Acorda Mariquinha*

Newma Cynthia Ferreira

Ao chegar do serviço, o barbeiro encontrou a mulher na sala. Sentada na cadeira de bambu reforçada, equilibrava na cabeça um saco plástico cheio de gelo, no colo vários remédios para diabetes, pressão alta, coceira, impinge e tantas outras mazelas, no chão, potes de margarina, farelo de bolachas, grãos de feijão que havia debulhado e dois caroços de manga arrodeado de formigas. Jogado num canto de parede, o caderno de notas.

Bartolomeu e Dona Mariquinha moram no subúrbio há quase quarenta anos e desde que Junior, único filho do casal, decidiu tentar a vida em São Paulo, ela passa o tempo anotando os acontecimentos da rua avistados do segundo andar da casa.

Também vive azucrinando a cabeça do marido, tentando convencê-lo em mudar-se para uma residência dessas conjugadas, bem compridas, onde possa colar o ouvido num copo barato de extrato de tomate encostado na parede, e escutar tudo o que se passa pela vizinhança.

A dedicação é tanta que levou um susto quando se deu conta que seu Coisinha, apelido que dedicara ao pedinte mais antigo do local, não estava sentado na calçada da padaria.

– Mataram o homem! E quem é aquela magricela? – resmungou, passando a limpo a novidade no caderno. Só então se deu conta que há exatos três dias não mencionara a presença do mendigo. Não havia um registro sequer, de quantas pessoas jogaram moedas e dinheiro no chapéu velho. Perdera-se na contabilidade, quanto tivera apurado?

Sim, porque dali mesmo, por entre um cobogó e outro no alto da moraria, construído para projetar a visão mais ampla do bairro, passa no mínimo quatro horas a observá-lo, e garante: – ele não apura menos de milequinhentos por mês.

A novidade lhe obriga a andar pelas calçadas e se há uma coisa que odeia é ter que sair dos aposentos. Bartolomeu sempre alerta que podem fazer fuxico a respeito, além do mais, os quase cento e cinqüenta quilos exige todo ar que ela respira.

Mesmo assim, caminhou até a esquina com dificuldade, encostou-se num muro de  chapisco, tirou do bolso o conjunto de folhas para fazer as anotações enquanto atocaiava. – Essa siriema não fica parada, anda por entre os carros, aborda o povo, abre um sorriso amarelo e em menos de trinta minutos tem pra lá de cinco reais no bolso, aposto.

– Assassina, matou o dono do ponto para enriquecer no lugar. Se passasse uma viatura da polícia agora mandaria prendê-la. Como pôde fazer tamanha maldade com o pobre homem? – Esbravejava a ira dando o veredito como certo.

Pelas pernas escorriam suor que ardiam quando em contato com as feridas escondidas por baixo da roupa. Um vestido sujo de gordura das sardinhas que assara as pressas, com sentido nas coisas externas. No calor, as brotoejas do pescoço coçavam mais do que podia suportar, cansada, não atravessaria a rua a troco de nada, sentia vontade de apertar a jugular da homicida para ouvir-lhe a confissão.

Ao alcançá-la ficara pálida, com os olhos arregalados ouviu-a contar, de maneira educada, que estava ali há dias, pois de segunda a domingo o ponto lhe pertencia, alugado com todas as formalidades pelo velho, que por causa da filariose não sairia do barraco onde mora, esperando para receber a parte do combinado.

Voltou para casa com dor de cabeça. Nunca precisara tomar satisfação com ninguém, seus escritos não tinham rasuras, tudo porque nos últimos dias assistira desenho animado, jornal local, sessão da tarde e vários programas de culinária na TV, senão tivesse sido desatenta teria testemunhado a negociação que, segundo a pedinte, fora firmada na rua, às três da tarde. 

– Mariquinha, o que esse caderno faz no chão? – perguntou o marido assim que a encontrou na sala. E sem esperar resposta foi direto ao quarto, sentou-se à beira da cama. Aí, tomou conhecimento que seu Coisinha partiu dessa para outra e foi de morte pela nova mendiga na disputa pelo território, leu também que a siriema está metida em outras mutretas, jurada por um tal filho de seu Lariose, um morador de rua quem deve muito dinheiro.

Bartolomeu adormecera com um sorriso no canto da boca. Pela manhã, sairia logo cedo, como de costume, para contar as novidades à clientela atenta, não sem antes, comprar cadernos novos.

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* Texto publicado na sexta versão do livro “Contos de Oficina”
Antologia anual que reúne a produção dos alunos da Oficina de Criação Literária Raimundo Carrero
Contato: newminha@hotmail.com