Textos* de Susana Mello**

16/02/19

 

Viajar.

Pisar em chão virgem –

Com sapatos confortáveis,

Pisadas que se somam ao que ali já estava.

 

Conhecer.

Sentar, de novo, numa sala de aula.

Por muitos já usada, já usufruída.

Ouvir o que não sabia,

E o que se soma ao que ali já estava.

 

Escrever.

Enfrentar a mão presa,

O coração inibido,

As ideias por vir.

Palavras por muitos já usadas,

Mas que estão ali, soltas no tabuleiro,

Suplicando novas inspirações.

 

Deixar sair o que não sabia

O que não ousava

O chão ainda não pisado.

 

E com sapatos confortáveis.

De preferência.

 

16/03/19

 

Não precisava sair de Lisboa para conhecer o mundo.

Não precisava pisar outro chão, ver outra gente, beber de outra água.

Era ali que ela vivia. Era aquele o seu mundo.

E de uma forma ingênua, talvez desavisada, sentia que aquilo era tudo, aquilo bastava.

Bastava Bernardo, a quem assistia passar todos os dias, às cinco da tarde, meio escondida

no canto da janela entreaberta.

Bastava Dona Sophia, a quem devia todo o seu contido afeto por ter sido por ela afastada de

um destino por demais precário.

Bastava o pequeno Fernando, o filho magrinho da gorda vizinha, com suas brincadeiras, sua

alegria de criança e seus protestos contra os banhos diários, para ele completamente

desnecessários.

Aquilo bastava. Aquilo era o suficiente para fazê-la acordar, viver, sonhar e dormir novamente.

Não precisava sair de Lisboa.

Lisboa já era muito. Já era um mundo.

 

06/04/19

 

Se enche de coragem e pega o telefone. Ligo ou não ligo?

E se a resposta não for boa? E se não tiver conseguido…?

 

Ao mesmo tempo em que pensa: mas é muita ousadia essa minha…

Eles, os de lá, estudam e convivem com esses que eu ‘só leio’…

Para mim autores, para eles professores…, amigos quem sabe.

 

Eles, os de lá, com aquele sotaque de televisão,

aquela autoconfiança de quem nunca vai ter problema de coluna

por ter aprendido a se curvar sem sentir.

Ela, de cá, tão cheia de cuidados e boas maneiras.

De ‘com licenças’ e ‘desculpem-me’ tão pra além do necessário.

Como assim querer ouvir seu nome numa lista de aprovados?

 

Ligo agora?

Melhor esperar.

Mas esperar o que?

Pelo prazo que eles deram o resultado já saiu.

 

Liga, enfim.

Com seu sotaque, suas dúvidas, sua desconfiança pulsante.

Alguém apressado, com seus ‘esses’ espichados

e frases de pronúncia mais demoradas do que precisaria, responde:

Sim, passou.

Em quarto lugar.

 

‘Décimo quarto?’, ela pergunta,

certa de que nesta classificação não teria a bolsa de estudos que garantiria

o sustento apertado naquela ousada empreitada de estudar no Rio de Janeiro.

 

‘Quarto’, responde a voz impaciente com ares de final da tarde de sexta feira.

 

E a Macabeia que até ali lhe habiatara CRESCE. Ganha corpo e forma.

‘Eu vou’.

 

04/05/19

 

ERA ELA CONTRA ELE. O PAPEL.

O BRANCO DESCANSADO, SEM PRESSA, ALI DESDE SEMPRE.

 

ERA ELA COM ELE. O PAPEL.

A TELA QUE SE EMPRESTAVA ÀS TINTAS,

O CHÃO QUE SE OFERTAVA AOS PASSOS POR ANDAR.

 

ERA ELA APESAR DELE. O PAPEL.

UM CONVITE, UM CHAMADO,

COMO UM AMANTE QUE EXAUSTO, MAS SEDENTO, DIZ ‘VENHA’.

 

ERA ELA E ERA ELE. O PAPEL.

ERAM ELES ALI SE OLHANDO E SE PENSANDO E SE PERDENDO.

INDO E VOLTANDO. FUGINDO E ENCONTRANDO.

UM ENCONTRO ESPERADO, UMA MISTURA DE CORPOS, UMA FUSÃO PROMETIDA.

 

ERAM ELES MISTURADOS.

ELA TÃO GRÁVIDA DE IMAGENS, DE PALAVRAS E SONS E CORES E LUGARES E

PESSOAS E ACONTECIMENTOS E DETALHES…

ELE ALI PRESENTE. PRONTO PARA RECEBER. DISPONÍVEL. CURIOSO. ANSIOSO.

 

EIS QUE NASCE.

NASCE UM TEXTO.

 

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* Textos apresentados nos quatro Encontros dos Estudos em Escrita Criativa 2019, Unicap.

** Susana Mello participou dos EECs 2019, na Unicap. Contato: susanaclmello@gmail.com