Do fim* | Geysiane Andrade**

O sol queimaria a pele se não fosse a nuvem cinza que se punha contra. Mesmo assim, só o mormaço formaria grandes manchas vermelhas nos braços e no peito. No chão, a terra absorveria os raios, que penetrariam suas entranhas e formariam crostas como magma resfriado. Ressequidos, abririam-se rasgos ao longe, marcando a geometria do horizonte, à espera das poucas gotas de chuva. Tal qual os lábios sedentos e pálidos como tudo ao redor.

A vegetação seria ora como cactos e árvores secas da caatinga ora como as gramíneas do deserto. Nenhum vento sopraria naquela direção. Os olhos tentariam se abrir, mas seriam puxados para baixo, talvez pelo peso ou apenas por cansaço. A imagem se formaria turva, sem contorno nem contraste, apenas um leve borrão à frente, que iria crescendo e chegaria cada vez mais perto.

Algo maior que as nuvens cinza, mais vermelho que as manchas na pele e mais quente que os raios de sol. Chegaria cada vez mais perto. A cabeça iria de um lado para outro, não sentiria as pernas ou braços. Ardendo no calor, com a saliva escassa e o gosto de sal intenso, vomitaria se não fosse o nó no estômago. A respiração já seria pouca antes, pelo ar rarefeito e pela fragilidade, mas em breve cessaria. E os batimentos cardíacos seriam cada vez mais fortes e acelerados, depois decairiam na mesma velocidade. A temperatura, antes acima dos 40 graus, se amornaria até congelar os pulmões e sair o último sopro.

A imagem turva correria em sua direção e a encontraria: um corpo celeste se desprenderia do espaço, sem aviso e sem radar. Não teria mais tempo de gritar, fugir ou chorar. Os olhos se apertariam ainda mais e não haveria tempo para despedidas ou arrependimentos. O corpo imóvel. A mente vazia. O coração frio. Nenhum suspiro a mais, nem suor ou dor.

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* Texto escrito no encontro sobre O sonho, em 12 de Setembro de 2018, dos Estudos em Escrita Criativa de Porto Alegre.

** Contato: geysiaandrade@gmail.com