Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa – Unicap/PUCRS – Agosto, 2019

A primeira Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa na parceria entre a PUCRS e a Unicap nasceu na semana passada. Trouxemos um dos pais da Escrita Criativa no país, o escritor e professor gaúcho Luiz Antonio de Assis Brasil.

Foi um final de semana pleno de surpresas boas, textos de qualidade, e o mestre nos guiando pelos caminhos do bem escrever.

Compartilho abaixo alguns textos gentilmente concedidos pelos participantes para emanarmos um pouco do aroma que vivenciamos nesses dois dias tão especiais e que para sempre nos recordaremos…

Abraços cheios de Luz e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Vida também é Arte

Patricia Gonçalves Tenório[1]

16 de agosto de 2019

 

Sentada em uma das cadeiras do anfiteatro, eu posso vê-los chegar, acomodarem-se em seus lugares, surpreenderem-se com o bloquinho de anotações e a caneta bic coloridos, o aroma do girassol sorridente.

A primeira turma da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa da Unicap/PUCRS nasce hoje. É um sonho antigo que se faz novo, atual. Enquanto respiro o instante, relembro tudo o quanto caminhamos para chegarmos até aqui, as inúmeras pessoas que nos ajudaram e somos para sempre gratos, o que sofremos, o que sorrimos.

E vendo seus rostos iluminados, pequenos girassois que bebem da sabedoria e dos ensinamentos do mestre maior da Escrita Criativa no país, Luiz Antonio de Assis Brasil, penso que todos os esforços, os obstáculos, a quase desistência, valeram a pena, frutificaram.

Brotaram em sementinhas numa sexta-feira de agosto de 2019 em nossos corações.

 

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[1] Escritora, doutora em Escrita Criativa (PUCRS, 2018), participante na coordenação da Especialização Lato Sensu em Escrita Criativa Unicap/PUCRS (2019.2). Contatos: patriciatenorio@uol.com.br e www.patriciatenorio.com.br

 

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Ana Paula Almeida

Contato: apbalmeida76@hotmail.com

Exercício I:

 

A luz do quarto apaga sozinha na hora do jantar. Não posso desperdiçar aquela oportunidade que tanto aguardava. Visto a única calça e camiseta que ainda cabem em mim. Pego uma panela vazia e me encolho ao lado da porta.

Minhas mãos suam e tremem, assim como o meu coração. Ouço um ruído de passos se aproximando. Barulho que sempre surge no mesmo horário à noite. Minha única fonte de percepção do meio externo.

Percebo o som da chave. Levanto-me com um salto e me posiciono como um animal selvagem que é perturbado em sua toca.

No momento em que ele entra no aposento, a lâmpada volta a acender. Ele surge com os olhos cor de sangue, atentos a qualquer movimento. Cheira a suor e graxa. Segura um revólver e uma corda.

Fixo o olhar naquelas armas, sentindo-me como um vidro: estática e frágil. Ele se aproxima. Pego o objeto de alumínio, que escondia por trás das costas, coloco na minha frente e pergunto se trouxe minha refeição.

Não posso fazer mais nada. A luz que tanto me conforta, dessa vez tira-me a coragem. Não será agora que conseguirei lutar por minha liberdade.

 

Exercício II:

Arthur vive a história mais curta de sua vida

 

Arthur senta-se no trono letal. Há três anos, dois meses e três dias pensava diariamente como seria aquela cena.

No início não acreditava que aquilo aconteceria de fato. Achou que, de alguma maneira, conseguiria convencer as autoridades da sua inocência. Passou a sentir muita raiva da situação. Tentou se relacionar com outros detentos na tentativa de articular um plano de fuga, mas nada dava certo. Até que um dia aceitou seu destino.

Sinal dado para que se prossiga com a execução. Não funciona. Presidiário retirado do local para que seja realizada vistoria no equipamento.

Luzes se apagam. Gerador quebrado. Arthur corre no escuro em direção à porta. Percorre todo corredor e, no final, imobiliza um guarda responsável pela segurança. Pega as chaves e a arma, pede para que tire suas roupas, e as veste em seguida.

Continua o percurso até o portão principal e, fardado, consegue sair sem chamar atenção. Pega um taxi, estaciona em frente a sua casa, desce do carro e toca a campainha. Sua filha caçula aparece arregalando os olhos e sorrindo ao mesmo tempo. Pula para os braços do pai e o envolve com beijos.

A energia volta. Presidiário reconduzido à cadeira elétrica. Dispositivo acionado. Procedimento realizado com sucesso.

 

Cleyton Cabral

Contato: ccomunicador@gmail.com

História de fogo

 

Todo dia Barros acorda às seis da manhã. Olha o Instagram antes de se levantar.

Rola o feed: mulheres de biquíni, vizinha, novata do Corpo de Bombeiros.

Like. Like. Like.

Privada, escova de dentes, chuveiro.

Farda, café, um beijo na testa de Emilly e um selinho em Carla.

Bom dia, meu amor!

Bom dia, mozi, feliz nosso dia 04, bom trabalho, te amo!

Te amo, nêga, mais tarde nóis comemora!

Elevador, garagem, engarrafamento.

Like. Like. Like.

Serviço, cafezinho, conversa fiada.

Meio-dia: balança livre, 2 opções de carne, 1 copo de refresco.

Três da tarde: chamado, sirene.

Reconhece a casa.

Fumaça. Fumaça. Fumaça. Água. Água. Água.

Destruídos: geladeira, sofá, camas, roupas, uma bicicleta infantil.

Abre o Instagram: stories de Emilly na escola e Carla no trabalho. Ufa!

Selfie com casa de fundo: orgulho do meu trabalho.

Muitos likes.

 

Cristina Mesquita

Contato: cristinaamesquita@gmail.com

Travessia

 

Andava pelas ruas apressada. Depois de mais um dia em um trabalho que já não me enchia mais os olhos. Ou talvez nunca tenha enchido. Paro, de repente, diante de um sinal vermelho. Na espera para cruzar a faixa e chegar ao outro lado, sinto-me como um copo meio cheio de amarguras. Meio cheio de uma vida que escolheram para mim. Meio cheio da fadiga de uma rotina de papéis. Meio cheio de não ser. Ou seria meio vazio? Continuo a olhar para a luz vermelha, aguardando ansiosamente o momento em que ela me permitirá seguir em frente. Ouço o som de um coração que, até então, batia no silêncio. Mas hoje, por algum motivo, surgiu em mim essa vontade de cruzar a faixa e procurar algo que encha o meu copo. Uma vontade de descobrir o que há por dentro de uma madeira que, por muito tempo, acreditou ser oca. Uma vontade de florescer. A luz ficou verde.

 

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

Exercício I:

 

Fujo!

Não sinto chão áspero,

Não temo o vento rasgando minha pele,

Não penso no olhar dos outros.

Estou só!

E nesta cidade de concreto explícito

O que me punge, o que me marca, só o meu olhar pode dizer.

Mas meu olhar  foge de todos.

Meu olhar, perdido num mundo que desenhei só para mim, jamais será capturado por mesquinhos olhares, jamais será transfigurado por paixões banais.

No meu mundo de desenho incerto, onde busco  os cores do ontem  e o sabor do novo,

Só poderei chegar de pés descalços,

Somente poderei alcançar deixando para trás as paixões mundanas que me trouxeram até aqui,

Onde os muros sem cores são meu motivo da fuga.

Da fuga para um lugar azul – longe daqui.

 

Exercício II:

 

Carla vive sua mais curta história

 

Era segunda feira, ela acabara de fazer vinte anos e decidira se dedicar totalmente à dança –  sua maior paixão.

Sim, iria fazer a faculdade de dança.

Para fugir das restrições econômicas da família iria dar aula numa escola de balé,  mas sem deixar de lado seu envolvimento com as causas políticas e sociais de sua comunidade.

Seu objetivo final – dançar profissionalmente – também  proporcionaria uma mudança para os jovens que ela encontrava todos os dias parados na pracinha sem flores e sem alegria. Aquela praça iria mudar, ali as crianças e os jovens dançariam e em conjunto mudariam a história do bairro.

O dia amanhecera lindo, o sol brilhava queimando sua pele e lhe dando o calor necessário para enfrentar a fria realidade junto à família, que pouco se importava com seu sonho.

Andava pela calçada mentalmente planejava a visita à universidade, onde faria o teste final para concorrer à bolsa de estudos. Depois passaria na escola de dança onde trabalharia por duas horas.

A calçada inclinada, copiava o relevo do morro e lhe exigia muito cuidado para não escorregar… suas pernas – seu tesouro –  delas dependia o futuro.

No ponto do ônibus encontrou o amigo Jorge – de moto e lhe oferecendo carona. Ela aceita, insiste no cuidado com o trânsito.

Às 9h da manhã, uma hora após ter saído de casa, Jorge a deixa na porta da universidade sã e salva.

Naquela parte da cidade chovera…

Carla se apressa – o teste ocorrerá dentro de dez minutos.  Tenta alcançar seu destino e não nota que a chuva deixara a entrada da Universidade coberta de musgos escorregadios…

 

Fabiana Plech

Contato: fabianaplech@outlook.com

Exercício I:

 

Fluo, decorro…

não raiz.

Sem alma.

Sinto? Jamais.

Transbordo!

Além de mim, onde somente eu, há.

Não há mais espaço,

Deixo cair pedaços. Deixo?

Eles caem sem ordem.

Uma mutação… vai além do que vejo do lado de fora, a propulsão me leva  a algum lugar. Ainda ando, assim.

Um vácuo me faz divergir de mim… sou eu em todos os simples bloquinhos de minha demolição.

Implosão,  enfim…

O porvir

 

Exercício II:

 

Visando manter sua condição financeira privilegiada, Adelaide, uma senhora de 68 anos, trabalhava como costureira, sem desistir ou dar cabimento ao cansaço.

Mãe de cinco filhos dependentes, ademais o cônjuge, graças à sua personalidade de agente motriz da vida de cada um, tornando-se eterno engenho de fazer dinheiro.

Seu maior medo, a inutilidade. Questãozona de honra era a demonstração de seus dotes cognitivos nas peças de alta costura que projetava, causando cada vez mais veneração.

Naquele dia, o marido, apelativo qual um rebento, solicitava, aflito, para que ela colocasse um bolso enorme em suas calças, afim de que um meliante não conseguisse subtrair seus pertences, antes que ele flagrasse.

Adelaide, debruçou-se sobre a calça, com maestria, colocou o alforje bem na braguilha da calça. Causando o desespero e um grande desentendimento entre eles. Como iria ele abrir a roupa bem na braguilha em plena via pública?

Este dia foi talvez o dia mais curto e mais terrível de suas vidas. Curto porque foi ali que tudo acabou. Todos os sonhos todo glamour de ser uma costureira de renome.  Instalava-se com isso algo desesperador. Após retumbantes fracassos, tudo se arrebentava e cada vez mais no começo.

O dia mais curto de sua vida era todo ele em que começava a existir. Esqueceu quem seria, esqueceu como comeria, esqueceu que nome teria. Então Adelaide, passou a ter uma formatação nula, sequer saber que existia, certamente Alois Alzheimer saberia dizer o porquê da vida de Adelaide ter perdido a cor. A demência seria, pois, tudo o que ela mais temia.

 

Heloísa Ramos Lacerda

Contato: helramoslacerda@gmail.com

Clara vive a mais curta história da sua vida

 

Clara chegou para mais um dia da sua pesquisa. Estava feliz por ter alcançado o seu espaço, pesquisar novos medicamentos para o câncer de pâncreas. Havia reunido suas economias, recebera ajuda da família e partiu para mostrar ao pai que sim, mesmo sendo uma filha mulher, conseguiria ter sucesso e fazer diferença no mundo.

Não diria a ninguém que passou a noite chorando com saudade dos amigos e da família no Brasil. Já percebeu, nas entrelinhas, que sua colega disputa com ela o sucesso da pesquisa, e, receia ter seu experimento modificado numa noite qualquer. Não estava nada fácil para Clara firmar-se nesse caminho.

Hoje passou o dia bem concentrada no trabalho, e teve a feliz surpresa de avaliar um paciente que está muito bem, dois anos após o início da quimioterapia que desenvolveu no laboratório. Em se tratando de câncer de pâncreas em estágio avançado, é o melhor resultado já descrito. Ficou louca para ligar e anunciar ao mundo, principalmente ao pai.

Ao final do dia de trabalho, pegou sua bolsa e olhou o celular. Surpresa, contabilizou muitas ligações do Brasil. Não sabia se ficava feliz ou alarmada e decidiu ligar. Quem atende é a mãe, que confirma ter tentado falar com ela:

– Estou muito aflita, acho que precisamos da sua ajuda.

– O que houve, mãe, algo grave, alguma doença?

– Pois é linda, seu pai começou a perder peso há 30 dias, os olhos ficaram amarelados. Fomos ao médico hoje, que indicou uma tomografia de urgência. Ele nos informou que seu pai está com câncer de pâncreas.

 

Hugo Peixoto

Contato: hugocpcoutinho@gmail.com

Lauro vive a mais curta história de sua vida

 

Fechou a porta de madeira com força e olhou para os lados, do cruzamento até a ponta da rua, para ver se tinha alguém observando. Fazia isso todas as vezes que fechava o bar, mas na sexta-feira, dia de música ao vivo e quando os boêmios prolongavam as conversas dramáticas até quase a alvorada, tinha mais cuidado e dava uns empurrões na porta para ver se estava trancada.

No caminho até a casa, ali perto, fez as contas do dia e da semana. Estava difícil, movimento fraco, talvez a mulher dele estivesse certa. Só a sexta salvava, mas parte do que arrecadava era para pagar ao músico, então dava no mesmo. Um rato gordo cruzou a calçada e o distraiu. Bicho nojento, mas é esperto e está comendo bem.

Abriu a porta de casa tentando não fazer barulho, mas, assim que entrou, viu a luz fraquinha por baixo da porta do quarto de Arturzinho. Mais perto, ouviu tiros, explosões e gritos desesperados. Abriu sem bater.

– Já falei que não quero jogo de videogame até essa hora.  Vamos, desliga.

– Você não é meu pai.

– Não importa, desliga. Eu e sua mãe já conversamos sobre isso.

– Mãe não está.

– Não?

– Saiu umas quatro da tarde. Pedro do Táxi que veio buscar.

Lauro correu até o quarto e procurou as duas malas que ficavam em cima do guarda-roupas. Procurou também no cantinho, do lado da cama. Encontrou apenas um envelope com seu nome sobre o travesseiro rasgado, como se ele fosse notar apenas quando deitasse para dormir.

 

Lara Ximenes

Contato: larafximenes@gmail.com

Lourdes vive a mais curta história de sua vida

 

Lourdes busca todos os dias parar de fumar. Começou o hábito muito cedo, aos 14 anos, mas teme o câncer de pulmão mais do que a morte em si — o câncer é mais lento e doloroso, ela pensava. Ainda mais para alguém como Lourdes, que não tem plano de saúde. Ela também recusava totalmente a ideia de ser cuidada, mesmo que pelos filhos. Achava fraqueza depender de alguém. Última vez que dependeu, viu-se à deriva, e sentir-se pairando na instabilidade (emocional, financeira e física) era a coisa que ela menos gostaria de viver novamente.

Desde então, diz para si mesma que só ela cuidaria de si e dos seus desejos, sonhos e necessidades, pois ela e somente ela estaria sempre ali. Alguém com essa filosofia não pode jamais ficar à mercê do câncer. Mesmo assim, Lourdes ainda não tinha conseguido vencer aquele vício. Hoje com 50 anos, sente-se presa aos velhos hábitos, como fumar, pintar as unhas com o esmalte Gabriela e assistir Domingão do Faustão quando não está emendando turnos no bar onde trabalha, na Zona Sul da cidade, para fazer um dinheirinho a mais no fim do mês.

Numa terça-feira incandescente, às 14h50, a garçonete aproveitou o intervalo no trabalho para comprar cigarros. Ao lado do fiteiro, notou um novo empreendimento numa galeria aparentemente vazia. As letras em neon e vitrines escurecidas em fumê revelavam que se tratava de um sex shop. A garçonete encarou a porta por 20 segundos antes de abrir. Como o calor do verão recifense não dá trégua, até que seria bom entrar e aproveitar pelo menos um pouco daquele ar-condicionado. Entre balões vermelhos e pretos, estavam em promoção de inauguração vários óleos, fantasias eróticas e brinquedos que ela não sabia o nome. Pousou os olhos em um muito pequeno, cromado e esteticamente agradável. Descobriu em seguida que aquele era um vibrador que se chamava bullet, e estava custando apenas R$30,00 de acordo com a simpática atendente que não falou seu nome. Nesse dia, Lourdes não comprou cigarros. No dia seguinte, também não. Conseguiu, enfim, parar de fumar.

 

Raldianny Pereira

Contato: raldianny.pereira@gmail.com

Escultura hiper realista em madeira

 

Senti cada golpe

A talhadeira me marcava

O estilete me marcava

Me fiz assim

Um eterno quase ir

Olhar perdido

Um chão sempre fixo