Um conto de Osmar Barbalho*           

A pregação do Crente Corno     

Moro na Rua do Príncipe, bem perto do centro do Recife. Resolvi pegar o ônibus da linha Bomba do Hemetério. Era de manhã por volta das 8h. Como o ônibus estava cheio me vali da condição de idoso para pedir ao motorista para entrar pela porta traseira. O motorista gentilmente abriu a porta do meio e eu subi ouvindo o fim de uma frase “eu estou a serviço de Jesus, eu sou um soldado do Senhor!”. É muito comum a gente vê uma pregação de um Crente  dentro do ônibus. Me sentei e absorto com os meus pensamentos ouvi: “…Ela me traiu!”. Saí imediatamente dos meus pensamentos e passei a prestar atenção no homem pregador. Ele era baixo, branco, devia ter uns 50 anos, estava de paletó, mas sem gravata. Segurava em uma das mãos um elemento que caracteriza um pregador: uma Bíblia. A medida que ele pregava ele andava pelo corredor do ônibus tentando e forçando a atenção das pessoas. Falava alto e usava os braços e as mãos com a Bíblia para enfatizar o que dizia. Quando ouvi ele dizer : “…Ela me traiu!” não entendi aonde ele queria chegar com esta afirmação. Será que ele estava confessando que era um Corno? Ser Corno no Recife é uma cultura. Os amigos tiram onda uns com os outros se chamando ou chamando o outro de Corno. É muito comum isso. E no Recife em vários bairros tem bares que tem o nome de “Bar dos Cornos”. No Mercado da Madalena tem um desses Bares que na entrada tem um sino com uma placa que diz “Se você é Corno, toque o sino para todos saberem que chegou mais um Corno”. Mas tudo isso é brincadeira, é greia como a gente costuma chamar a nossa irreverência. Mas assumir de público ser Corno é um ato de coragem. Não resta dúvida. O pregador continuava sua fala sem intervalos. Comecei a entender que a pregação dele era sexista. Ele estava ferido. Sim, ele afirmava que tinha sido traído pela companheira. Ele afirmava que ela havia caído nas tentações mundanas. Ele afirmava que ela não tinha Jesus no seu coração. Nos intervalos dessas afirmações ele dizia : “…Ela me traiu!”. Comecei a prestar atenção aos passageiros. Tinha sete mulheres e comigo três homens. Foi aí que entendi que a pregação era para aquelas sete mulheres. Ele pregava que a mulher tem que ser subordinada ao homem. E essa seria a explicação da traição. A companheira dele não ficou subordinada a ele. De repente ele repetiu veementemente três vezes : “…Ela me traiu!”, “…Ela me traiu!”, “…Ela me traiu!”. Em seguida fez a pergunta “Como é que eu me sinto?”. Rapidamente pensei ele deve se sentir Corno, claro. Ele devia estar se sentindo como aqueles Cornos descritos nas inúmeras músicas bregas. Será que antes da companheira, ele nunca tinha tomado um chifre? Muitos dizem que todo Corno é dramático. Olhei para os passageiros e todos olhavam pra baixo ou para os lados com vontade de rir. Eu mesmo queria rir, mas respeitando o pobre do Corno me contive. Na minha frente tinha uma adolescente que estava fazendo um esforço grande olhando para trás para disfarçar o riso. Uma senhora dos seus 60 anos balançava a cabeça acho que incrédula com o que ouvia, o que via. Eu não tirava o olhos dele. Eu estava encantado pela sua coragem de confessar dentro de um ônibus e para desconhecidos que era Corno. Isso era mais do que coragem. Ele como todo bom Corno estava se punindo de público pelos horrores que estava enfrentando. Comecei a pensar curioso. Que tentações mundanas levaram a companheira a traição? Como foi que ele descobriu que era Corno? Foi ela que contou? Foi alguém que contou? Um amigo? O vizinho? Será que ele foi o último a saber? Isso não importa. Na minha frente eu via um Corno com C maiúsculo de Corno. Com a dignidade das suas palavras ele se vingava de alguém que ele amou. Ele não carregava o par de chifres que de início todo bom Corno carrega. Ele demonstrava ter passado por essa fase. A medida que ele falava não se preocupava com o riso das pessoas. Ele queria só passar uma mensagem. Relatar sua experiência. Ele tinha esperanças de comover ou converter uma daquelas sete mulheres. Ele falava com sinceridade.  Na hora de descer do ônibus concluí que Ele… era um Corno conformado.

E… isso não é da conta de ninguém.

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* Osmar Barbalho participou do Curso de Extensão Estudos em Escrita Criativa 2019 na Unicap. Contato: osmarbarbalho@gmail.com