Metafísica do poema | Alcides Buss*

07/06/2019

 

Escrevo poemas
porque a vida me ordena a escrevê-los.

Mais fácil seria
deixá-los à deriva
em meio às coisas não escritas.

São tantas que ninguém
se daria por faltarem ou por ali estarem,
pedrinhas na pedreira que é viver.

Mal tenho tempo, no entanto,
e eis-me aflito, debruçado
no garimpo impiedoso.

Ao fim de horas – de dias, muitas vezes – ,
um punhado de grãos
desafia a luz que os expõe.
É a vida vertendo de si mesma.

Se não me entrego
ao seu pulsar, a morte me trava
no andar do que respira.

De que serve esse brilho assim fugaz?
Bobagem – sugere a intrometida brisa.
De nada serve
– mas é preciso não servir.
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