Estudos em Escrita Criativa – Fevereiro, 2019

Realizamos um sonho.

Quando, em agosto de 2016, cursando como ouvinte e aluna especial o doutorado que defenderia em outubro de 2018, conversava com Bernadete Bruto e Elba Lins sobre o encantamento que sentia em relação à Escrita Criativa em ambiente acadêmico, não imaginávamos que, quase três anos depois, navegaríamos tantos mares, alcançaríamos essa praia, sentiríamos os grãos de areia dos versos e contos gestados pelos participantes durante o primeiro encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2019 na Unicap.

Passeamos por Londres e a língua inglesa, pelo universo distópico de Margaret Atwood, Aldous Huxley; sorvemos a Beleza e a Verdade de Emily Dickinson, John Keats; começamos pelo fim do conto, do poema com Edgar Allan Poe. E fomos brindados com os processos criativos desses escritores/poetas maravilhosos das cidades queridas Recife e Porto Alegre, Elba Lins e Bernardo Bueno.

Prometemos mais. Cumpriremos mais. Em março, navegaremos com nossos pais portugueses, nas cidades e nos escritores, poetas, artistas lusitanos.

E quem sabe esteja mais próximo do que imaginamos a Escrita Criativa da PUCRS na cidade do Recife…

Abraço bem grande e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Os textos:

 

A  DEUS, OS SONHOS

Bernadete Bruto

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

 

ADEUS MEU SONHO

DE SEMPRE

CRIAR UMA VIDA

A MIM ENSINADA

DE CERTA FORMA

A CENA

COMO NUMA FOTOGRAFIA

ENQUADRADA

 

ADEUS AQUELE SONHO

ANTIGO

ANCESTRAL

REPETIDO

PELA HISTÓRIA CONTADA

DE BOCA A BOCA

REPASSADA

 

ADEUS AO PASSADO

HÁ UM TEMPO

A UM SONHO INCUTIDO

AGORA SOFRIDO

ADEUS

AO QUE NÃO FAZ MAIS SENTIDO

ADEUS, SO LONG, FAREWELL

E ENTREGOU

A DEUS, OS SONHOS

 

DESCONSTRUÇÃO

ELBA LINS 

Contatoelbalins@gmail.com

 

Ela suportou tudo com bravura,

A cada dia passei a respeitá-la…

Ela não era mais, a aia, a serva, a mulher ao meu dispor.

Ela, era brava

Admirável

Queria agora ficar com ela, tê-la junto a mim…

Mais tarde lhe diria isto.

 

Eu teria que reverter a situação atual, pois

Hoje, depois de muitos meses, recebemos a notícia reveladora

A notícia que esperamos tanto:

Ela estava grávida

Enfim teria o filho meu.

Desrespeitando todas as regras, corri para lhe falar.

Parei ao pé da porta,

Imaginei que estava ao banho,

De fora, ouvia os pingos d’água que lavaram seu corpo, caindo lentamente.

Cada pingo que caía, eu escutava e sabia estar mais próxima a hora

De ver frente a frente o fruto gerado.

 

E de repente ouvi/senti

Algo escorrer por baixo da porta

Algo viscoso

Algo vermelho

Algo que trazia junto de si

O que antes fora vida,

O que antes, alimentara,

O filho meu.

 

DE TRÁS PARA A FRENTE, DE FRENTE PARA TRÁS

Helena Bruto

Contatohelenabruto@gmail.com

 

DE FRENTE PARA TRÁS

 

– Quão bom é saber que tudo valeu a pena.

– Que felicidade é se encontrar no ponto final, olhar para trás e agradecer os ensinamentos do caminho.

– Agora tenho certeza!

– Não do passo adiante, mas daquilo que percorri. O destino é mais fácil de se entender quando muito foi vivido; quando se olha para trás e se vê as formas dos próprios passos.

– Por isso, não sofro mais com o futuro…

– Agradeço ao passado, aproveito o presente, sorrio e dou um passo adiante.

 

DE TRÁS PARA A FRENTE

– O que o futuro guarda para mim?

– Tenho medo. O caminho parece escuro e não sei o que me espera. Será que vai se abrir para mim? Será que conseguirei iluminá-lo, ou irei sucumbir?

– Tenho dúvidas…

– Não sei o que se encontra na minha frente, gostaria de poder enganar o tempo para saber o meu destino e, assim, tranquilizar o presente.

– Como é difícil não saber! Como é difícil se mover!

– Na falta de certezas, encontro abrigo na coragem. Com medo estampado no rosto, dou o primeiro passo e vou com fé.

 

ANÚNCIO NO JORNAL

João Alderney

Contatojoaoalderney@hotmail.com

 

Leio anúncio no jornal, logo cedo, sobre curso de Escrita Criativa e penso que é boa oportunidade de aprender mais sobre o assunto. O simples relacionamento com pessoas com o mesmo propósito já é enriquecedor.

Faço outras coisas da rotina da vida, inclusive convidar minha filha caçula pra fazer o curso comigo. À tarde, lembro do anúncio, vou pro computador fazer a inscrição, já estava esgotado. Que pena. Envio e-mail para a líder, Patrícia, informando e desejando sucesso, ela o retorna com entusiasmo e simpatia, isso só aumentou meu interesse. Ainda deu esperança que poderiam surgir vagas, e, se fosse o caso, eu seria avisado na semana seguinte. Ah, que bom se acontecer, pensei.

Aconteceu. Recebi e-mail de Miguel, informando, disse que surgiram quatro vagas, que eu me apressasse e que a inscrição teria que ser presencial. Mesmo sendo incorrigível descansado, tentei me apressar e consegui fazer a inscrição com o simpático Miguel que me informou que eu estava preenchendo a última vaga. Ufa.

Já na primeira aula vi que o entusiasmo de Patrícia é ainda maior do que eu pensara. Ah, isso vai dar bons frutos, salve!

 

 

Maria Eduarda Fernandes

Contatomefernandesdemelo@gmail.com

 

De todas as palavras que conheço, alguma tem de haver para explicar isso que sentimos todos os dias. Para explicar como acreditamos ser normal nos perdermos pelo meio do caminho, deixando pedaços de nós no trânsito da segunda-feira, na reunião da terça, nas quatro únicas horas de sono da quarta, no bar da quinta que a gente, exausto, só foi porque precisava provar para si mesmo que aguentava um pouco de vida no meio dos dias.

Alguma coisa tem que explicar o sumiço dos nossos interesses, o leitor assíduo que só abre livros no final de semana, o amante de música que não vai para shows, o enólogo que bebe o mesmo vinho há seis meses porque só consegue passar naquela loja por cinco minutos entre uma missão diária e outra.

Alguma expressão, palavra, ditado, momento, situação, história, reflexão precisa me explicar porque eu me perco de mim toda segunda-feira e só me encontro, eu, a quem eu tanto amo, dois dias na semana, e mal tenho tempo de contar a mim mesma tudo o que mudei enquanto estivemos longe.

 

Clichê, de Osmar Barbalho

Contatoosmarbarbalho@gmail.com

 

A primeira vez que eu a vi, Ela me chamou a atenção. Ela não era bonita. Mas a sua cara era pura tesão. Ao lado do Restaurante Leite, Ela e outras fazem ponto para vender e provocar emoções a quem quisesse pagar. Ela era diferente. Seu rosto é o que o IBGE chama de pardo! Pardo…? Ela tem os olhos pretos que quando olham para um possível cliente intimida de pronto. Eu acho Ela uma princesa. Um sorriso que sempre propõe alguma coisa. Sua boca tem os lábios grossos, carnudos e sempre tem um batom vermelho VERMELHO. Seu cabelo é curto, acho que é de chapinha. Mas o que chama atenção é o seu andar. Ah, isso chama. Todos os homens olham! “Quanto custa o programa?” pergunto. Ela diz. Não entendo. Ela repete: “…o quarto é quinze rial…” e o “…dela é trinta e cinco…”. “Tem de pagar antes.” Ela diz, “…nunca lhe vi por aqui…”. A partir desse dia, desse contato, sempre eu a via. E ficava imaginando coisas…!

 

Viagem inominável

Raldianny Pereira 

Contatoraldianny.pereira@gmail.com

 

Vivo em Shangri-la. Meu amor sempre assim designou nossa terra, nosso chão, nossa morada. Recém-chegada àquele lugar tecnológico, espantei-me com a multidão captada e cooptada por uma pequena tela. Inertes. Também inertes estavam os seres dentro daquela tela. Apenas um ser agia. E agia tão espantosamente inerte que o pavor visitava e apenas uma voz saia timidamente daquela imagem de horror. Horror. O horror em mim, visitante neófita e desavisada, vinda de Shangri-la, o horror atormenta minha alma deste então, desde aquele cartão postal desta viagem inominável. O horror não sai de mim. O horror de uma morte transmitida por aquela tela. O horror provocado por aqueles que fazem daquela tela, e do horror da morte transmitida por ela, seu meio de vida. Inertes. O ser humano é um bicho muito frágil, apesar de achar-se forte. Mata-se um ser humano muito facilmente. E muito rapidamente, em pouco mais de um minuto, no máximo três. Sem fazer força alguma. Dizia a tela. Inerte. Diziam na tela. Inertes. E não me sai da cabeça a horrenda, a terrível imagem daquele pobre menino pobre cujo peito foi deliberadamente sufocado pelo peso do peito de outro ser humano, um segurança de um supermercado. Segurança de quê? Segurança de quem? Não sei dos detalhes que não justificam um assassinato. Não me interessam. Mas tenho certeza. Tratava-se de um faminto. Um faminto, faminto de justiça que sucumbiu à força da segurança e do segurança. Vivo o horror do rosto inerte do garoto morto. Jovem. Muito jovem. Quantos anos terá resistido a esta vida? Mais horrível ainda a imagem do rosto inerte do segurança assassino. Terrível. Quisera jamais ter visto esta imagem. O horror do rosto inerte dos seres que assistiram no local do crime àquela morte infame. A inércia cúmplice nos rostos que não vi, mas visualizei nos passos fardados de outros seguranças assassinos. Penso no garoto pobre. Penso na mãe do garoto pobre. Penso na pobre mãe do segurança assassino. Penso no horror dessas cidades tecnológicas que me trouxeram este horror. Penso que gostaria muito que esta fosse apenas uma história inventada. Mas eu não criaria uma história de assassinato. Muito menos a história de um garoto assassinado diante das telas asfixiado por um segurança, corpo a corpo, peito a peito, rodeado por olhos, bocas, mãos, pernas, corpos, almas inertes. E penso… vou voltar para Shangri-la. E gostaria que Shangri-la se fizesse para toda gente.

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Unicap, 16/02/2019

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Sala de imprensa

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Diário de Pernambuco, coluna Opinião, 23/01/2019

JC - 050219 - Márcia

Jornal do Commércio, 05/02/2019

Próximos encontros:

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