Os cadernos de solidão de Mario Lavale* | Arthur Telló**

Anotações sobre fantasmas

1- Blue

 

Estremeço. Guido preocupa-se. Não entende nada. “Quer que eu fique?”, ele pergunta. Não, não precisa, pode ir. Sorrio e digo que está tudo bem. Mas Guido continua parado me encarando. Vai embora!, meus olhos gritam. Mas ele se aproxima e me dá um beijo na testa. Fujo com a cabeça e bato com ela na guarda da cama. Dói. Só uma parte dos lábios toca meus cabelos.

Um defunto. Outro defunto. É o que quero dizer. O beijo do meu marido é frio como o de um defunto. Meus pelos arrepiam e o bico do peito me dói. Meu peito está morto há quanto tempo? Uma semana? Duas? Um mês?

Guido é inteligente, é gentil. Ao sair de casa, deixa um disco tocando. Reconheço o violão, mas ainda não reconheço a música. O que será?

Just before our love got lost you said,

“I am as constant as a northern star.”

And I said, “Constantly in the darkness,

Where’s that at?

If you want me I’ll be in the bar.”

Joni Mitchell. É melhor ouvir Joni Mitchell que o silêncio. Pedi para Guido levar embora as flores. Seria muito triste vê-las morrendo na escrivaninha. Ele deixa as cortinas abertas de propósito, eu sei. Eu não vou me levantar para fechar nada, ele sabe. Olho um pedaço de céu azul pela janela e me irrito: não, não vou me levantar. Eu preciso, ele me diz. Mas não vou. Nunca mais. Senão, vou dar início a algo que pode se desenvolver, nos encher de alegria e morrer nos nossos braços. Culpa minha? Sim, a culpa foi minha. Só pode ter sido eu.

Às vezes Guido tenta me tocar, mas seus dedos são duros, têm calos e me ferem. Meu corpo está em carne viva. E qualquer coisa dói. O ar machuca, o sol queima, as gotas do chuveiro parecem milhares de agulhas caindo sobre a minha cabeça. Nunca mais quero tomar banho, digo a ele. Quero ficar aqui. Sozinha na cama, encolhida como um bebê. Sou o meu próprio bebê agora. E tudo que poderia ter sido (sol, flores, vento) está tudo morto em mim. Guido também. Cada toque dele é o toque de um morto.

Eu o odeio.

Mas, mesmo assim, ele tenta me tocar. Ontem mesmo ele tentou me tocar, depois de quanto tempo? Uma semana, duas semanas, um mês?

“Não tira a minha roupa””, eu disse.

“Por quê?”

“Porque nunca mais quero tocar ninguém.”

“Nem ficar nua”, ele disse. Sim, faz tempo que não fico nua. Não posso estar nua, senão é o vento, é o sol, é o Guido me ferindo a pele.

Daqui a pouco ele vai voltar do trabalho, perguntar o que fiz, se decepcionar porque não fiz nada. O som ao redor vai ser apenas a agulha do toca-discos riscando o silêncio. Guido então vai fechar as cortinas e ligar a luz. O interruptor vai me queimar os olhos, e vou me afundar no travesseiro. Guido sempre troca a cadeira da escrivaninha de lugar, tira livros da estante em frente à cama, caminha lentamente até o armário para pegar outra muda de roupa para mim. A cadeira branca fora do lugar me irrita. Irritam-me os livros faltando na estante, o peso da roupa no meu pé. Quase choro. Ele põe os olhos castanhos sobre mim e espera. Choro toda vez que ele me dá banho. “Guido, me abraça.” Ele me abraça e me leva para o chuveiro. “Não, não tira minha camiseta”, digo, mas ele aos poucos tira minha camiseta e vai contornando meu corpo com o sabão. Suas mãos são frias e as gotas de água, agulhas. Não há como fugir. Apenas choro para dentro de mim mesma. E aos poucos tento entrar em contato com a água. Enquanto não for o mesmo que a água, as agulhas vão continuar me matando.

Até que somos uma! Somos uma! Quentes, escorremos. Guido me prende pelos braços e me leva para a cama. Olho para o teto branco, para os contornos de gesso, para a luminária que comprei na Redenção, que lembra uma lâmpada de escritório. Gosto dela. Quando percebo, começo a chorar de novo. A água represada quer sair de mim, as gotas do meu corpo viram ondas, é uma maré que sobe, é o Guido mergulhando para me resgatar.

Em vão.

Quando acaba, me sinto morta. Dou as costas a ele. Não quero, já disse que não quero. Nunca mais. Guido não entende que qualquer mudança é dar um passo para fora deste quarto, é criar uma crosta de pele mais forte que o ar e o sol, que ele?

 

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* Conto de abertura de Os cadernos de solidão de Mario Lavale. Arthur Telló. Porto Alegre, RS: Zouk, 2019.

** Arthur Telló nasceu em Porto Alegre, em 1989. É formado em Letras-Latim pela UFRGS e Mestre em Escrita Criativa pela PUCRS, onde, além de fazer o doutorado em Teoria da Literatura, é professor de Latim, Grego, Literatura e Escrita Criativa. Tem contos publicados em antologias e revistas. Em 2016, venceu o Prêmio Açorianos na categoria Criação Literária com o romance O tríptico de Elisa (ainda inédito). Os cadernos de Solidão de Mario Lavale é seu primeiro livro de contos. Ministrou em outubro de 2019 a disciplina Oficina de Narrativa I – Contos na primeira turma de Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contato: arthurtello@gmail.com