Estudos em Escrita Criativa – Maio, 2019

Os Estudos em Escrita Criativa 2019 na Unicap estão chegando ao fim. Tivemos em maio a alegria de viajar para o Leste Europeu com Milan Kundera (República Tcheca), Wislawa Szymborska (Polônia), e os nossos Geórgia Alves (PE – Brasil) e Arthur Telló (RS – Brasil).

O próximo e último encontro dos EECs 2019 será em 01/06. E viajaremos para mais longe: a Ásia. E Haruki Murakami, Sei Shônagon (os dois do Japão, o primeiro do século XX, a segunda do século X). Bernadete Bruto (PE – Brasil) e Amilcar Bettega (RS – Brasil).

Que venham então os textos maravilhosos produzidos durante o nosso encontro e confiram ainda na postagem de maio, 2019 textos de Arthur Telló, Geórgia Alves, Osmar Barbalho e Susana Mello!

Abraços cheios de sonhos,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

www.patriciatenorio.com.br

 

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Senhora da história

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

Observava ao longe, à parte, as tomadas da filmagem. Lá estava ela! Olhos verde-musgo se destacando na noite. Já tivera cabelos castanhos, hoje de um louro-blonde, perfeita combinação com suas feições, a iluminar ainda mais o belo rosto. Em cena, saltara uma poça para quase em seguida passar pelo fatídico bueiro.

Ao longe, percebia o quão distante estávamos! Talvez a ficção encenada, todo aquele aparato para a filmagem nos separando, cintilasse como um aviso. Não seriam aqueles ínfimos passos que me fariam chegar até ela… Logo, sua saia despetalada por entre suas mãos saltaria dos joelhos, abrindo-se como um imenso guarda-sol quebrado, expondo nossos mais secretos e íntimos sentimentos.

Naquele exato momento, muito além dos flashes espocando na minha dianteira, onde encenava-se todo nosso destino cinematograficamente, tive esse breve instante de lucidez,  algo que de vez em quando nos assola, nos desencanta antes mesmo da ocorrência, chega na frente, como o frio na espinha.

Ao ler aquele trecho, instantaneamente reportou-se a uma cena. Reconheceu o dilema pungente daquele que escreveu a história, daquela que a fracionou, quadro a quadro e pude sentir bem perto, a latente aflição das perdas, das calças, das saias, até mesmo de um espectador tão distante no tempo e espaço. E no exato momento que Marilyn pousava para fotos de todas as capas de revistas do mundo, Geórgia enquadrava sentimentos, Arthur divagava expectativas e eu, em tempo,  assenhoreava-me desta história.

 

Camilla Vileicar

Contato: camilla.vileicar@gmail.com

 

– Reparo no silêncio de ausência das vozes humanas dentro da sala. Pode-se ouvir o ar-condicionado e o som de canetas e lápis a encontrar com os papéis. Ruídos de remanchados nas cadeiras, rostos franzidos e olhares vidrados no papel. Os alunos escritores debatem-se consigo mesmos para escrever em 15 min a tarefa lançada com intuito de desbloqueio criativo. Dedos coçam as cabeças. Mais silêncio. De repente uma virada de página impetuosa ecoa, alguém pegou no tranco. E mais outra e depois outra. Seguem a desbloquear  a criatividade. Eu, como mera observadora, observo que passaram os 15 min e me animo para ouvir o que a criatividade dos colegas criara. –

 

De Aroma e Musgo

Elba Lins

Contato: elbalins@gmail.com

 

Não sei como surgistes na minha vida. Eu tinha apenas quinze minutos, estava só e pensava no longo tempo que te esperava.

Novamente na minha cabeça surgiu tua imagem, que um dia desenhei no papel, lembrando aquele café forte, aquele aroma marcante, que agora chegava até mim, quem sabe vindo do fundo da sala.

Outra vez eu podia te conjurar e já te via chegando de mansinho, enquanto eu me preparava para dançar para ti as danças árabes do meu passado.

Estavas junto a mim e meus olhos cor de musgo verde te fizeram afundar, te prenderam por fim. E tu, Golan, te transformaste em homem.

E meu lápis te pôs no papel.

 

Eu preciso escrever

Helena Bruto

Contato: helenabruto@gmail.com

 

Gostaria de escrever, mas agora não posso. O meio de uma festa não é o lugar ideal para isso, apesar de ser uma rica fonte de inspiração. Ah, se eu tivesse trazido o meu bloquinho, mas nessas bolsas de festa mal cabe um alfinete. Quando chegar em casa vou escrever.

Estou dirigindo quando me bate uma grande ideia. Não posso perder esse momento! No entanto, também agora não tenho como escrever. Quem sabe não gravo um áudio? Ah, não posso. Algum guarda poderia me multar. Vou mentalizar bem direitinho tudo o que pensei, pois tão logo eu chegue em casa vou direto escrever.

Em plena reunião eis que me bate uma nova história. Até consigo ver os personagens se materializando ao meu redor. Em compasso, também vem o desespero: quero, preciso, devo escrever! Será que os outros não notariam que as minhas anotações não têm conexão alguma com o trabalho? Melhor não arriscar, preciso de um trabalho para poder continuar a escrever.

Cheguei em casa. Ah, que felicidade! Finalmente vou poder escrever. Só é uma pena que agora me sinto tão cansada… O dia foi longo e careço de um bom descanso. Minhas pernas doem, minha cabeça pesa e os papeis estão na bagunça de sempre. Não tem problema, enquanto pego no sono juro a mim mesma que amanhã eu vou sim escrever.

 

 

A Vida Surpreende

– 15 Minutos –

João Alderney

Contato: joaoalderney@hotmail.com

 

O ser humano sabe o que quer.

Há muitos caminhos, na vida, pra seguir.

O que se quer é escolher o melhor entre eles.

Mas, qual será?

A vida é dinâmica, uma sucessão de coisas, de acontecimentos.

O que é bom hoje, pode não ser tão bom amanhã. Surgem alternativas, inesperadas, melhores, mais convenientes, mais avançadas. Há tantas oportunidades, qual caminho devo seguir? Por onde devo ir?

A emoção e a razão chocam-se, às vezes.

Ao seguir a razão, em prejuízo da emoção, quando dá certo, tudo bem, porém, se dá errado, perde-se duas vezes.

Ah, se eu adivinhasse. Ora, ninguém adivinha. Isso é impossível, fora de cogitação. Digo de outro modo: Ah, se eu tivesse posto os pés sobre o birô em vez de pôr as mãos, os braços, a cabeça, numa busca incessante, num trabalho ininterrupto.

Com os pés sobre o birô produz-se infinitamente mais do que o contrário, isto é, do que mantê-los sempre no chão.

Ao longo da minha vida pus os pés uma única vez sobre o birô. Nessa única, vez produzi mais do que tudo que produzi, além, somado.

Nem assim aprendi a pôr os pés sobre o birô. Já ouvi de um parceiro empresarial: O homem tem dificuldade para mudar os hábitos. Bota dificuldade, nisso. Pôr os pés sobre o birô foi a coisa mais difícil, entre tantas coisas difíceis que encontrei, pelas veredas da vida!

 

Bar de Hotel

Maria Eduarda Fernandes

Contato: mefernandesdemelo@gmail.com

 

A vi pela primeira e única vez no bar do hotel. Sempre que penso em bares de hotel, penso em locais glamourosos com garçons de gravata borboleta e mulheres com longos vestidos saídos de filmes noir dos anos 1940. Mas não havia nada disso naquele hotel à beira do aeroporto, no qual eu ficaria apenas uma noite, antes de pegar o voo de volta para casa.

Eu havia passado o dia vagando pelas ruas deste país onde ninguém falava a minha língua, e agora, exausta, bebia sozinha no bar daquele hotel, o que, pensando bem, era bem mais deprimente que beber sozinha no meu quarto.

Mas a ida ao bar valeu a pena, pois a vi. Ela também estava sozinha, mas não parecia tão cansada – talvez hotéis à beira de aeroportos fossem recorrentes na vida dela.

Em dois minutos, eu criei toda a história dela, e imaginei que falasse ao menos uma de minhas línguas.

Imaginei tudo o que eu poderia fazer: pagar-lhe uma bebida, sentar-se à sua mesa e descobrir que temos milhares de coisas em comum, o que resultaria em horas de conversa antes de subirmos para o quarto, que seria o dela, porque pela manhã eu timidamente ensaiaria ir embora sem acordá-la, mas ela não deixaria, implorando que eu cancelasse a passagem e prometendo que ficaríamos naquela cama até encontrarmos um lugar para viver nossa vida juntas.

Naqueles poucos segundos que passei a olhando no bar do hotel, imaginei nossa casa à beira da praia, John Coltrane tocando ao fundo enquanto bebíamos vinho em uma noite fria de inverno, eu na manhã seguinte correndo para não me atrasar para o trabalho enquanto ela fazia o café, insistindo para que eu não saísse sem comer nada, nossa cama desarrumada nos finais de semana e ela em cima de mim, o cabelo dela uma cortina no meu rosto, me fazendo acreditar que o mundo inteiro era nosso e nós éramos o mundo inteiro.

Imaginei discussões sobre nomes de filhos e sobre cores para a parede da sala, natais e aniversários e jantares com amigos e o olhar dela procurando o meu para dizer “já chega, estou cansada, vamos embora”.

Imaginei brigas, porque nem em sonhos os relacionamentos podem ser perfeitos, mas brigas que acabavam na cama ou no chão ou na mesa da cozinha. Imaginei tudo o que se pode imaginar, e, tão perdida na vida que criei na minha cabeça, não percebi quando ela pagou a conta e foi embora.

Poderia ter ido atrás dela, mas já era tarde demais. No fim das contas, minhas ideias sempre me escapam.

 

Poema sobre Clarice Lispector

Patricia Alves

Contato: alvespat@yahoo.com.br

 

O mar de Sophia

Trouxe-nos Clarice

Clarice que nasceu para salvar a mãe…

 

Não conseguiu salvar a mãe…

Mas, com sua escrita

Ela salvou a si mesma…

E nos brindou com seus belos romances…

 

Andarilha pelo mundo…

Escolheu o Brasil como

O seu lugar para viver e morrer…

 

E com seu romance “A Hora da Estrela”

Ela nos deixou fisicamente..

Mas, ficou em nossos corações

Como uma Estrela… Viva e brilhando sempre.

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Recife, 04/05/2019

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Sala de Imprensa

Diário de Pernambuco - Opinião - 030519

 

Próximo e último encontro dos EECs 2019

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