O voo da trapezista* | Amilcar Bettega Barbosa

O trem gemia suas engrenagens como se fossem sons de um esqueleto cansado. No vagão, os poucos passageiros sacolejavam ao ritmo da máquina, enfastiados por tantas e tão longas horas de viagem. Os bancos duros de madeira traziam nomes, datas e desenhos inscritos a canivete. A menina corria o indicador sobre o sulco de uma casa entalhada no banco em frente e dirigia-se à boneca pousada na perna. E o fazia como uma professorinha a ensinar que aquilo era uma casa e que lá dentro morava uma família.

Ao lado, sentava uma mulher excessivamente magra e triste. Mas seu rosto, apesar das faces cavadas, ainda guardava um quase nada de harmonia, próprio das coisas que já foram bonitas. A tristeza vinha era dos olhos. A intervalos curtos, ela consultava o relógio e mirava a solidão da paisagem à janela.

A garota dormiu, os braços ao longo do corpo e a coluna pregada ao espaldar: sua roupa de domingo ainda mantinha os vincos do ferro à brasa e um resquício da colônia de jasmim borrifada no colarinho rendado. A mulher recostou a cabeça da criança no seu braço. Começaram a surgir casas à beira dos trilhos.

Fez-se um barulho de coisa se desmanchando e o trem parou com um guincho comprido diante da plataforma. Apenas as duas desembarcaram na estação quase abandonada. A mulher segurou com força a mão da menina e sentiu, com gosto, que os tendões ainda tinham certa firmeza. Sentaram num banco, de frente para outro onde um velho ressonava com o jornal no colo. A mulher abriu a sacola e verificou o dinheiro no bolso interno. Dirigiram-se ao café. Sobre a mesa sem toalha foram servidos um pastel e um refrigerante. A garota comeu em silêncio, sob o olhar esvaziado da mulher.

Saíram da estação para a luz branca da rua, sob um sol a prumo que queimava sobre a cidade recolhida às casas. Cruzaram a praça central em direção ao sobrado erguido em frente ao busto do primeiro prefeito. No portão de ferro, a placa em bronze confirmou o nome. A mulher passou o lenço na testa suada e secou também o rosto da menina.

O acesso em pedra de grés entre os ramos das folhagens, uma fonte de chafariz, alguns degraus e a campainha com barulho de sino.

Quem atendeu foi uma jovem senhora que cheirava a lavanda. Através da porta entreaberta a menina viu a mobília bem arrumada, os quadros na parede, tapetes de lã felpuda e uma janela de vidros coloridos ao fundo. Achou que o cheiro era da casa e não da mulher.

– A essa hora o meu marido está no consultório. – Ela desceu os olhos para a garota e voltou à mulher: – Se o caso é urgente, vá até lá.

Foram.

O doutor visitava um paciente, assegurou a enfermeira, mas poderia atendê-las na volta. Apontou o queixo na direção da sala de espera e acrescentou:

– Não sem antes atender toda essa gente.

A mulher sentou no banco junto à parede e colocou a menina no colo. A garota repetiu o gesto com a boneca. As pessoas olharam para as duas e logo voltaram à passividade da espera. O silêncio era como o do picadeiro imóvel, da arquibancada em expectativa diante do balanço vazio do trapézio. Parecia que a qualquer momento romperia a banda com um estalar de pratos e acordes de trompete a dissipar a tensão.

A saleta foi esvaziando devagar. Eram mais de cinco horas quando a enfermeira mandou que elas entrassem. O consultório já fechara.

O doutor as recebeu com um sorriso mecânico e indicou-lhes as cadeiras enquanto fazia anotações na ficha do paciente que acabara de sair.

– Muito bem. – Ele largou a caneta sobre o bloco de receituário. – Qual é o problema?

Calada desde a porta, a mulher só olhava o chão. Ele repetiu a pergunta, debruçando-se um pouco sobre a mesa. Com esforço, ela respondeu:

– É ela. – E acenou com a cabeça para o lado, onde a garota sentara.

A menina não desgrudava os olhos do médico, da sua fronte alta e brilhosa, os ombros largos, a mão, aquela enorme mão com anel no dedo.

– O que ela está sentindo?

– É muito sozinha. – A mulher falava baixo.

– Tem dificuldade para se relacionar? – Quanto mais baixa era a voz dela, mais alta ficava a dele.

– Não. É muito simpática.

– Então o que incomoda?

– Tem dez anos.

A menina levantara e caminhava pela sala, observando a mesa de exame, a balança, o armário de vidro.

– Ela é esperta – prosseguiu a mulher. Já sabe bastante coisa. Pode até ajudar na casa.

O doutor mexeu-se na poltrona, a testa franzida.

A mulher desentravou: não achava justo a criança sair errando por aí se havia a possibilidade de uma vida menos dura, uma casa, uma cama quente, não queria nada para si, por favor o doutor não confundisse; era difícil ficar lembrando aquelas coisas mas não tinha outra maneira; e falar assim, nessa situação, dava dor no peito, sim senhor, uma vontade de não existir até. Disse muito mais. E ao fim, uma grande bolha de ar encheu-lhe a garganta.

O médico olhava para a mulher, para a menina, mas não encontrava os olhos de nenhuma. Viu apenas a criança correr ao canto da sala e dependurar-se no cabide de ferro pregado à parede, e levantar as pernas em posição perpendicular ao corpo, e rir, e gritar:

– Mãe, olha! La Mujer Alada!

 

Diante da plasticidadde da cena, o doutor percebeu com exatidão o momento em que todos os relógios do mundo pararam. Como se o coração estacasse a meio batimento, a respiração presa em pulmões de pedra, as pálpebras imóveis. Tudo paralisou-se em torno daquela figura suspensa: os braços estendidos, as pernas em posição perpendicular ao tronco. Havia, porém, as palavras. E as palavras vieram, foram, dançaram e pairaram solenes no ar. Como uma trapezista. Como La Mujer Alada. E de longe, lentamente, veio crescendo a música, transbordando aos poucos a taça da memória; e era uma música de circo, o rufar do tarol, o silêncio reverencioso da plateia rasgado pelo som do corpo cruzando o ar, pra lá e pra cá. Havia, sim, um jovem na primeira fila, as mãos suadas pelo perigo dos movimentos lá no alto, pela graça da trapezista, e pela proximidade da sua hora de macho.

 

Agarrada ao cabide, a menina continua rindo. O doutor vira-se para a mulher, ela agora o encara. Ele então recebe inteiro o peso do tempo e sente que envelhece de repente. Tem cansaço e até um certo asco. Ele levanta da cadeira e caminha até a criança. Afaga-lhe a cabeça, abre a boca na intenção de dizer qualquer coisa, mas fica emudecido.

A mulher também se ergue:

– O trem parte às seis e meia. Tenho dez minutos para chegar à estação. – Dirige-se à porta e, com a mão no trinco, torna a falar: – Meu nome é Rosália.

– Eu sei – responde o médico, sem a olhar.

Às seis e meia a mulher sobe no vagão que logo começa a se movimentar. Ainda lança sobre as poucas casas da cidade um último olhar. Está sozinha.

 

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* O voo da trapezista. In O voo da trapezista: contos. Amilcar Bettega Barbosa. 2ª ed. Porto Alegre: WS Editor, 1999, p. 49-53.