O Fantasma de Licânia* | Clauder Arcanjo**

I

Para Renard Perez

(In memoriam)

Dizem que toda cidade que se preza tem que ter o seu rei e o seu fantasma. Como a genealogia da Família Real não passou, nem de longe, pelas ribeiras do Acaraú, o reinado aqui tem sido do sol e, raras vezes, da bagunça organizada. Esta, na cadência do forró arrochado e sob as bênçãos do batismo da pinga braba. No entanto, com relação ao mundo dos fantasmas, a história tem sido bem diferente.

Explico. Mas, antes de dar seguimento, tenho que declarar, para não faltar com a verdade: o mundo dos fantasmas em Licânia se resumia a um único (e mísero) fantasma.

Não se sabe bem quando ele surgiu nos becos e ruas da província. Os compêndios históricos de Licânia nada testemunham; apesar de o João Américo, em meio às suas elucubrações etílicas, garantir que várias páginas dos velhos tomos foram abduzidas pela força do Além, “privando-nos da verdade histórica e do sumo antropológico do fato”.

O que é que um fantasma tem a ver com Antropologia? Ora se eu sei, caro leitor! Sou apenas um escrevinhador, bolas.

Deixemos o João Américo de lado, e entremos logo na questão que aqui me traz. Pois bem, pois muito bem. Certa noite, e lá se vai uma penca de natais, a Rita Gertrudes, quando vinha da Missa do Galo, ouviu um grunhido esquisito no beco do Mercado Público. Como estava escuro, e o Padre Araquento havia exagerado nas prédicas contra o pecado carnal, bem como nas tintas da descrição das labaredas do fogo do Inferno, a coitada andava com a cabeça a mil. Isso porque, apesar do avançado dos anos, ela ainda sentia o chamado da “carne fraca” e, por conseguinte, levava, sob o xale negro, o receio da condenação quando do Juízo Final. Quando ela quis acelerar o passo, o grunhido ganhou foros de coito, e a velhota arrochou a carreira no rumo de casa.

Ao passar na esquina do Eurico Carneiro, Rita Gertrudes ainda teve forças para gritar: “Valha-me, Senhora Sant’Anna! Prometo nunca mais pensar no Bastião. Eu prometo, eu prometo!”

Dona Adamir nunca viu pessoa mais veloz na vida. Quis acudir a prima distante, porém quando deu por tudo a rua estava vazia, nem sequer a presença dos vira-latas ou dos bêbados.

De manhã, logo cedo, não se falava de outra coisa. Na venda do café, na feira dos bichos, nas bodegas, na igreja, no confessionário, no banho na Pedra da Luiza. Enfim, os licanienses só tinham línguas e ouvidos para um fuxico: o fantasma de Licânia.

As pias Filhas de Maria foram ao Padre Araquento:

– Padre, a Santa Madre Igreja tem que agir.

O representante de Deus nas terras de Licânia estava mais preocupado com a quebra do apurado com o dízimo do que com qualquer coisa do mundo dos espíritos.

– E o que eu tenho a ver com isso, minhas filhas? – mais desabafou do que afirmou Araquento.

Como o velho pároco logo percebeu que, caso não desse atenção ao inusitado, a campanha para recuperação do dízimo, sem a ajuda das beatas, seria caso fadado ao insucesso, ele prometeu interceder junto ao Senhor Pai. Recolheu-se, fingiu orações e saiu de casa, na companhia do Raimundo Sacristão, com a estola, a cruz de madeira e uma porção de água benta.

Não posso aqui perder tempo relatando o pavor que tomou conta das carnes e do juízo do sacristão. O cabra tremia tanto, que quase derramou a água benta no percurso da casa paroquial até a cena da aparição fantasmal. “Tome tento, homem! Por onde anda a sua fé, seu filho de uma mãe frouxo?”

Ao chegarem ao beco do Mercado Público, Padre Araquento ornou-se com a estola, colocou a cruz de madeira na mão esquerda, fechou os olhos, rezou a metade de uma ave-maria e, em seguida, aspergiu água benta, exorcizando a entrada do lugar. Quando deu por si, o sacerdote percebeu que havia sido seguido por um séquito de desocupados. Tudo que eram fuxiqueiras do lugar, sem falar nos bebuns e na legião de aposentados, caminharam na sobra dos passos da dupla encarregada do esconjuro divino.

– Ide para as vossas casas! Rezai o terço, não sem antes o ato de contrição. O fim está próximo, renunciai ao pecado e aproximai-vos da Casa de Deus. Quem não estiver em dia com o dízimo, que procure o Raimundo na sacristia. Dai a Deus o que é de Deus!

– Hoje a puta Rosinha Piaba recebe parte dos seus atrasados! – gritou um arruaceiro no meio da multidão, deixando o sacristão rubro de raiva, o vigário irritado, enquanto a gaitada espocava em meio ao rito exorcista.

***

No próximo capítulo, a saga do fantasma de Licânia há de continuar.

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* Primeiro capítulo de O Fantasma de Licânia. Clauder Arcanjo. Ilustrações: João Helder Alves Arcanjo. Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2018.

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