações de sábado pela manhã, porque sou muito autocrítica. Assim como estamos autocentrados nesse período de exílio.

Mas penso que a tensão de ir para São Paulo, no auge da pandemia, é o motivo principal para não conseguir ensaiar, para não me considerar suficientemente boa, nem como escritora, professora, mulher. Mãe.

O voo está marcado para as 19h45. Havíamos escolhido esse horário por causa das aulas do meu filho mais novo, que foram suspensas desde segunda-feira. No final, não teve aula, mas demoramos a chegar no aeroporto, a companhia aérea informou que havia cancelado nossas passagens e nos colocou no próximo voo para São Paulo.

Meu filho caçula estava muito angustiado com essa viagem. O problema do zumbido contínuo no ouvido esquerdo e a possibilidade de perder a audição o fez querer ir logo a São Paulo para uma consulta com uma otorrino especializada na área e pesquisadora da USP.

Mas São Paulo é uma cidade de alto risco da pandemia. Saímos de casa de máscaras-filtro doadas pelo pai do meu filho, e ficamos o tempo inteiro lavando as mãos.

Chegamos em São Paulo às 00h30. Fomos para o hotel, ficamos no mesmo quarto. Finalmente retiramos as máscaras. Meu rosto estava todo marcado.

 

[…]

 

Dia 40

 

Segunda-feira. 09h.

Hoje fazem quarenta dias que escrevo neste Diário.

Ontem terminei de ler Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago.

Os dois, a escrita e a leitura, começaram no mesmo Dia 04, sábado 21/03/2020. Quanto tempo se passou, e parece que foi ontem. Sinto um cansaço imenso, uma vontade infinita de dormir para sempre. Mas ainda bem que as obrigações me chamam – guardar roupas lavadas desde sexta-feira, higienizar o pano de chão da entrada que faço diariamente, fazer café, dar água e comida de Preta, porque a minha filha já desceu com ela.

Sinto-me abandonada pelo livro que terminei de ler.  Mas existem outros na biblioteca, e é bom dar um tempo – ou fazer o luto da leitura, como dizem alguns –, para depois começar a ler uma nova história.

Parece que Saramago adivinhou o período de desterro. Ou mesmo me adivinhava. Porque encontro, quase no finalzinho do Ensaio:

“À noite não comeram, só o rapazinho estrábico recebeu algo para entretenimento dos queixos e engano do apetite, os outros sentaram-se a ouvir ler o livro, ao menos o espírito não poderá protestar contra a falta de nutrimento, o mau é que a debilidade do corpo levava algumas vezes a distrair-se a atenção da mente, e não era por falta de interesse intelectual, não, o que acontecia era deslizar o cérebro para uma meia modorra, como um animal que se dispôs a hibernar, adeus mundo, por isso não era raro cerrarem estes ouvintes mansamente as pálpebras, punham-se a seguir com os olhos da alma as peripécias do enredo, até que um lance mais enérgico os sacudia do torpor, quando não era simplesmente o ruído do livro encadernado ao fechar-se de estalo, a mulher do médico tinha destas delicadezas, não queria dar a entender que sabia que o devaneador estava a dormir.”[1]

 

Saramago utiliza técnicas de escrita refinadíssimas, tais como repetição de listas, mas em contextos diferentes…

“Proclamava-se ali o fim do mundo, a salvação penitencial, a visão do sétimo dia, o advento do anjo, a colisão cósmica, a extinção do sol, o espírito da tribo, a seiva da mandrágora, o unguento do tigre, a virtude do signo, a disciplina do vento, o perfume da lua, a reivindicação da treva, o poder do esconjuro, a marca do calcanhar, a crucificação da rosa, a pureza da linfa, o sangue do gato preto, a dormência da sombra, a revolta das marés, a lógica da antropofagia, a castração sem dor, a tatuagem divina, a cegueira voluntária, o pensamento convexo, o côncavo, o plano, o vertical, o inclinado, o concentrado, o disperso, o fugido, a oblação das cordas vocais, a morte da palavra, Aqui não há ninguém a falar de organização, disse a mulher do médico ao marido, Talvez a organização seja noutra praça, respondeu ele.”[2]

 

[…]

 

“Proclamava-se ali os princípios fundamentais dos grandes sistemas organizados, a propriedade privada, o livre câmbio, o mercado, a bolsa, a taxação fiscal, o juro, a apropriação, a desapropriação, a produção, a distribuição, o consumo, o abastecimento e o desabastecimento, a riqueza e a pobreza, a comunicação, a repressão e a delinquência, as lotarias, os edifícios prisionais, o código penal, o código civil, o código das estradas, o dicionário, a lista de telefones, as redes de prostituição, as fábricas de material de guerra, as forças armadas, os cemitérios, a polícia, o contrabando, as drogas, os tráficos ilícitos permitidos, a investigação farmacêutica, o jogo, o preço das curas e dos funerais, a justiça, o empréstimo, os partidos políticos, as eleições, os parlamentos, os governos, o pensamento convexo, o côncavo, o plano, o vertical, o inclinado, o concentrado, o disperso, o fugido, a oblação das cordas vocais, a morte da palavra, Aqui fala-se de organização, disse a mulher do médico ao marido, Já reparei, respondeu ele, e calou-se.”[3]

 

… descrição de personagens sem lhes dar nomes, mas que intuímos quem são…

“[…] todas as imagens da igreja tinham os olhos vendados, as esculturas com um pano branco atado ao redor da cabeça, as pinturas com uma grossa pincelada de tinta branca, estava além uma mulher a ensinar a filha a ler [Sant’Ana e a Virgem Maria criança], e as duas tinham os olhos tapados, e um velho com um livro aberto onde se sentava um menino pequeno [São José e o Menino Jesus], e os dois tinham os olhos tapados, e um velho de barbas compridas, com três chaves na mão [São Pedro], e tinha os olhos tapados, e outro homem com o corpo cravejado de flechas [São Sebastião], e tinha os olhos tapados […].”[4]

 

… isso tudo sem dizer, mas mostrando.

Chove muito em Recife. Fecho as páginas do Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago. A pandemia pode acabar a qualquer instante. Ou não. Durar meses feito a cegueira branca. Ou quando vejo a notícia no portal da UOL: Fernando Meirelles contraiu a Covid-19 e afirma que esta pandemia é infinitamente menos impactante que os problemas ecológicos. Coincidência? O mesmo homem que levou ao cinema a adaptação do Ensaio[5]?

Não acredito em coincidências. Apenas sei que preciso fazer, no sistema do banco do celular, os pagamentos e as transferências da semana, ir na biblioteca procurar um novo livro para ler, e talvez aguardar mais quarenta dias, quarenta meses. A vida inteira.

 

[…]

 

Dia 53

 

Domingo. 09h44. Dia das Mães. Estou no meu quarto depois de um início de dia abençoado, com envio de poema e vídeo “Para todas as mães do mundo”, assistir missa com padre Marcelo Rossi e dom Fernando Figueiredo desde o começo (está começando agora umas 06h10 na Rede Globo), tomar café demorado, organizar sala, cozinha, lavanderia, higienizar a entrada com água sanitária e pinho, descer com Preta somente às 09h30 e alimentá-la. Um dia perfeito.

Ontem à noite gravei seis vídeos. O do poema de hoje pela manhã, e os das leituras de cinco poetas que amo de paixão para postar nos Estudos em Escrita Criativa durante a quarentena – Poesia para sublimar a dor.

Começando com a poetisa russa Anna Akhmátova e o seu “Terceira”:

“Eu, como um rio,

fui desviada por estes duros tempos.

deram-me uma vida interina. E ela pôs-se a fluir

num curso diferente, passando pela minha outra vida,

e eu já não reconhecia mais minhas próprias margens.

Oh, quantos espetáculos perdi,

quantas vezes o pano ergueu-se

e caiu sem mim. Quantos de meus amigos

nunca encontrei uma só vez em toda a minha vida,

e quantas paisagens de cidades

poderiam ter-me arrancado lágrimas dos olhos;

mas só conheço uma cidade neste mundo

embora nela fosse capaz de achar meu caminho até dormindo;

e quantos poemas nunca cheguei a escrever,

e seus refrões misteriosos pairam à minha volta […]”[6]

**

Depois me emaranhei na “Ubiquidade” do pernambucano-recifense-brasileiro Manuel Bandeira:

“Estás em tudo que penso,

Estás em quanto imagino:

Estás no horizonte imenso,

Estás no grão pequenino.

 

Estás na ovelha que pasce,

Estás no rio que corre:

Estás em tudo que nasce,

Estás em tudo que morre.

 

Em tudo estás, nem repousas,

Ó ser tão mesmo e diverso!

(Eras no início das cousas,

Serás no fim do universo.)

 

Estás na alma e nos sentidos.

Estás no espírito, estás

Na letra, e, os tempos cumpridos,

No céu, no céu estarás.”[7]

**

Flanei na brisa d“A rua dos cataventos”, do gaúcho-brasileiro Mário Quintana:

“I

Escrevo diante da janela aberta.

Minha caneta é cor das venezianas:

Verde!… E que leves, lindas filigranas

Desenha o sol na página deserta!

 

Não sei que paisagista doidivanas

Mistura os tons… acerta… desacerta…

Sempre em busca de nova descoberta,

Vai colorindo as horas quotidianas…

 

Jogos da luz dançando na folhagem!

Do que eu ia escrever até me esqueço…

Pra que pensar? Também sou da paisagem…

 

Vago, solúvel no ar, fico sonhando…

E me transmuto… iriso-me… estremeço…

Nos leves dedos que me vão pintando!”[8]

 

Confirmo a força da escrita própria da mineira-brasileira Adélia Prado em “Oráculos de maio”:

“Sei que Deus mora em mim

como em sua melhor casa.

Sou sua paisagem,

sua retorta alquímica

e para sua alegria

seus dois olhos.

Mas esta letra é minha.”[9]

**

E finalizo quebrando todas as barreiras de tempo e espaço, que a Poesia gentilmente nos oferece, com “Pleno de vida agora”, do poeta estadunidense-do-norte Walt Whitman:

“Pleno de vida agora, sólido, visível,

Eu, aos quarenta anos de idade e aos oitenta e três anos de Estados Unidos,

A alguém, um século adiante ou muitos séculos adiante,

A ti, que ainda não nasceste, me dirijo, procurando-te.

 

Quando leres estes versos, eu, que era visível, invisível me terei tornado,

Agora és tu, sólido, visível, lendo meus poemas, procurando-me,

Imagino a tua felicidade se eu pudesse estar contigo e fosse teu camarada,

Sê feliz como se eu estivesse contigo. (Não estejas tão certo de que não estou neste momento junto a ti.)”[10]

 

O dia de hoje está sendo perfeito. O de ontem também.

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*Trechos de Exílio ou Diário depois do fim do mundo encontram-se também no blog de Moema Vilela https://www.osdiaseasnoites.com.br

** Esses e outros vídeos também serão postados nos stories do Instagram dos Estudos em Escrita Criativa: @estudosemescritacriativa

[1] SARAMAGO, José. Ensaio sobre a cegueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1995, p. 305-306.

[2] SARAMAGO, José. Op. cit., p. 284, sublinhado nosso.

[3] SARAMAGO, José. Op. cit., p. 295-296, sublinhado nosso.

[4] SARAMAGO, José. Op. cit., p. 301, colchetes nossos.

[5] Trata-se de Ensaio sobre a cegueira. Blindness. 2008. Brasil, Canadá, Japão. 121 min. Direção: Fernando Meirelles. Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael García Bernal, Danny Glover, Sandra Oh, Alice Braga, entre outros. Trailer: https://www.youtube.com/watch?v=kxvKalWMPb0

[6] AKHMÁTOVA, Anna. Terceira. In Antologia poética. Seleção, tradução, apresentação e notas: Lauro Machado Coelho. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009, p. 125, colchetes nossos.

[7] BANDEIRA, Manuel. Ubiquidade. In Bandeira de bolso: uma antologia poética. Organização e apresentação: Mara Jardim. Porto Alegre, RS: L&PM, 2008, p. 110-111.

[8] QUINTANA, Mario. I A rua dos cataventos. In Quintana de bolso. Porto Alegre: L&PM, 2010, p. 7.

[9] PRADO, Adélia in HOHLFELDT, Antonio. Oráculos de maio. In A epifania da condição feminina. In Cadernos de Literatura Brasileira. Número 9. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2000, p. 96.

[10] WHITMAN, Walt. Pleno de vida agora. In Folhas de relva. Tradução: Luciano Alves Meira. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 149.