“Água de Chloé”* | João Paulo Gurgel de Medeiros

Prólogo

 

O grisalho era a cor dominante sobre a pequena cidade. Atravessando as nuvens, carregadas, dava para contemplar toda a periferia do lugar. Uma grande ponte, desgastada, já que fora construída ainda à época das capitanias, atravessava o caudaloso rio que distribuía a população nos dois principais bairros. Casas coloniais embaralhadas no meio dos prédios modernos davam o tom da tradição. As cores vivas dos edifícios, com traços retos e nunca com mais de cinco andares, passavam uma sensação de restauração malfeita quando destoavam das fachadas estacionadas no tempo das casas mais antigas. Uma grande praça, arborizada e com traves naturais no gramado, acolhia os visitantes da pequena igreja barroca, branca e com nódoas amareladas na superfície de suas bordas, por fora, e dourada, mas triste, por dentro.

Enquanto brincava com Aurora e Alex na relva, já adolescentes, mas ainda com espírito pueril, Pedro tropeçou no vinho, tingindo a toalha e alimentando as gramíneas. A vibração no bolso da calça o fez sacar do telefone – um número estrangeiro. Mais um número desconhecido que seria bloqueado – os golpes eram frequentes. Jogou o telefone para longe, sobre o verde ébrio perto da toalha. Era dia de folga. Nenhuma urgência o perturbaria. Aurora, como sempre fizera na tenra idade, puxava seus cabelos e, enquanto caía, sentiu as primeiras gotas das nuvens. Correram todos para a copa do pé de castanhola. Pedro protegeu o telefone, que não parava de tocar. Não resistiu. Os gritos dos dois, como duas crianças, vendo os espelhos d’água nos buracos ao redor. Tapou um dos ouvidos para ouvir a voz que parecia ser distante. A visibilidade, agora, não chegava a cinco metros. De repente, tudo escureceu.

– Tô entendendo nada.

– Buongiorno, Pietro? Un uomo… suo padre.

– Alô? Está cortando.

O barulho das águas tirava a compreensão daquelas palavras ditas num vinil do outro lado da linha.

– È Pietro? Suo padre è morto… Your father…

– Hi! Where are you talking from? Talk in English, please!

– Non… inglese… Un po’…

– Where are you?

– Your father… dead.

Pedro apenas sorriu para seus filhos. Gostava sempre de lembrar-lhes de que deveriam manter o espírito de juventude e espontaneidade. De longe, Rafaela esperava o aguaceiro amainar. Conseguiu ver Pedro sem ação e correu para eles. Todos os dentes de Aurora. Para eles tudo era diversão. Pedro, imóvel. Com uma mão no tronco do pé de castanhola e outra no nariz, procurava alguma coisa além das nuvens. Nunca se soube se foram lágrimas que se perderam na chuva. Rafaela ouviu um som metálico do alto-falante do telefone sobre a grama molhada:

– Mi dispiace… Mi dispiace così tanto.

Pedro sempre acreditou que somente os bons se vão em dia de chuva.

 

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* Prólogo de Água de Chloé. João Paulo Gurgel de Medeiros. Mossoró: Tinteiro Azul, 2019.