Estudos em Escrita Criativa – Julho, 2019

 

Em 19/07/19, nos reunimos, Bernadete Bruto, Elba Lins, Helena Bruto, Luisa Bérard e eu, para falarmos sobre Os russos.

Estava extasiada com a infinidade de técnicas da Escrita Criativa que descobri em Anna Kariênina, de Liev Nikoláievitch Tolstói (Iásnaia Poliana, Rússia, 1828-1910). Técnicas tais como Repetições, Listas, e o conceito de Figura que permeia (quase) todos os encontros dos nossos Estudos, desde agosto de 2016, quando nos reunimos pela primeira vez, Bernadete, Elba e eu, para compartilharmos essa imensidão de conhecimentos que a área que adotei de coração, e que tentaremos trazer para Recife na Unicap vindo lá da PUCRS, em Porto Alegre, nos dá.

Mas Liev Tolstói não está só. As meninas (as chamo assim) leram profundamente Fiódor Dostoiévski (Moscou, 1821-1881), Anton Pavlovitch Tchékhov (Taganrok, 1860-1904), Nikolai Vasilievich Gogol (Velyki Sorochyntsi, Ucrânia, 1809-1852) e os poemas de Anna Akhmátova (Odessa, Ucrânia, 1889-1966). Eis alguns textos que nasceram do sexto encontro de 2019 dos Estudos em Escrita Criativa.

Uma boa viagem/leitura e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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A RUA QUARENTA E OITO

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Como são limpas e varridas suas calçadas e, Deus, quantos pés deixaram nelas seus rastros

(Nikolai Gógol, Avenida Niévski)

 

A Rua Quarenta e Oito é uma das ruas da Cidade do Recife situada no bairro do Espinheiro. Não é longa como a Avenida Niévski, porém sua história é antiga. Num relance, cenas desenrolam-se na frente, como se fossem imagens de rolo de filme daquelas que projetavam no cinema Espinheirense, cinema de bairro localizado no número 224, no quarteirão que vai da Rua da Hora até a Agamenon Magalhães. Tempos atrás, nos primórdios de sua história, a Rua Quarenta e Oito foi um sítio. Naquele período, o movimento da localidade era de revolta e desejo de liberdade. Lá reuniram-se integrantes da Revolução Praieira ocorrida no ano de 1848 e daí advém o nome da rua, uma homenagem a revolução, recebendo o nome do ano abreviado: 48. Quanto ao quarteirão do cinema, havia uma casa na esquina da Rua 48 que cruza com a Rua da Hora, onde hoje é um prédio da Queiroz Galvão. No início dos anos 70, ainda via-se no local  de número 261 o casario antigo no fundo do terreno e um caramanchão, bem próximo da esquina, como se fosse uma guarita. Ah, quantas moçoilas devem ter ficado em seu interior aproveitando o dia, esperando pelo amor de suas vidas ou esperado em vão, o coração batendo no ritmo do potpourri “Tu não te lembras da casinha pequenina onde do nosso amor nasceu. Tinha um coqueiro ao lado que coitado de saudades já morreu… Não tinha coqueiro ao lado não, tinha um caramanchão. E eu fiquei chorando quando foste embora, quem sente saudades é quem chora.”

Quase no final da Rua 48, perto da Avenida Agamenon Magalhães, havia uma casa de número 117, que mais parecia um enxame de abelhas de tanto entra e sai de gente. De lá, a toda hora, saía uma pessoa, várias pessoas ou entravam muitas. Logo pela manhã, as crianças, os jovens fardados caminhavam para  a escola junto a uma senhora de cabelos grisalhos e olhos grandes, que continuaria o caminho angustiada até seu trabalho. Logo em seguida, o portão maior da casa 117 se abria. Era a vez de um senhor gordo que num carro, acompanhado de filhos mais velhos, seguiriam para o trabalho em direção ao centro da cidade.  Perto das 10 horas, era a vez de uma senhora miúda apressada que ficaria no ir e vir por aquela rua, de casa para o açougue, de casa para a padaria, da casa para a mercearia, voltava carregando tão grandes pacotes que muitos imaginam que tivesse algum negócio! A mesma senhora, em algum momento vai à missa numa Matriz situada alguns quarteirões mais à frente.

Durante todo o dia, o vai e vem das pessoas que chegavam e saíam da casa de número 117, velhos, adultos e crianças, a circulação era grande, no entanto, a rua tinha seu próprio movimento. Na Rua 48, pela manhã, bem cedinho o apito anunciava o cuscuz molhadinho vendido em tabuleiro. Passavam, em seguida, uma série de vendedores anunciando os serviços com pregões:  “Olha o amolador!”; um vendedor com dois cestos cheios de frutas amarrados de cada lado de um varão que prende na altura do pescoço diz: “Jaca e mangaba, olha a pinha, mangaba!”. Uma carroça recoberta de verduras passa pela rua ao som de “Verdureiro!” e o entra e sai de donas de casa fazendo suas compras, a regatear preços, a conversar com os vendedores, já conhecidos seus de longas datas.

Perto da hora do almoço, voltavam as crianças, os jovens, a senhora  angustiada para a 117 e iniciava a vinda dos mendigos, batendo de porta em porta, com suas cuias de queijo do reino onde seriam colocadas a refeição em plena rua. Depois do almoço, era e vez da mulher do porco, vir com seu balde, aproveitar os restos dos alimentos para dar a seus animais.

No quintal da casa 117 o movimento era de rodar pião, empinar papagaios, jogar bola de gudes, chutar bolas ou brincar de pega-pega, barra-bandeira, esconde-esconde, cantigas de roda, ao mesmo tempo que na rua o desfile das guloseimas os atrai de tempos em tempos para fora. O vendedor de pirulitos toca um apito e todos correm para escolher naquela tábua furada, onde estão enfiados enormes pirulitos de açúcar, embrulhados no papel fino cor-de-rosa, que às vezes grudava no pirulito, às vezes nos dentes. Depois seria a vez do algodão-doce, cujo vendedor, da mesma forma, passa com seu som característico a faca na bacia de alumínio que faz as crianças correrem novamente para a rua, ver a mágica transformação do açúcar em nuvem. E a cocada de vários sabores vendida nos tabuleiros tinha som diferenciado pelo apito triangular, além dos cavaquinhos guardados num saco de plástico, o vendedor tocando no triângulo “tilimlim”. Com o passar do tempo, a vez seria da carroça de pipoca com a buzina “foc-foc” ou o carrinho de sorvete da FriSabor, o vendedor tocando um sininho, os adolescentes comprando o picolé, sorvete de casquinho de copo com palito de madeira.

À noitinha, seria  hora do senhor gordo junto com seus filhos maiores regressarem para a casa 117. Todos sentavam-se à mesa e o jantar transcorreria numa grande torre de babel de tantos falarem ao mesmo tempo. O movimento da Rua 48 à noite acontecia na proximidade do cinema. Na frente, o porteiro impediria menores de assistirem algum filme proibido ou cuidaria da entrada para alguém não entrar de graça.

Na Rua 48, os eventos ocorriam como guiados pelo calendário. Em fevereiro ou março vinha o Carnaval. Crianças e jovens brincado de mela-mela, jogando água nos carros com bombas de cano de ar comprimido, ou até com baldes. Ou fugindo assustados dos caboclinhos que, passando pela rua, se apresentavam de casa em casa… Em noites de Carnaval, os jovens e adultos passavam pela rua, iriam num jipe em direção ao corso na Avenida Conde da Boa Vista. Em outros dias, para os bailes no clube, saindo em grupo com fantasias e voltando da rua, entrando em casa cheios de histórias engraçadas das paqueras arranjadas. Durante o Carnaval, o som que se ouvia naquela rua, no princípio, era “Tenho um recado pra você preste bem atenção ela mandou dizer que não lhe quer mais não….” Chega, ao mesmo tempo, a lembrança de um jovem apaixonado pela vizinha que fez sua declaração de amor em plena rua, quando bêbado do trote da faculdade. Sóbrio, contornaria o quarteirão por muito tempo, só para não ter de passar em frente à casa da jovem, aquela de número 213 que ficava perto da casa do caramanchão. Depois, no último Carnaval na Rua 48, bem no fim, daquela história por lá, a música seria assim: “Atrás do trio elétrico só não vai que já morreu…”

No início de maio, na Rua 48, havia procissão pelo Mês de Maria. A imagem da santa saia de uma casa para outra caminhando em cortejo. Todos de vela na mão embrulhada num cone de papel branco para a chama não apagar. O andor ia na frente, todos no meio da rua atrás da imagem entoando a canção “A treze de maio na cova da Iria no céu aparece a Virgem Maria…ave, ave, ave maria….”

Naquele mesmo mês, muda o ar da Rua 48, quando começavam os preparativos para o São João. Na rua, como em várias, ocorriam ensaios para a festa de São João. Muitos rapazes e moças tinham a oportunidade de dançar com seus amados. Cada um feliz, ou reclamando do par que se formou, empurrado pelo organizador da quadrilha, para a sua sorte, azar ou para seu bel prazer. O mês todo é o movimento de anavantu e anarriê de jovens pela Rua 48 que se arruma para as festividades com bandeirolas, as palhas de coqueiros entrelaçadas estiveram enfeitando a entrada do portão da garagem da casa 117, onde se dançaria a quadrilha

Já nas festas de fim de ano, a Rua 48 adquiria um outro ar. Quando chegava o Natal, as famílias saíam a pé em direção à missa do galo. Na ida e na volta cumprimentando os vizinhos. O movimento da casa 117 era para a de número 207, que neste período reunía todos os parentes, pois lá habitam as senhorinhas portuguesas, parentes mais velhas,  No Ano Novo, a Rua 48 era uma festa após a meia-noite. Eram muitos fogos explodindo no céu e todas as casas iluminadas, os desejos de feliz ano para todos os parentes juntos e abraçados novamente na casa 207. Depois crianças iriam dormir e jovens, vestidos para festa organizarem-se na rua dentro dos carros para seguirem para o réveillon.

Na Rua 48 ficaram estacionados, através dos anos, carros como SINCA, Itamaraty, Rural, Fusca. Passaram pela rua Gordinis, Karmanguias, Galaxi, motocicletas Vespa, nas cores verde, azul, Hyamarra e nas férias, corriam as bicicletas Monark ou Caloi tomando as calcadas, as ruas, em passeios ao redor do quarteirão. Já havia passado o tempo dos patinetes coloridos de madeira, que na calçada deslizavam junto com os carros de rolimã.

Nela existiram também personagens típicos, como os de uma cidade de interior. Aquele vigia meio doido que morava num terreno baldio, era apelidado portuga e as crianças quando passavam pelo terreno gritavam: “Portuga, Salazar morreu!” e corriam muito para não receberam as pedradas do coitado, e todo dia essa rotina era repetida, para raiva do portuga brasileiro e diversão das crianças. Ah, e o rapaz enlouquecido caminhando maltrapilho pela rua? Sua passagem era acompanhada com dó, sem ousar importuná-lo. Diziam na rua que era filho de um senhor abastardo, morador da rua,  que de tanto estudar enlouqueceu… Ninguém se aproximava do jovem de olhar nublado caminhando pela rua afora.

Que belos momentos passados na 48! Das músicas de Roberto Carlos escapando das casas em direção à rua: “Un gato nel blu guarda la stelle non vuol tornare in casa senza te. Sapessi quaggiùu che notte bella che se un gran dolore si cancella?” E quantas copas do mundo vencidas que aquela rua assistiu espelhando a alegria dos seus habitantes nos anos de 58, 62, 70 ?

No século XXI, do túnel verdejante de oitizeiros que se abraçavam no céu, propiciando um vento fresco pelo caminho da Rua 48, hoje, poucas árvores restam. Não há mais cinema, um outro negócio está no local. Assim como as casas de número 117, 207, a do caramanchão e outras mais, todas derrubadas para surgirem edifícios. O trânsito é forte e passa por lá até ônibus! As pessoas passaram, se mudaram, alguns perderam a fantasia daqueles dias… Como o tempo passou rápido! Essa constatação foi entendida ontem, naquela mesma rua, um dia, quando a menina caminhava pela calçada em direção à casa 207, deu-se conta do tempo e confidenciava às primas, que sua idade já não cabia mais na mão, pois já passava dos 5!!!! E a vida passa, como suas histórias, que acontecem como se estivéssemos passando por uma rua, sem deixar rastros, caso não houvesse alguém que relembrasse, como quem atiça a brasa para reacender a fogueira da memória. Talvez por isso, ainda hoje, lá do fundo da Rua 48, ressoa uma antiga canção:  “O balão tá subindo, Tá caindo a garoa, O céu é tão lindo. E a noite é tão boa. São João, São João, acende a fogueira do meu coração.”

 

Recife, 12 de julho de 2019.

 

 

Talita Bruto

Contato: talitabruto@gmail.com

(A partir da leitura de Anna Akhmátova)

 

Achei que cresci

e disseram que muralhas separavam

e gritos ecoavam de uma caverna distante

onde as sombras eram luzes

E as luzes eram ninfas

inspirações daqueles que sonham

acordados no tempo do bom agora

as mães chamavam os filhos

que descobrem sós o que são mães

ausências e expirações

suspiros

do outro lado, o beijo azul

das mãos imploravam

por seus dedos quantos estivessem quantos fossem

no inverno rigoroso

e esperavam

a colheita

quando o primeiro e último,

quando, por assim dizer, o único,

orvalho surge

e se põe, essencialmente,

efêmero

um grão de mostarda

no ventre graúdo

daquelas aquelas, sim,

das mãos, as mesmas, que tocavam pianos

e silêncios

e pausas.

Um cordão unido, um modo de falar: te ligo.

Achei que relembrei

e sussurraram que muralhas preenchiam

os espaços vazios dos espíritos

encarnados

por aquelas mães

que esbranquiçadas

tremendo

tentavam achar os seus

filhos

na partida

porta

de um tempo

acabado

sumido

escondido

por uma grande faixa preta

engavetada

puída

de fel

e morte

ardida.

Achei.

E encontrei.

Vi.

Na unha afiada

um pequeno lasco

de pele

uma súplica.

Cadê?