O HUMOR “CONTRA TODOS” DE TCHEKHOV* | Helena Bruto**

“Um homem extraordinário e outras historias” foi a minha primeira imersão no universo de Anton Pavlovitch Tchekhov, autor russo mais conhecido pelos seus contos, muito embora também tenha produzido conteúdo em outras áreas, como: novelas, cartas e peças teatrais.

Como não tinha conhecimento sobre o estilo do autor, fui tentando entendê-lo ao longo dos diferentes temas abordados nas dezoito histórias apresentadas neste livro. Contraposição de classes, realismo fantástico, fábulas de amor e até algo próximo a uma esquete de humor. Mas, ao final, de qual maneira esses variados temas se unem? Apesar de explorar diversos prismas da alma humana, Tchekhov faz a sua análise quase sempre com uma pitada de humor ácido.

Quanto às críticas, o escritor não apresenta restrições na hora de apontar alvos: classe média, poetas contemporâneos, os mais humildes, as fobias humanas e até vícios individuais de uma família. Todos são “vítimas” dos gracejos e julgamentos do escritor.

No caso, acredito que os dois primeiros capítulos podem ser melhor apreciados se forem lidos de forma conjunta. No primeiro – “Desgraça alheia” –, o autor foca na maneira presunçosa com a qual o jovem de classe média trata um camponês falido, rogando-lhe críticas pela falência e comentando de forma paternalista como poderia ter evitado seu malogro. No segundo momento – o conto: “O sapateiro e a força maligna” – ele demonstra a falsa percepção com a qual o engraxate observa e deseja a existência daqueles que vivem no luxo. Inveja esta que se transforma em decepção após uma breve experiência no calcado dos outros.

O conto “Pavores” inicialmente nos remete às histórias fantásticas de Guy de Maupassant, até que chega o momento da conclusão, onde, no lugar de tentar assustar o leitor, ele senta-se ao seu lado para que possam divertir-se com as crendices alheias.

“Trapaceiros à força – Historinha de Ano Novo” é uma história mais leve e que se assemelha ao modelo de uma esquete de humor, com os personagens alterando o tempo de acordo com a sua própria conveniência durante o último dia do ano.

Em “Amor de peixe”, a fábula do amor platônico de um peixe por uma garota russa é usada como pano de fundo para apontar a melancolia e o pessimismo da época.

Também merece destaque “O relato do jardineiro-chefe”, onde o humor aparece em segundo plano em detrimento da crença na bondade e empatia humana, embora até essas questões sejam abordadas com o auxílio do humor.

Sobre o capítulo que divide o título com o livro, a história do homem extraordinário trata da figura de uma pessoa com uma visão bem definida, embora estreita, de mundo e que, por esta razão, os seus pequenos vícios se sobrepõem até a grande virtude ser uma boa pessoa. É interessante destacar que a expressão “homem extraordinário” é utilizada em outro conto do livro, mas com o sentido oposto.

Ao final, com apenas este livro de parâmetro, Tchekhov apresenta características em comum com outros escritores russos clássicos, principalmente com relação à análise da sociedade de sua época. O escritor mostra vícios, medos, paixões e tragédias humanas. Tudo em uma narrativa leve de ser lida e acompanhada de um humor ácido.

 

19 de julho de 2019.

 

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* Exercício do VI Encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2019 sobre Os russos.

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