O fogo* de Ina Melo**

Lara estava com 17 anos e vivia mergulhada nos livros. Desde menina era apaixonada pelo fogo, que exercia enorme atração sobre ela. Curtia as explosões dos vulcões e qualquer coisa relativa ao fogo lhe causava estranhas sensações.  Às vezes pensava nas histórias de bruxas que arderam nas fogueiras e sonhava ver de perto a erupção de um vulcão.  Nos fins de semana se refugiava na fazenda do avô, um antigo engenho reformado, mas que conservara todo o mobiliário antigo com pratarias, cristais e belos tapetes. A grande biblioteca era a sua paixão desde que aprendera a ler. Lá costumava passar horas e horas sonhando com um mundo fantasioso e encantado. A história de Roma incendiada a encantava! Ele, o avô, fizera de Lara a sua neta preferida. Ela se apaixonou por Camões ao ler sua obra maior, Os Lusíadas. Vivia recitando versos e mais versos e isso a enchia de orgulho e o fogo ardente da paixão lhe despertava um intenso calor. À noite, costumava sentar do lado de fora da casa para ver as chamas ardentes das fogueiras queimando em altas labaredas, que segundo os peões, ajudava a afastar da casa grande os bichos peçonhentos. Quando voltava para casa seu corpo jovem ardia num calor que ela não sabia explicar. Foi numa dessas noites que resolveu falar com o avô sobre o amor e a paixão. Queria saber o que diferenciava o coração do corpo. Ele com muita firmeza explicou a diferença, falando dos sentimentos e da necessidade do corpo de ser tocado e acariciado. Ao se deitar voltou a ler o velho refrão que dizia “amor fogo que arde sem queimar” e se deixou acariciar pelas  próprias mãos, sentindo na pele uma gostosa sensação de prazer. Apagou as luzes, tirou a roupa e adormeceu. De madrugada, sentiu um forte arrepio e viu os seus pelos ouriçados. Aí pensou na Bíblia e no fogo do inferno. Levantou-se, abriu de leve a porta e foi para o terreiro. O céu estava bordado de estrelas e a lua parecia uma velha senhora gorda vestida de dourado. Saiu caminhando até encontrar uma enorme fogueira com chamas altas e trepidantes. Chegou mais perto e viu um homem sentado de cabeça baixa fumando um cigarro de aroma doce e envolvente. Assustado com a presença silenciosa de Lara, ele ia se levantar quando ela agachou-se ao seu lado. O fogo ardia cada vez mais forte. O cheiro dos jasmins inundava o ambiente. O corpo de Lara queimava num doce calor. A fina camisola de cetim deixava a descoberto o colo de marfim e quase furando o tecido os pequenos bicos dos seus empinados seios. O estranho voltou-se para ela, olhou bem dentro dos seus olhos e de leve passou as mãos sobre o seu colo deixando-as mergulhar por baixo da fina seda. Aqueles dedos macios percorreram de alto a baixo o corpo virgem de Lara. Pareciam que tocavam as teclas de marfim de um piano. Ela não reagiu e se deixou acariciar, deitando-se na grama macia. Foram momentos de grandes descobertas. O estranho nada falava e debruçou-se sobre ela de leve e começou a beijar-lhe os lábios rosados e virgens. O mistério do amor é insondável.  A carne acorda ao toque do homem e logo nasce o desejo que explode sem se saber o porquê. Foi assim que sob o ardente calor do fogo Lara conheceu a paixão da carne. Os corpos rolaram quentes como as brasas que os cercava. Com doçura e carinho ele foi lhe ensinando os caminhos do prazer, até que ambos explodiram numa poeira de estrelas. Quando Lara acordou sabia que não era mais a mesma pessoa. Algo mudara no seu interior. Foi para o banheiro e examinou todo o seu corpo branco e nada achou de diferente. Curiosa sentou-se e percorreu com as mãos o sexo rosado coberto com uma leve penugem, e nada encontrou de estranho. Mergulhou na banheira de águas mornas e voltou a se acariciar lembrando das macias mãos e dos beijos quentes do estranho cavaleiro do fogo. Não lembrava de mais nada. Só da imensa e gostosa sensação de felicidade que invadiu seu coração. Envolta no macio roupão, voltou para a cama, se abraçou com o travesseiro e ficou esperando que o encantado desbravador dos seus mistérios voltasse para os seus braços.

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* Texto escrito no último encontro de 2018 dos Estudos em Escrita Criativa de Recife, em 10/11/2018.

** Contato: ina.melo2016@gmail.com