O não-lugar em Elizabeth Bishop* | Tiago Silva**

Elizabeth Bishop viveu grande parte da vida deslocando-se, transitando por diferentes lugares, ora como turista, ‘etnóloga’, ora como estrangeira radicada no Brasil, sem nunca encontrar um porto onde se atracar definitivamente. Mesmo quando voltou para os Estados Unidos, já com quase sessenta anos, a poeta não voltou para casa, mas para outro pouso, mais um ponto provisório dentro de uma trajetória, sem início e sem fim. Sua obra conserva marcas desse deslocamento crônico, representando evasões psicológicas e físicas de lugares insatisfatórios para fragmentos do espaço nos quais são projetadas esperanças de felicidade, num fenômeno caracterizado por dois polos. Por um lado, a mente se lança em um processo de prospecção de um lugar no qual os problemas e as dificuldades não existem, um lugar de pertencimento afetivo, por outro, o corpo se coloca em um movimento espacial recorrente, uma busca incessante pelo Elsewhere, nome da segunda seção de seu livro Questões de Viagem ou, em outros termos, pelo somewhere da canção Over the rainbow de Harold Arlen e E. Y. Harburg, escrita para o filme O Mágico de Oz, e eternizada por Judy Garland. Marcas de sua identidade, construída no trânsito, são reveladas através de seu mito pessoal (MCADAMS, 1993), uma estória de si, que liga experiências do passado ao presente e às expectativas em relação ao futuro em um constructo narrativo, desenvolvido ao longo da vida, modelando sua individualidade ao mesmo tempo em que determina o mundo por ela ocupado.

 

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* Trecho das páginas iniciais de O não-lugar em Elizabeth Bishop. Tiago Silva. Aracaju: IFS, 2019.

** Tiago Silva é Doutor em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco, e professor de língua inglesa do Instituto Federal de Sergipe, Campus Estância. Este é seu primeiro livro, fruto de seu trabalho de doutoramento, desenvolvido entre 2014 e 2018, sob orientação do Professor Roland Walter e coorientação do Professor David Jarraway.