Numa rua perto do centro | Paulo Caldas**

Cabelos embranquecidos

 

Na sala inaugural, as turmas de Exatas e Humanas enchem o auditório de paredes acinzentadas, janelas largas voltadas para o pátio e o jardim. Sentado à mesa da solenidade, sob um Jesus Crucificado preso por fio de metal vindo do teto, ao lado dos colegas do corpo docente e membros da diretoria, Arthur da Paixão observa uma por uma as alunas do novo grupo, a maioria contida pela timidez do primeiro dia.

Encerrada a cerimônia se desloca a passos resolvidos no sentido de uma delas, a de cabelos castanhos, que chegara atrasada. De perto, simula um ar de riso e ela corresponde.

Minúsculas bolhas de suor equilibradas na ponta do nariz parecem vestígios do sol no limo úmido. Os lábios grossos lembram uma linha sinuosa riscada entre as covinhas, traço sutil, ainda mais quando o riso movimenta o rosto, expondo o jeito inocente quando nasce, mas sensual quando se completa. Volátil, me escapa entre os dedos incrédulos, inseguros, inábeis, inibidos. Mas não faz mal. O ano está só começando.

– Alô, Vilma, hoje foi o primeiro dia da faculdade.

– Que legal, conta aí.

– Cheguei um pouco atrasada, o reitor já estava dizendo umas coisas lá. Fiquei toda sem jeito, me espremi numa cadeira na terceira fila. Quando comecei a dar fé no ambiente, você não imagina.

– O que foi? Conta logo.

– Um professor, minha filha, não tirou os olhos de mim. A cerimônia continuava e ele olho cravado. Eu não tinha mais pra onde virar o rosto, já estava sem jeito.

– Bonitão?

– Só você vendo o cara: assim, esguio, fios dos cabelos e da barba embranquecidos, óculos aro redondo, lentes meio escuras, mas não tanto e outra coisa, sorriso largo, palavra clara, voz mansa, mas uma menina lá se atravessou quando no final ele vinha pro meu lado. Eu gelei. Aí a turma foi saindo, Vítor chegou e saí depressa me esgueirando pelas fileiras do auditório. Dei graças a Deus quando chegamos no hall de entrada.

– Tinha muita gente?

– Lotado. Um calor insuportável.

 

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* Conto de abertura de Numa rua perto do centro. Paulo Caldas. Recife: Bagaço, 2019.

** Paulo Caldas. Finalista dos prêmios Vânia Carvalho 2012, com o romance Porto dos amantes e Edmir Domingues 2016, poesia, com Círculo amoroso, mais de 15 títulos publicados nos segmentos infanto-juvenil e adulto, participação em várias antologias em prosa e verso, mentor da oficina literária que leva seu nome (com 25 participantes sendo seis deles à distância); colunista de literatura da revista Algomais (versão on-line). Paulo Caldas possui 35 anos de militância literária em Pernambuco. Destaque literário da livraria Cultura Nordestina, em maio de 2019.