“Missa” em Encantamentos* | Ana Paula Braz de Almeida Cavalcante**

Missa

 

Manhã de domingo ensolarada. Pássaros sobrevoam a praça, crianças brincam e velhinhos passeiam com seus animais de estimação. Daniel caminha com a família, enquanto contempla o céu anil. Sobe a escadaria, onde se encontram mendigos, entra na catedral, faz o sinal da cruz e procura o local mais próximo do altar para ser visto pelo padre.

Óculos de armação preta, trancelim e relógio de ouro, camisa social amarelo-clara, calça azul-marinho, atacada por cinto marrom que combina com sapatos lustrados da mesma cor. Cabelos curtos, pintados de preto, fios brancos deixados próximos à orelha para parecer que estão na cor natural. Barba e bigode bem feitos, olhar sério.

Percebe a luz entrar através dos vitrais coloridos, que se reflete nas colunas de mármore e no lustre de cristal antigo pendurado no teto com pinturas do Juízo Final. Os desenhos terminam por trás do sacrário dourado, onde há velas acesas e a imagem de Cristo.

– Obrigada, Jesus! Cinquenta anos bem vividos!

Abraça a esposa Amélia, a filha Fátima, ouve a melodia dos coroinhas e cantarola:

–  Hosana, hei! Hosana, rá! Hosana, hei! Hosana, hei! Hosana, rá!…

Conhece as músicas e rituais.

Na hora dos parabéns, Fátima pede licença ao celebrante para falar ao microfone sobre o pai: trabalhador, honesto, religioso e cumpridor de suas obrigações. Ganha um sorriso paterno.

Na saída da igreja, um homem lhe estende a mão. Odor de suor, unhas compridas e sujas, cabelos desgrenhados, rosto cadavérico. Faltam-lhe dentes.

– Esse cara tá todo fim de semana aí. Deve ser um desocupado, alcóolatra ou drogado. Fez por merecer essa vida.

Um senhor com barba cor de neve, ao notar que Daniel não dera a esmola, oferece um trocado ao pedinte e comenta com o aniversariante:

– A gente recebe tanto, né? Eles têm tão pouco e são nossos irmãos, filhos do mesmo Pai. Como podemos dormir, sabendo que estão desemparados?

Os fieis vão embora. Aquele era o único apurado do dia. O mendigo conta as cédulas, olha para a companheira e filho doente ao lado e depois para cima.

– Obrigado, Jesus!

Em seguida, anda em direção a outro pobre que nada recebera.

– Isso aqui dá pra comprar leite, café e pão. A gente divide.

Por trás do pedinte, um painel fixado na parede ensina: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e com toda a tua inteligência. Amarás o teu próximo como a ti mesmo.”

O idoso, percebendo que Daniel observara a cena e agora se voltara para ler o texto, se aproxima:

– A esses dois mandamentos estão sujeitos toda a Lei e os Profetas. Não há outro maior do que esses.

Amélia segura na mão do marido:

–  Ainda vamos comemorar com seus amigos? Não se exceda, querido. Você tem bebido muito nesses encontros.

Pálido, o aniversariante aperta a mandíbula contra o maxilar, coloca as mãos trêmulas nos quadris e mira o vazio do firmamento nublado.

Os passarinhos se escondem nas árvores, que balançam as folhas com a força da ventania. As pessoas abrem os guarda-chuvas e voltam apressadas para as casas.

– Papai, você tá bem? Vamos! Você viu que aquele senhor de barba branca tinha uma aura? Pra onde ele foi?

– Sumiu!

 

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* “Missa” em Encantamentos: escritos da Oficina Literária Paulo Caldas. Curador: Paulo Caldas. Quarta capa: Ana Paula Braz de Almeida Cavalcante. Recife: Bagaço, 2019.

** Ana Paula Braz de Almeida Cavalcante é médica, escreve desde os 15 anos, faz parte da Oficina Literária Paulo Caldas, do Grupo de Estudos em Escrita Criativa e da primeira turma da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS. Contato: apbalmeida76@hotmail.com