Essa tal felicidade* | Natália Setúbal**

Abro o jornal e as duas primeiras notícias que leio é que hoje inicia o outono e que também é celebrado o Dia Internacional da Felicidade. Achei curiosa a data comemorativa e me pus a refletir sobre ela.

A felicidade está nas coisas simples e inocentes, escreveu Baudelaire. Ligo o rádio e escuto a canção dos gaúchos Kleiton e Kledir: ser feliz é tudo o que se quer.

Nestes tempos bizarros – de tantas intolerâncias e turbulências – ser feliz virou empretada complicada (até rimou!). Alguém aqui conhece bem de pertinho quem consiga ser feliz full time? – Nem eu!

E no que me cabe, la vie n’est pas rose! Até porque tudo flui, tudo é só (im) permanência como na metáfora do rio do velho Heráclito. Só podemos contar com a nossa percepção. E se para uns a felicidade é ser lindo e famoso, para outros é acertar na loteria gorda, viajar sempre na primeira classe ou se hospedar em resorts luxuosos. Ou ter abdomen negativo e um amour de cinema.

Pois fecho redondinho com o poeta de Fleurs du Mal. Fui aprendendo a valorar o pequeno, o simples, o mínimo. Até porque, creio que estamos em trânsito. Que a vida é um piscar de olhos. De repente, tchibum. Assim, quando me sinto desassossegada com as mazelas e chatices do cotidiano, quando travo na redação de uma inicial ou de uma contestatória, me permito pausas. Nessas horas, meu mantra passa a ser Sai e Busca, do Buda Sidarta Gautama. É quando passo a mão nos meus olhos e os levo para passear. E eles se encantam com tudo. As paineiras em flor, o passo manso do quero-quero no campo, o riso solto de uma criança. Sentindo-me reiniciada por essa pequena epifania junto à Natureza, volto para a minha roça achando Deus mais do que nunca de uma delicadeza e benevolência sem limites.

Curiosamente, sempre que se inicia uma estação do ano farejo algo no ar. Um pressentimento me diz que vem novidade a caminho. E já me alvoroço toda.

E mais uma vez me permito esperar. Com a paciência de um gato.

 

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** Extraído de 35 anos respirando literatura: XXIII antologia. Coordenação editorial: Iara Almansa Carvalho. Porto Alegre. UBE/RS, 2018.

** Natália Setúbal nasceu em Porto Alegre numa ensolarada manhã de Natal. Servidora pública concursada é aposentada da Administração Pública Estadual. Exerce a advocacia nas áreas cível e consumerista. Atua como Conciliadora Judicial junto aos CEJUSCs do Poder Judiciário Estadual. É ativista dos Direitos dos Animais e idolatra felinos. Na primeira infância sonhava aprender a ler. Aos seis anos de idade auto alfabetizou-se lendo jornal. E, desde então, virou amante dos livros. Tem crônicas literárias publicadas na Antologia CRONICANDO (2008) e poemas publicados no Jornal Zero Hora e em várias revistas literárias. Em 2015 participou da Oficina de Haikai com Alice Ruiz, e em 2018 dos Estudos em Escrita Criativa organizados pelos escritores Luiz Antonio de Assis Brasil e Patricia Gonçalves Tenório. Recebeu Menção Honrosa no Prêmio Lila Ripoll de Poesia 2018. Contato: nataliasetubal.adv@gmail.com