Bernadete Bruto: Um brinde à vida* | Patricia Gonçalves Tenório[1]

Setembro, 2019

 

Octavio Paz já dizia no seu O arco e a lira[2]: “O artista é criador de imagens: poeta”.

Talvez esta seja a melhor tradução para Bernadete Bruto: artista criadora de imagens: poeta.

Nascida em Recife, Pernambuco, mas navegante de inúmeras cidades do mundo inteiro, essa metroviária, socióloga de formação, mãe de André e Helena e avó de Olívia, transmuta sua vida em arte, da mesma forma que a arte alimenta e mantém o seu viver.

Hoje já não me imponho

Me exponho!

Já não me encolho,

Canto.

Já não me espanto,

Aceito.

A vida,

As pessoas.

Na tranquilidade

Da maturidade

Não pergunto,

Vivo!

Não questiono

Para onde vou.

Hoje reverencio,

A mim,

O que sou.[3]

 

Tudo começou em 2008. Novo ciclo de vida, mudanças, busca de um espaço para se expressar. Com a herança da mãe que recitava de cor poemas e a admiração nos escritos da irmã mais velha, Berna se lança na poesia performática, se unindo a diversas instituições e grupos que fomentam a arte na cidade do Recife, a cidade do seu coração.

Minha cidade

Não é só paisagem

Para mim

Gosto e cor

Tem cara de festa

E som particular

O Recife do meu coração

É atemporal…

São muitas pessoas

Várias épocas

Tantos lugares…

Tantas imagens na memória

Também é história

A viver eternamente

Em minha recordação.[4]

 

Mas não é só a si mesma que Berna deseja expressar. É ao sonho antigo de outros poetas na cidade, poetas feito ela que procurou um lugar para espalhar suas sementinhas de poesia, seus afetos de palavras que reverberam em outras paisagens, outros mundos. Outros corações.

Neste mundo

Somos flores

Delicadas

Grandes

Pequenas

Coloridas

Diversificadas

Pelos canteiros da vida

precisamos ser

cuidadas

protegidas

Jamais despedaçadas![5]

 

E a vida lhe retorna em múltiplo com o nascimento da primeira netinha, em uma terra distante, lá no frio Canadá. Mas uma certa árvore acolhe a netinha e a poeta que sabe criar imagens.

Olívia nasceu em um lindo dia de outono, no Canadá.

Naquele momento, uma certa árvore estava vestida de marrom.

Aquela cuja folha é símbolo do Canadá: a Maple Tree. [6]

 

É hora de celebrar a vida de Berna, nossa Bernadete Bruto. Um brinde a esses doze anos de escrita, esses tantos de amizades. Esses Sessenta e um poemas para uma vida e que nos trazem a paz.

Quando a vida sucede em ordem

Tão tranquila e suave

Em tudo que se faz

Surge uma alma apaziguada

Seguindo serena na estrada

Sem se preocupar com nada

Chega enfim a estação da paz.[7]

 

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* Apresentação do Destaque Literário de Setembro, 2019 da Livraria Cultura Nordestina.

Bernadete Bruto é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores – UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014) e A menina e a árvore (2017). Participa de antologias, assim como de diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

[1] Patricia Gonçalves Tenório é escritora, dezesseis livros (cinco no prelo), doutora em Escrita Criativa (PUCRS), ministrante dos Estudos em Escrita Criativa e organizadora das coletâneas Sobre a escrita criativa I (2017), II (2018) e III (prelo, 2020). Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

[2] PAZ, Octavio. O arco e a lira. Tradução: Ari Roitman e Paulina Wacht. São Paulo: Cosac Naify, 2012, p. 31.

[3] BRUTO, Bernadete. Auto retrato. In Pura impressão. Prefácio: Valéria Loreto. Recife: Comunigraf, 2008, p. 31.

[4] BRUTO, Bernadete. Recife atemporal. In Um coração que canta. Ilustrações da autora. Prefácio: Ana Paula Cavalcanti de Pontes. Recife: Comunigraf, 2011, p. 23.

[5] BRUTO, Bernadete. Somos Flores. In Querido diário peregrino. Fotografias: Wagner Okasaki. Prefácio: Elba Lins. Recife: Ed. do Autor, 2014, p. 64.

[6] BRUTO, Bernadete. A menina e a árvore. The girl and the tree. Ilustrações: André Bruto. Tradução: Dulce Albert. Prefácio: Salete Rêgo Barros. Recife: Ed. do Autor, 2017, p. 10.

[7] BRUTO, Bernadete. Tempo de paz. In Sessenta e um poemas para uma vida. Projeto gráfico, editorial e ilustração: Rozze Domingues. Produção gráfica e diagramação: Joselma Firmino. Revisão: Talita Bruto. Prefácio: Taciana Valença. Pósfácio: Maria das Graças Bruto da Costa Correia (Gracita). Recife: Companhia Editora de Pernambuco – Cepe, 2019, p. 87.