Mobilidade [inter]urbana-performativa* | Elilson**

“Vestindo camisa polo cinza e calça jeans, iniciei a ação na Rua Buenos Aires, uma das principais vias de passagem e acesso para o mercado da Saara. Alguns passos e alcancei com os olhos uma mão esticada para fora de um prédio. Pedi o panfleto, explicando a proposta. Antes de escolher o ponto do meu corpo, Verônica compartilhou: ‘Eu tô daqui de dentro colocando só a mão pra rua, pois panfletar no Rio de Janeiro é ilegal, você sabia? Se eu der um passo pra calçada, o guarda já pode me multar. Aqui eu tô assegurada na legalidade, trabalho pra essa clínica odontológica há muitos anos’. Me contou quanto recebia e frisou que tem todos os seus direitos assinados. Mas é comum os panfleteiros serem legalizados? ‘Ih, nada! Arrisco que serei a única.’ Destaquei o alfinete e ela decidiu: ‘Já que sou a primeira, vou centralizar meu anúncio bem aqui, no teu coração, pra dar boa sorte nos caminhos’.” (p. 50)

 

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* Trecho extraído de Mobilidade [inter]urbana-performativa. Elilson. Projeto apoiado pelo programa Rumos Itaú Cultural 2017-2018. Rio de Janeiro, 2019.

** Elilson (Recife, 1991) é mestre em Artes da Cena – performance (UFRJ) e graduado em Letras (UFPE). Trabalha principalmente com performance, escrita e instalação. Tem participado de festivais e exposições em cidades como Assunção, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro. Em 2017, publicou “Por uma mobilidade performativa” (Editora Temporária). Em 2018, foi contemplado com o Rumos Itaú Cultural e com o Prêmio EDP nas Artes do Instituto Tomie Ohtake, realizando por meio deste, uma residência no ateliê R.A.R.O (Buenos Aires). www.elilson.com