Livraria Linardi y Risso | Fred Linardi*

Era para ser um dia de passagem rápida pelo terminal rodoviário de Montevidéu, mas decidimos sair de Colônia de Sacramento mais cedo. Antecipamos as passagens e saímos três horas antes. Das livrarias da capital uruguaia que gostaríamos de conhecer, a Linardi y Risso era a única na qual ainda não havíamos conseguido entrar. Além de ter sido uma dica da minha amiga Annie Piagetti Muller, a LyR carrega em seu nome o meu sobrenome.

É uma das mais antigas livrarias do país e, certamente, a mais antiga em atividade, aberta em 1944 por Adolfo Linardi Montero. Oito anos depois, ele se associou a outro descendente de italianos, Juan Ignacio Risso. Hoje, na segunda geração, é administrada pelos filhos Alvaro Risso e Andres Linardi.

No fim da tarde do dia 27 de dezembro, quando entramos lá, um senhor veio de uma das salas administrativas e nos deu boas-vindas. Eu arrisquei meu espanhol inexistente dizendo da minha satisfação de estar lá, não apenas pelo belo lugar, mas também por eu ser um Linardi. Eu não sabia, mas ele era o próprio Andrés, que parou o que tinha para fazer, me convidou a sentar numa das cadeiras de leitura e pediu para eu continuar falando em português mesmo – seria mais simples.

Contou-me dos primeiros anos da livraria, quanto era apenas uma pequena loja num outro prédio daquele mesmo centro de Montevidéu. De quando ele começou a trabalhar junto do seu pai, do início da sociedade e da compra daquele prédio onde eles estão hoje. A livraria, especializada em títulos latino-americanos, dos antigos ao mais modernos, também costuma lançar alguns livros com o selo próprio.

Eu, que já havia conhecido o Café Brasilero, frequentado por Eduardo Galeano e que fica na rua logo de trás, imaginei o tanto de outras mentes que haviam passado entre aquelas prateleiras. A resposta veio quando Andrés me mostrou uma foto do pai ao lado de Pablo Neruda numa foto na parede do escritório, ao lado de outros registros do lugar, cuja história recebeu a presença de outros como Mario Benedetti, Juan Carlos Onetti, Armonía Somers, Juan José Saer, Mario Vargas Llosa…

Perguntei-lhe se havia um livro sobre a história da loja, e ele me assentiu com a cabeça. Trouxe um exemplar único, que não estava à venda, produzido por eles próprios. Mas havia um outro, escrito por Patricia Demicher Ilaria, sobre famílias italianas no Rio da Prata. “Deste tenho vários. Pode levar como um presente.”

Impossível não me sentir em casa naquele ambiente e com aquela conversa. Falamos do que sabíamos dos nossos antepassados. Lembramos que há, na região da Calábria, uma forte concentração de Linardi. Era de lá que eu havia encontrado a documentação dos meus e, há alguns anos, havia descoberto que na cidade de Rossano é produzido um vinho chamado Linardi. Ele já conhecia e, há algum tempo atrás, haviam conseguido uma remessa de garrafas através de uma encomenda.

Ao final da conversa, o telefone tocou com latidos de cachorro. Era sua esposa, para quem começou a contar sobre a visita inusitada dos parentes brasileiros. Depois de desligar, contou para nós sobre o motivo do toque do telefone. “Ela cria sheepdogs”. Com livros, vinhos e cachorros, não há necessidade de melhores companhias e referências para encontrar laços que unem parentescos, mesmo que não tão próximos.

 

(Montevidéu, dezembro de 2018)

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