Pigmaleão* | Arthur Telló**

 a Amilcar Bettega

 

1 – Uma jovem de cabelos castanhos salta uma poça na rua. Por um segundo, a saia sobe mais do que devia e a coxa torneada anima meus olhos prometendo prazeres indiscretos. O sol vermelho e brilhoso estende suas mãos nas paredes enegrecidas dos prédios antigos. São quatro da tarde e os dedos gordurosos dos raios de sol tocam o rosto da jovem. Ela detém o passo e sorri para um senhor de idade atravessando a rua. Ela não sorri para mim, mas, ao tocar seu rosto, a luz do sol me revela seus olhos verdes, musguentos.

Morena de cabelos castanho-claros, a jovem vive em meio a uma cidade determinada por buzinas, sujeira rançosa, baratas e um desejo de urgência que meus olhos pedem e ela não sabe. Os cabelos cacheados emolduram seu rosto, caem dos seus ombros e, quando molhadas, as madeixas devem ultrapassar os seios para depois lentamente se enroscarem. Ao passar pelos mamilos (rosados? Pequenos?), o contato frio dos cachos arrepia a pele. Eu vejo a jovem, mas ela não vê o rapaz sentado nem a mesa de rua da cafeteria, nem meu rosto sobre a xícara de café. Ela não vê o desejo que brilha nos meus olhos.

Ela sorri para o sol.

Eu sorrio de volta.

Entre nós um ônibus para, ela desaparece e então eu a vejo através da janela.

 

2 – Uma palavra depois da outra: o puro movimento. O lápis na mão, Miguel escreve na caderneta. As palavras iluminam os cabelos cacheados da jovem, eles emolduram seu rosto e caem dos seus ombros. Uma frase depois da outra e Miguel poderá estar junto dela, seus dedos a sentir a maciez da pele morena.

3 – Uma palavra depois da outra: o puro movimento. Uma jovem de cabelos castanhos salta uma poça na rua. Por um segundo, a saia sobe mais do que devia e a coxa torneada provoca meus olhos prometendo prazeres indevidos. O lápis na mão, eu escrevo na caderneta. Sozinha, a palavra não faz nada. Eu disponho palavras no papel. Com força e gravidade, uma palavra chama a outra, elas se provocam e se ligam, criando imagens novas. O sol vermelho e brilhoso estende suas mãos nas paredes enegrecidas dos prédios antigos. Os dedos gordurosos dos raios de sol tocam o rosto da jovem, que sorri para um senhor de idade atravessando a rua. Ela não sorri para mim, mas o toque do sol no seu rosto me revela seus olhos verdes, musguentos. A garota existe em meio a uma cidade determinada por buzinas, sujeira rançosa, baratas e um desejo de urgência que meus olhos pedem e ela não sabe. A partir do movimento da escrita, a coisa vai acontecendo. As palavras iluminam os cabelos cacheados da jovem, eles emolduram seu rosto e caem dos seus ombros. Molhadas, as madeixas ultrapassariam os seios e lentamente se enroscariam. Ao passar pelos mamilos rosados, o contato frio dos cabelos arrepiaria a pele. Eu vejo a jovem, mas ela não vê o rapaz sentado nem a mesa de rua da cafeteria, nem meu rosto sobre a xícara de café e a caderneta. Ela não vê o desejo que brilha nos meus olhos. Uma frase depois da outra e poderemos estar juntos, meus dedos a sentir a maciez da sua pele morena.

Ela sorri para o sol.

Eu sorrio de volta.

Um ônibus para entre nós, ela some e então eu vejo seu rosto através da janela.

 

4 – Dora tem muitas manias. A mania de andar de bicicleta sem capacete, de gostar de milk-shake de pistache e de começar o dia preenchendo a sessão de palavras-cruzadas do jornal. Depois, embora afirme não acreditar e ironize os amigos que se guiam pelos astros, Dora lê o horóscopo de Gêmeos: Evite se envolver com pessoas que só querem se aproveitar de você e da sua inocência. Nada é mais importante que se amar. Em dez minutos, ela vai sair de casa para ir à faculdade de psicologia e se esquecer desses conselhos. No meio da tarde, andando de bicicleta na orla do Guaíba, enquanto recebe uma carícia dos últimos raios de sol e admira as cores roxas e alaranjadas do crepúsculo, os reflexos metálicos das luzes no rio vão distrair Dora, a bicicleta vai chocar-se contra uma pedra, e Dora vai cair no chão e machucar o joelho direito. Quem a ajudará a erguer-se será Miguel, jovem com ambições literárias, que sempre corre nesse horário.

“Oi”, ele vai dizer, ajudando Dora a se levantar. Os dedos dele têm calos e por eles perpassa um arrepio eletrizante ao sentirem a maciez da pele da jovem.

 

5 – Miguel escreve. Ele está apaixonado. Dora é uma jovem alta, arrojada e fogosa. É muito bonita comparada às outras. Os livros nas estantes do escritório são uma pesada mão sobre Miguel e a poeira dos móveis sufoca suas narinas. Mas isso não é nada se comparado à maneira como Dora sufoca o desespero dele.

De pés ligeiros, Dora irrompe a cada instante. Ela salta e os cabelos se agitam como o das Bacantes. É bela de se ver. O toque na pele dela evoca o trabalho, a loucura, a mentira, a doença. A paixão. Jamais a esperança. Dora tem seus próprios planos, suas próprias ideias. Até quando ela estará com Miguel? Beneditino, na solidão do escritório, ele dispõe palavras e cria imagens. As mãos pequenas de Dora, embora macias, destoam do resto do corpo. As maçãs do rosto são salientes e diminuem seus olhos quando ela sorri. Por mais que Miguel a veja, Dora sempre lhe escapa.

 

7 – Não nos víamos há uma semana. Dora se aproximou de mim, a fenda do vestido se abriu e mais uma vez revelou as pernas de coxas firmes. O tornozelo fino era um detalhe tocante sobre o qual se erguia a mulher alta, de 1,73m, de olhos penetrantes como duas agulhas e sobrancelhas castanhas, grossas e bem desenhadas.

“Oi”, ela disse, me encarando.

Seus olhos me deixavam nervoso. Sempre fico nervoso com a promessa de intimidade. Falei besteiras sobre o tempo, o céu azul de poucas nuvens, o frio gostoso que nos obriga a vestir casacos. Evitei falar do sol que iluminava seu rosto e deixava seu sorriso mais branco. Quando gaguejei em meio a uma frase, Dora riu e a mão dela tocou meu ombro. Os dedos transmitiram arrepios por toda minha espinha. Se ela pedisse, naquele momento eu mataria meus pais e incendiaria minha casa.

“Oi?”, ela brincou e seu sorriso de dentes alinhados novamente me oprimiu.

As palavras morreram na minha boca e o calor me subiu o rosto.

Dora abriu os lábios e da sua língua vermelha pendiam fios espessos de saliva. Por que eu estava tão vermelho?, ela perguntou. Eu não aguentei mais: peguei Dora pelo braço e, enquanto a beijava (beijos em que minha cabeça tentava descer pela garganta dela para meu corpo habitá-la desde dentro), o casaco dela se abriu revelando os mamilos pequenos (ela não usava sutiã!, eu pensei, animado). Nossas roupas no chão, as unhas dela grudaram nas minhas costas. Eu urrei e senti o sangue quente escorrer. Com o toque do ar, o sangue esfriou e meus pelos eriçaram. Quando eu me ajoelhei para lamber o sexo molhado e palpitante de Dora, o clitóris desprendeu-se na minha língua e rolou pelo chão fazendo o barulho suave de um tecido que cai. Os grandes lábios derreteram e da cavidade vaginal surgiram pregas feito um ânus. O ânus se contraiu para mim antes de transformar-se em um X negro na pele uniforme, macia e lisa, sem rastro de orifícios. No meu espanto, olhei para Dora, gotículas de suor brilhavam em sua testa. Ela sorria esperando minha língua surpreendê-la.

 

8 – Miguel acordou às duas da manhã com uma discreta ereção. Olhou para Dora, a franja sobre os olhos fechados, achou-a bonita e um pouco infantil dormindo com a boca levemente aberta. Através das persianas, a luz penetrava o quarto do casal, riscando o rosto e o corpo de Dora com listras azuis. Em dois meses o cabelo comprido de Dora se reduzirá a um corte Joãozinho, e o ombro que agora está descoberto exibirá a tatuagem de uma rosa encarnada. Miguel ainda não sabe disso. Não sabe que em dois meses ele será apenas parte do passado de Dora. Uma parte incômoda, que ela deixou para trás.

O corpo de Dora está quente e o hálito dela transmite a Miguel a estranha sensação de acolhimento. Miguel nota a ereção, se aconchega à namorada e começa a massagear os ombros dela impondo uma leve pressão com os dedos. Quando ela se mexe e estica o pescoço, Miguel passa os lábios em torno a ele, a pele sedosa convida a mordida, mas a mão se antecipa e desce em direção às coxas dela. Ela nunca usou calcinha e Miguel volta com a mão para acariciar a nuca de Dora. Ela resmunga, o rosto se contrai. Ela se afasta. Ele insiste: abre a boca, inspira o cheiro de erva-doce dos cabelos e com a ponta do nariz dá fungadas no pescoço dela. Excitado, ele abocanha o lóbulo da orelha. Dora toca o rosto de Miguel enquanto ele chupa o lóbulo quente e, quando ela parece prestes a abrir os olhos, ele já se adianta e desce com a boca em direção ao pescoço. Os dedos chegam ao sexo, descobrem o clitóris, começam a massageá-lo. As coxas dela apertam a mão dele, impossibilitando o toque. Dora ainda está de olhos fechados, ela volta aos poucos do sonho como se saísse de uma angustiante manhã nebulosa que deixa todas as luzes líquidas e difusas. Dora abre os olhos e se depara com um volume escuro de cabelos desalinhados, uma coisa ofegante que lhe dá asco e a assusta. Ela não pensa em Miguel, mas quando ouve a voz dele pedindo calma, Dora começa a chorar.

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* Conto apresentado no IV Encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2019, Unicap.

** Arthur Telló é mestre em Escrita Criativa pela PUCRS, onde hoje faz doutorado na mesma área. Atualmente atua como professor de Latim, Grego, Literatura e Escrita Criativa na Escola de Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (2016). Em 2016, ganhou o prêmio Açorianos de Criação Literária Narrativa Longa com o romance “O Tríptico de Elisa”. Contato: arthurtello@gmail.com