A QUARTA MARGEM DO RIO DO COMPANHEIRO ACÁCIO* | Clauder Arcanjo**

Companheiro Acácio, cinquentão, amigo do recolhimento e das surpresas (pelo visto já recuperado da última intercorrência que o levou a alguns dias de hospitalização, bem como a refletir sobre a Indesejada das Gentes), foi visto por mim, semana última, à beira do rio da minha aldeia. Explico.

Eu viajara a Licânia a fim de visitar o meu velho pai: nosso bom Zequinha, deveras alquebrado pelas enfermidades dos anos e sempre mergulhado num silêncio abissal. Segundo os médicos, consequência da senilidade; segundo Acácio, forma de protesto e de repúdio a tanta asneira dos discursos mercuriais, descargas de fogo e sangue, que grassa pelo país, de norte a sul, de leste a oeste. Pois bem, voltemos às ribeiras do nosso Tejo.

— Acácio!?…

Ele, impassível, continuou a rabiscar no leito das águas do Acaraú.

De imediato, agachei-me, ladeando-o.

— O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia…

Acácio olhou-me com as veias do pescoço intumescidas, senti-o com a garganta invadida por um grito, protesto seu contra o lugar-comum; mas, antes que ele vomitasse golfadas de impropérios sobre mim, abracei-o. O afago e o perdão sempre interromperam sua sequência de disparo. Acácio bom, Acácio generoso, Acácio dadivoso no perdão.

— Chegaste quando a Licânia, Companheiro Acácio?

Após letrar mais alguns parágrafos nas águas turvas do rio de Licânia, ele respondeu-me, com a voz embargada por algo que eu, até então, não conseguira atentar:

— Precisava vir aqui, o retorno à província se me fazia questão de honra, algo inadiável. Aqui é o meu torrão, cá quero tornar quando me encan… — E as palavras recuaram, embargadas perante a presença da emoção.

Desta feita, fui eu a rabiscar garatujas na superfície do remanso, tão emocionado quanto o Companheiro.

— Não rabisque os meus escritos, seu… — disparou, quase aos berros, Acácio. — Não vê que estou a escrever algo importante!? Procure outra ribanceira, seu filho de uma…

— Companheiro!?… Perdeste os bons modos? — Defendi-me, confesso que mais com o fito de recuperar a respiração, atordoado que estava depois daquele coice de direita do nosso Companheiro.

Ele serenou os ânimos, voltou a agachar-se frente ao nosso Jordão; e, minutos depois, tornou a batizar o leito com sua letra miúda e ilegível.

Tentei, Champollion do sertão de Licânia, entender aqueles rabiscórios naquela espécie de Roseta líquida. “A quarta margem do rio… mora… no… ”.

— Quarta margem do rio?!… Queres agora superar o Guimarães Rosa? Quarta margem?!… Por essa, confesso aqui, eu não contava, eu nunca esperava! Por acaso, tu também tens pastos, buritis plantados no teu apartamento?! Explique-me — indaguei-o, em ar de menoscabo, com as mãos na cintura, como a desafiá-lo com um espadim de embira.

Companheiro Acácio se virou lentamente em minha direção e, sem delongas e com a fala mansa de costume, sibilou algo ao vento, suspeito que mais para si próprio do que para outrem:

— Não se volte para o interesse dos outros, cabrão. Não se preocupe em ser como cortiça n’água, o homem que merece a alcunha de ser pensante tem que se encontrar consigo próprio, mergulhar nas águas fundas do mistério, “quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso”. Melhor, “parece chamar tudo para dentro de si”. Não se satisfaça com a primeira, nem com a segunda margem. Ao se deparar com o enigma da terceira margem, rosianamente não tenha medo de desafiar-se, de superar as nonadas do cotidiano e se abeirar da quarta margem do rio. Sim, companheiro Acácio, a quarta margem…

Mal declarou aquela profusão de filosofices — “já todo inventado, saramicujo, fazendo muita serenância” —, algumas para mim tão enigmáticas, notei que Companheiro Acácio levantou-se, fitou o céu azul licaniense, bateu uma poeira imaginária na camisa branca, olhou para mim (não sei se com um sentimento de pesar ou de provocação) e, antes de tomar o rumo do Serrote da Rola, propagou em tom de pastor de nuvens:

— Um homem vale pelo que busca e não pelo que encontra. Buscar é preciso, porque viver não nos basta, além de termos um devir impreciso. Outro dia, li: “Essas coisas ocorrem nuns escuros, é custoso de saber se a gente deve se aprovar ou confessar um arrependimento: nos caroços daquele angu, tudo tão misturado, o ruim e o bom”. Ah, viver é uma nonada. “Somos que vamos.”

E Companheiro Acácio saiu, com passos messiânicos, de “miúda dureza”, por entre a mataria espinhenta, a caminhar pelas sendas de pedras — “sem nem por isso afrouxar do fôlego de ar que Deus empresta a todos” —, tão marcadas pelos passos dos nossos caboclos ancestrais. Ele, sempre “espritado”, com a biloca dos olhos fincada no cocuruto do firmamento.

Quanto a mim?! “Eu permaneci com as bagagens da vida.”

 

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* Publicado em 19 de agosto de 2019 no site Segunda Opinião: https://segundaopiniao.jor.br/a-quarta-margem-do-rio-do-companheiro-acacio-por-clauder-arcanjo/

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