Três Contos de Viagem – Patricia Gonçalves Tenório*

A Ladeira da Misericórdia**

Novembro/2007

 

Decidi ser aquele meu último carnaval em Olinda. Enxergava o maracatu, as sombrinhas coloridas dos passistas, o Homem e a Mulher da Meia Noite. Sorvia lentamente um capeta de sirigüela – passava se arrastando apertado pelas amídalas, senti o gelado tombar no meu estômago vazio.

Sentei na calçada dos Quatro Cantos. Observava. As fantasias mais coloridas, o calor sufocando, o sol queimando minhas pupilas verdes. Um trem de pessoas entoava uma marchinha antiga. Parecia ver carnavais de outras épocas, nos chapéus com plumas da porta  bandeira, o vestido armado se encontrando com os sapatos cobertos de glíter prateado; na cabeça, peruca barroca.

Acompanhava os casais de namorados em cada pequeno gesto, um beijo na nuca suada da mocinha, abraços apertados de um vilão em frente ao muro pichado de grafite. Crianças molhando umas às outras. O sol quebrava-se em prismas de cor nos jatos de água, repousando numa cabecinha marrom.

Os cachos desciam e subiam a ladeira dos ombros, ao som de Vassourinhas encolhiam-se, expandiam-se acompanhando a minha respiração ofegante: não teria cinco anos a menina. Usava uma fantasia de papel machê, mal lhe cobria o corpo roliço, macio. As sapatilhas azuis, quase cinzas, mostravam a trilha dos muitos passos dados naquela manhã de Sábado de Zé Pereira.

Não havia mãos dadas com alguém. Me acompanhava na despedida de quem éramos, cúmplices no desejo de um mesmo personagem. Se ela Colombina, eu um Pierrot disfarçado; se eu uma Julieta velha, ela um Romeu travestido. Não nos importávamos com os olhos alheios, eu tantas vezes antes não me importara, levando crianças de igual idade ao meu atelier, dando-lhes bombons coloridos e viciados, jogando cartas até surtirem efeito, despindo-os em canções de ninar. Somente então tomava-lhes o corpo miúdo emprestado, saindo minha alma deste cansado e doente, contaminando-as em carne e espírito, esperando absolvição no próximo carnaval.

Adorava esculpir na madeira depois de enterrá-los. No jardim, as estátuas marcavam o lugar dos caixõezinhos e lhes davam apelidos: Bolinha de Gude, Pipa, Boneca de Pano, Caminhãozinho. Uma vez tive muito trabalho com dois negrinhos irmãos, chuparam mais pirulitos que o necessário, entrei em êxtase muito antes dos pares de olhos esbugalharem, das minhas mãos longas cravejarem a espátula nas costas cor de jambo.

Plantei-os debaixo do pé de jabuticaba e no verão seguinte os frutos eram mais escuros e doces, tendo eu que aproveitá-los em compotas e geléias frescas. Vendi toda a produção no Mosteiro de São Bento. Ri imaginando os monges degustarem com torradas os negrinhos que antes eu havia me deliciado.

Acariciei os caracóis da menina sozinha, perguntei-lhe o nome.

Eugênia.

Numa suavidade saíam dos lábios as sílabas, minha cabeça girava querendo voltar ao passado e desistir do futuro.

Só mais uma vez.

Puxei a pulseira de Maomé e rezava na direção de Meca pedindo socorro para a tentação. Rezava as frases lentamente, com vigor e fé, mas não pedira àquelas mãozinhas gorduchas para desenhar minhas sobrancelhas, descer por meu nariz torto, descansando sobre os meus lábios.

Havia de ser a última chance.

Subimos a Ladeira da Misericórdia. Ela cantava o Hino do Elefante com a língua enrolada da idade, mais tarde se enrolaria nela mesma, eu começava a sentir o antigo formigamento nos dedos do pé esquerdo, as pernas, tronco e braços; quando encontrassem as unhas da mão seria tarde, o sol posto, o Mar Vermelho e o Rio Nilo descendo a ladeira, nos juntando ao Capibaribe e ao Beberibe formando o Oceano Atlântico.

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Um olhar sobre Istambul***

 

A primeira vez que vi Istambul meus olhos semi-cerrados descortinavam na janela do avião uma paisagem insólita, em nada parecida com as Mil e Uma Noites, Sherazade e os Quarenta Ladrões de Ali Babá. Encontrei edifícios altos e quadrados, torres finas de mesquitas rasgando espaço entre eles até o mais alto céu, terrenos inclinados, odores e cores do Grande Bazar, onde as especiarias saltavam gotas de saliva de minhas papilas, os cinco sentidos sendo despertados involuntariamente pelos passantes e turistas.

A lua cheia nunca me pareceu tão próxima. Banhava o rio do Estreito do Bósforo, meu peito apertou lembranças de quando eu era pequena e li Malba Tahan pela primeira vez.

O Homem que Calculava.

A imagem que me faziam os turcos não se alterava ainda. Os via como grandes comerciantes, negociadores do Estreito que encurtava distâncias marítimas entre o Ocidente e o Oriente. Comecei a retirar o véu da história, relembrei Constantinopla, Alexandre, o Grande, a escrita cuneiforme. As conexões com as culturas européias me vinham então à memória, não era apenas a conexão física: os turcos serviram de canal de pensamentos e religiões, se manifestando em alto e bom som, nas mesquitas espalhadas na cidade, as palavras do Profeta:

 

Não há outro Deus que Deus

Não há outro Deus que Alá

Deus é o maior

Maomé é o seu Profeta

Venha salvar-te

Venha rezar

Deus é o maior

Não há outro Deus que Alá

 

Os cantos das preces ressoam como em eco, mas são independentes e não parecem se importar comigo. Procuro entender essa cultura tão diversa da minha. Na Turquia, apesar das mulheres não serem obrigadas a cobrir o rosto com o véu, muitas o usam por não se sentirem capazes de agir diferente da tradição. Nisso encontro um ponto de apoio, me agarro a esse ponto para tecer o véu do pensamento, deslizando da realidade para o imaginário do artista.

Entro no harém do Palácio Topkapi. Imagino-me uma das concubinas, laço um nome recém chegado aos meus ouvidos: Ivgênia. Imagino-a de uma tez cobre, olhos verdes amplos, inquisidores. Eles querem uma resposta por estar ali aos treze anos, entre outras meninas, as mais belas, doadas ou arrancadas de suas famílias. Não entendo o que vejo, ao mesmo tempo maravilhada com os lustres de cristal vermelho, os tapetes longínquos com desenhos apenas de flores e arabescos, onde a figura humana não era representada por causa da religião.

Sou dopada todos os dias para não querer fugir daquele ambiente quase hermético se não fossem as clarabóias. Antigas mulheres do sultão, eunucos e filhas me vigiam, me educam, alimentam, cobrem meu corpo com óleos e véus. Se eu for rejeitada pelo sultão, serei entregue aos guardas fora do harém para ser usada como o rejeito exige. Se engravidar de um dos eunucos, na maior das impossibilidades, morrem eu, a criança e o eunuco, pois não existem eunucos que não sejam negros aqui no palácio.

Sabemos tudo sobre o sultão, nós, as concubinas. Dormimos em qualquer parte, em camas de campanha, ou quando muito em quartos mais simples que o das quatro esposas de nosso dono e senhor.

 

Beylerbeyi Sarayi

(Palácio do Senhor dos Senhores)

 

Saio do harém, não quero mais ser Ivgênia, nem faltar-me o ar todos os dias, nem tornar-me louca aos vinte anos. Desejo aprender as palavras soltas e cantadas nas mesquitas, os prefixos que tudo dizem e significam, numa lógica contrária à minha, me desestrutura e faz começar tudo novamente, vestir-me de herege, alcançar a mais alta torre para da pequena janela do avião cerrar meus olhos e sonhar com outro tempo.

 

 

Oráculo****

 

Levaria uma hora de carro entre Belo Horizonte e Sete Lagoas. Cíntia uma vez foi de ônibus, precisava misturar-se com o suor de um dia de trabalho, o aroma das frutas e verduras nas sacolas de feira, a tontura das curvas fechadas; no volante o motorista jovem.

– Adélcio.

Perguntei várias vezes enquanto caminhávamos até o estacionamento do aeroporto. Lembrei de uma maneira de se gravar um nome.

– Quantos minutos para chegar a Sete Lagoas, seu Adélcio?

– Está muito frio estes dias, seu Adélcio?

– O senhor pode desligar o rádio, seu Adélcio?

Saímos no outro dia bem cedo para Cordisburgo. A cidade do coração.

Existe uma cidade onde nosso coração se instala? Ou seria aquela onde depositamos sonhos de criança, esperando um outro que nos reconheça?

– O senhor é aquele ator da novela das oito?

Ajeitei os óculos escuros, abri a janela do carro, fotografei as nuvens.

As nuvens.

Nuvens que me abraçam, nuvens calmas, nuvens silenciosas. Elas queimavam ontem ao pôr do sol. Hoje sussurram segredos, provocam mistérios.

– A estação de trem defronte à casa de Guimarães Rosa.

Será por isso sua busca por outras paragens? Viajar abandonando a si para ser o outro? Na pele do personagem, a minguilim Polyana recita trechos, musica palavras.

– Somente na voz de um mineiro essas palavras brilham.

(Polyana pediu um autógrafo.)

Na venda de seu Fulô, encontro cavalinhos de madeira, bacias de alumínio em que minha avó Rita juntava as mangas-rosas e distribuía com os vizinhos; fazia suco, peito de velha – um picolé dentro de um saquinho comprido.

Visitei as bordadeiras. Comprei uma colcha para mamãe, uma colcha com palavras e imagens do Grande sertão: dali por diante poderia navegar nas veredas de outro João e não me cobrar visitas constantes enquanto papai viajava.

Os cupinzeiros, barro açúcar-e-canela à luz do sol, espalhados pelos campos

Nas estalactites vejo os castelos de areia ao contrário, quando pingávamos, eu e Paola, irmãos de carne e sangue, pingávamos areia e água do mar formando torres altíssimas de onde eu a salvaria de ogros e dragões de fogo. Paola ganhou o mundo na garupa de um vendedor de pulseirinhas e a última vez que soube notícias estava no Paraguai. Não houve Bolo de Casamento, nem o Véu da Noiva, feito de carbonato de cálcio, enquanto aquela em forma de Abóbora é de magnésio de ferro.

– Estamos num leito de rio.

Edson Alixandre.

– Há quanto tempo trabalha aqui?

– Ah, faz tempo com força.

(A força daquele olhar.)

– Não tem medo de ficar preso aqui embaixo?

– Não. É só pensar que cada gruta é uma janela.

Da janela do meu quarto no hotel, dá para ver uma das lagoas que são mais de Sete Lagoas. Posso caminhá-la sem pensar em Laura e na briga que tivemos no set de filmagem.

(A falta das palavras.)

Subindo à Curvelo, deparei com a igreja de São Geraldo e me perguntei por que não falo mais com meu pai. Diante da escultura em papel do Ecce Homo que o santo fez, faço-me uma promessa diante de anjos e querubins que um dia, diante daquele mesmo altar, traria a graça de ter meu pai de novo ao meu lado.

Gosto da comida mineira. Tutu, o feijão tropeiro, lingüiça, couve, carne de porco. Para rebater, uma boa cachaça. Doce de leite e queijo branco para tirar o sal da boca, depois café para tirar o doce, água para tirar o café; depois começa tudo de novo.

Corinto é árida, de uma falta de mel para adoçar meus lábios, verde para colorir os olhos, brisa para aquietar calor. Talvez aqui Riobaldo melhor crescesse. Riobaldo com suas inquietações. No deserto quando cai chuva nasce oásis; em Minas, buritizeiro.

Corri os olhos nas planícies e as árvores me enganavam em buriti quando eram na verdade árvores de coquinhos, ou a Barriguda, ou Ipês roxos, amarelos, vermelho cru.

– É preciso entrar na arte desarmado, sem artifícios.

Então não seria eu um artista, Cíntia? Não seria eu detentor da interpretação divina da Palavra?

Em Morro da Garça finquei o pé entre lágrimas, O recado do morro e o Cruzeiro dos Martírios.

– Daqui só saio se me abençoares!

E uma senhora bem velhinha, vestido branco, carvão na pele, largou panela e fogão à lenha para se declarar.

– Fui muito feliz aqui. Um moço feito o senhor, não devia de estar chorando. Pois eu larguei tudo só para ver essa belezura mais de perto. Olhe, eu me chamo Isabel de Zuína.

Nem me deu graça nem me reconheceu. Dali saí voltando com o seu Adélcio, a noite caindo rápida com as estrelas anunciando a lua cheia.

Lua cheia. Moeda dourada que se prateia e vem cantar

Não há

            Oh, gente

            Oh, não

            Luar como este

            Do Sertão

 

Na ida a Três Marias, pedi a Adélcio para dirigir. Ele me guiando, ele me dizendo o certo e o errado e de tanto ouvir decorei seus passos, ensinei seu nome.

A chapada. Os buritis. De um instante ao outro todo o mistério se revelava e o que era depois virou presente. As flores guardei para devolver a Laura que me disse antes quem realmente eu era e ainda nem sabia.

Fotos, fotos, fotos. E não dá para captar o meu sentimento de sertão.

– Não vai dar dez minutos e o São Francisco chega.

O mar doce. Pedi em nome do Pai que Ele me batizasse novamente: não acredito que tenho as coisas que desejo, mas tenho o meu desejo nas coisas. Sorri com o frio da água na nuca, os pés descalços, a calça jeans suspendida até os joelhos. De joelhos me refiz e o homem novo levantou-se das pedras e sobre as pedras edificou o seu caminho.

E se Manuelzão não quisesse me receber em Andréquicé? Um novo João a ele perguntava, para entre a barba longa suspirar-lhe algum segredo? Quicé de André, quiçá de Maria. Quem sabe do João que sabia que ele não sabia?

Buritis

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* Patricia Gonçalves Tenório escreve prosa e poesia desde 2004. Tem 11 livros publicados e 5 no prelo. Mestre em Teoria da Literatura (UFPE, 2015) e Doutora em Escrita Criativa (PUCRS, 2018). Ministra o Curso de Extensão Estudos em Escrita Criativa na Unicap. Contatos: www.patriciatenorio.com.br e patriciatenorio@uol.com.br

** Texto publicado em Sonhos de Carnaval, 2009, Organização Cássio Cavalcanti.

*** Texto extraído de Vinte e um, Patricia (Gonçalves) Tenório, 2016, a ser relançado em novembro de 2019 em 7 por 11 pela Editora Raio de Sol.

**** Percorrendo o Circuito Guimarães Rosa – Minas Gerais. Texto extraído de Diálogos, Patricia Tenório, 2010, a ser relançado em novembro de 2019 em 7 por 11 pela Editora Raio de Sol.