Lauren* | Irka Barrios**

I

 

Ao longe as vozes das pessoas encolerizadas e à frente um aclive a vencer. Lauren corre tanto quanto seu corpo permite, os pulmões inflam e se esvaziam em intervalos curtos, a cãibra insiste em falsear as passadas e um punho imaginário a soca na altura do diafragma.

Dói. Ela se inclina para a frente, apoia-se nos joelhos e toma fôlego. Um instante, um instantinho só, implora. A respiração se esvai em uivo, como se o ar arranhasse por dentro.

Latidos de cães a colocam em alerta. Uma nova injeção de adrenalina percorre seu sangue, ela volta a correr, ainda que não recuperada. Na metade da lomba, diminui a velocidade e olha ao redor. Não vê imagens suspeitas. Não vê nada além da quietude de uma cidade pequena que dorme e acorda sem se questionar. Volta a acelerar o passo, conta as casas que se sucedem ao longo do percurso. É um truque para desviar o pensamento de tudo o que acontece dentro de seu corpo. Ofega, avança, ofega mais. Não havia reparado nas casas, em treze anos de vida, a garota jamais notou as cores pálidas das casinhas de madeira. Nem os telhados, os portões e os jardins, tão ameaçadoramente parecidos. Portas que escondem vidas parecidas. Quem destoa só pode ser rejeitado. “Você destoa, Lauren.”

Tenta afugentar a voz persistente, tem medo que junto a ela retornem as visões, o medo, a vergonha. Volta o olhar para as casas, na esquina há uma de alvenaria. O porquinho mais precavido foi esperto, empenhou-se mais que os outros na construção, a mulher honesta dignifica a casa. Uma casa branca transformada em loja comercial, Wüster autopeças. O senhor Wüster não destoa, o senhor Wüster construiu a casa com tijolos e cimento, e o lobo vai soprar e bufar e não conseguirá mandá-la para o ar. O senhor Wüster vive com uma mulher honesta que dignifica a casa, a senhora Wüster vai abrir a porta e acolher os porquinhos quando o lobo derrubar as casas de madeira.

Desde que eles não destoem.

A comunidade é pacífica, mas você não pode destoar.

Na esquina seguinte um porquinho Prático que acolherá os Cíceros e Heitores quando o lobo chegar. Arfando, Lauren acelera a passada e alcança a praça central, em frente à igreja católica. Ainda não enxerga seus perseguidores, embora os imagine perto. Os gritos, os gritos se aproximam. Logo a encontrarão.

“Lauren bucho, Lauren sapona, Lauren baleia, saco de areia”.

 

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* Abertura de Lauren. Irka Barrios. Nova Lima, MG: Editora Caos & Letras, 2019.

** Irka Barrios é contista e novelista, mestre em Escrita Criativa (PUC-RS). Premiada no Concurso Brasil em Prosa (2015), com o conto “O coelho branco”, participa de diversas antologias de contos. Atua na organização do coletivo Mulherio das Letras – RS. Lauren é seu livro de estreia. Contato: irkabarrios@gmail.com