O CURATO DE BOM JARDIM* | Marly Mota**

A velhice não me arrefece, me faz sempre recuar em outros  tempos. Quando menina, com a prima Heloisa, da minha idade, no  Colégio Santana,  iniciamos  nossas  aulas  do curso  primário com as freiras alemãs da Ordem  Beneditinas, muitas dessas jovens por vocação religiosa em plena segunda grande  Guerra  Mundial, fugiram  da  Alemanha, França, Bélgica  para o  Brasil. Perseguidas, pelo exército  de Hitler o conhecido, “Fürer,” entre elas, a madre Maurícia, minha mestra de piano e de Heloisa, sob sua enérgica orientação, tocávamos a quatro mãos a Barcarola de Offenbach dos contos de Hoffmann, nas festinhas do colégio, onde  toda cidade comparecia. Tempos depois soubemos que a Madre Maurícia,  nossa mestra  de piano, voltara à Alemanha e morrera louca num hospício de Heidelberg. No Colégio Santana aprendemos de cor e salteado as tabuadas, as cartilhas entre outras lições.

Do século 17, nos chega o lugarejo, a humilde capela devotada à Sant´Ana, o velho Cúria com as obrigações eclesiásticas,  instala-se numa modesta casa cercada de paus d´arcos amarelos, roxos,  nativos do nosso agreste matuto em Pernambuco.  Deixando o Curato, ficou chamado docemente de Bom Jardim. O meu pai, foi o primeiro Auditor Fiscal do Tesouro Nacional, nomeado por concurso, em 1927  pelo Presidente da República Washington Luiz. Lá permanecendo, até a aposentadoria.

Em velho  sobrado  colonial com meus pais e irmãos  moramos enquanto crianças e adolescentes. Eu filha única,  irmanei-me à prima Heloisa, sempre presente em nossa casa, e nós na dos seus pais, meus tios. O Barroco na arquitetura, dominando fora e dentro da bela matriz de Santana, do meu “Pátio da Matriz”. Com  pesados sinos anunciadores das horas, das  missas, das chamadas dos fiéis para as novenas do mês de  maio, o  Vigário de roquete, o sacristão intervindo  nos conflitos paroquiais como as beatas correligionárias de uma Dona Francisca do Monte, do romance PEDRA BONITA, do grande escritor  José Lins do Rego, meu pai seu leitor, ambos meninos de engenho, nascidos em 1901. Conheci Zé Lins do Rêgo, no Rio de Janeiro, final da década de 1950, com sua mulher Naná, a filha Cristina, de quem fiquei amiga, em jantar no apartamento de Álvaro Lins, grande crítico literário, Chefe da Casa Civil do governo de Juscelino Kubitschek. Álvaro Lins, também da A B L, amigo fraternal de Mauro Mota,  o indicou  à cadeira de  nº 26  da Academia Brasileira de Letras.

Em Bom Jardim o barbeiro Olímpio Guerra subia ao Pátio para “cortar  cabelo, barba e bigode” dos fregueses que não frequentavam a Barbearia. Da calçada de Dona Expedita, um gaito grita debochado: “Pra fazer gosto a macho, só encontro o barbeiro, passa o pente, alisa a  cara, ainda lhe bota cheiro”. Olímpio, usava em nós meninas e senhoras, sempre o mesmo corte:  “demi-Garçonne,” que eu detestava.  Heloisa  não cortava suas tranças.

Neste mês Mariano, uma das noites, foi  patrocinada  com muito Zelo e devoção pelos meus avós do Engenho Independência. Os encarregados da noite seguinte, pessoas humildes, pediram para eles deixarem os enfeites.  Solicitação gentilmente concedida. Um dos parentes,  não concordando, sorrateiramente retirou todos os enfeites. Quando vovó soube do incidente, ficou em coma profundo, por três dias. Numa madrugada fomos surpreendidos, com alegria. Vovó acordara, queria a família ao redor da sua cama, falando com todos perguntando pelos ausentes, como uma despedida, morreria logo depois no dia 29 de maio, de 1936. Muito gorda, como as senhoras de engenho do seu tempo, velha aos 56 anos. Até então, nos meus 10 anos guardei o canto suave da sua voz, no aconchego do seu colo ao balanço da  velha  cadeira de jacarandá, que me foi dada tempos depois. Nela balancei a minha filha cujo nome lhe foi dado pelo pai, Mauro Mota. Teresa Alexandrina Maura da Motta e Albuquerque, em homenagem à avó e bisavó de ambos.

Daqui expresso minha tristeza pelo falecimento da amiga e companheira Maria Thereza Neto, Ex-Presidente da Academia de Artes e Letras de Pernambuco.

Ao poeta Moisés da Paixão, em agradecimento ao seu belo livro “O Gênesis em poesia”, também como  eficaz presidente atual da Academia de Artes e Letras de Pernambuco.

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Crônica publicada no Diário de Pernambuco, coluna Opinião, em maio de 2019.

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