Facas na literatura* | David de Medeiros Leite**

Alguns hábitos queremos largar, outros, não. O da leitura concomitante de dois livros faz tempo que me acompanha e, não fazendo força em sentido contrário, pretendo assim seguir. Na maioria das vezes, prefiro gêneros e assuntos díspares. Porém, recentemente, ocorreu-me uma incessante coincidência: dei-me conta de que estava lendo duas obras, cujos títulos faziam referências à faca. Sim, isso mesmo, ambos os títulos remetem a tão cortante instrumento de lâmina: Dançar com facas, de Hildeberto Barbosa Filho (Mondrongo, 2016); e Entre facas, algodão, de João Almino (Record, 2017).

François Silvestre diz que inveja é como colesterol, tem a boa e a ruim. Lembrei-me da brincadeira desse amigo, quando da leitura do Dançar com facas, pois, qualquer um que busca a concisão poética para versejar, com certeza invejará esse trabalho de Hildeberto. Como se costuma dizer hoje em dia, o tomo está “redondo”, cada poema deixa aquela impressão de que nada falta e nada sobra.

Quando comentamos algum livro, sempre nos deparamos com a dificuldade em eleger poema ou estrofe, mas, claro, temos que arriscar. No poema “Velhice”, Hildeberto, propositadamente melancólico, sentencia: “Os fardos da idade / começam a humilhar / o pobre corpo. // E a alma, / papoula desgarrada, / nem está mais aqui!”. Na mesma pisada, deparamo-nos com o poema “Horizonte”, talvez, carregando a representação mais impactante da obra: “Velhos com conhaque / na alma, lúcidos, / sem horizonte.” Imagem forte, que cala fundo em qualquer um que não tenha apenas uma pedra no peito, como sugere o cancioneiro popular.

Mudando a temática, porém no mesmo tom minimalista, vem o “Metáfora”: “Num antigo verso / falava das ‘pupilas da manhã’. // Hoje invento a metáfora: // nas tuas pupilas, Pâmela, nadam / todas as manhãs”. No poema “Verão”, a nordestina seca esturricada se mistura com um intimismo que não possui imbricação geográfica e puxa a conversa para abarcar outras estações que nem temos: “É verão / e as pessoas nem estão / mais alegres. // (Tudo é claro, quente, triste!) // O sol explode / dentro de mim / enquanto me despeço / das outras estações.”. Na mesma pegada intimista, no poema “El condor”, o eu lírico transfigura-se no próprio pássaro que ganha voz: “El condor, / nomearam-me os de outra espécie, / os que se dizem dotados / de uma segunda natureza. // Suspenso no azul, / com as asas abertas, / nomeio o mundo,”.

E, quando Hildeberto aborda o mister poético ou a própria poesia como arte, entra em cena o doutor em literatura a nos ensinar lições difíceis de assimilarmos nesse mundo de danações e açodamentos. Difíceis porque o aprendizado requer maturação, condição antagônica à pressa dos dias atuais. Contudo, vamos lá. Com a dificuldade do escrutínio antes mencionado, considero “RIO/POEMA”, como o ápice do livro: “Rio nenhum vale um poeta, / porque rio é somente rio, / e suas correntezas têm destino certo, / e suas margens são apenas margens. // O poeta, não. / É rio, é margem, é correnteza, / é água, muita água, correndo por dentro, / enchente, naufrágio…”.

O paraibano Hildeberto Barbosa Filho encerra o livro com o poema que o nomeia: “Dançar com facas / não é apenas ofício de bailarino / nem dos saltimbancos de ruas. // Se a vida é um tablado, / dançamos todos, com facas, / (…) Dançar com facas / também é ofício de poeta.”.

Já no romance Entre facas, algodão, do mossoroense João Almino, o protagonista possui algo machadiano nisso de “atar as duas pontas da vida”, ou seja, a urdidura acontece a partir de sua decisão de, já setentão, resolver deixar Brasília e comprar uma fazenda no sertão potiguar, onde pretende se instalar e “recompor” um passado que lhe consome.

Além da determinação de largar a vida de advogado na capital federal pela de plantador de feijão, milho e “até algodão”, o personagem principal carrega em si o desejo incontido de vingar a morte do pai. Sem falar que tudo está entremeado com laivos sentimentais, na medida em que vive uma separação conjugal e procura reinventar uma paixão da adolescência.

Romancista com sólida carreira, João Almino sustenta uma linguagem leve numa trama bem sequenciada que prende o leitor. Entre tantas facetas, o romance possui uma característica que merece registro: os personagens manuseiam redes sociais, como WhatsApp e Facebook, ao mesmo tempo em que se ancoram em costumes antigos da vida sertaneja.

E a crise familiar que envolve o protagonista (único personagem cujo nome não é revelado, pois o livro baseia-se em um diário do mesmo), também acontece em duas “dimensões”: tanto na questão da vingança do pai, que termina por gerar uma dúvida quanto à própria paternidade biológica que, até então, era inquestionável, como também no que diz respeito a sua relação com os três filhos, cujas convivências são perpassadas por questões afetivas confusas e bastante atuais.

Um excerto do romance pode justificar parcela do título e situar mais ou menos as lembranças do cenário da infância vivida: “No Riacho Negro, meu padrinho vivia da lavoura do algodão, da oiticica e da carnaúba. Sobretudo do algodão. Me lembro que puxava com orgulho o capucho de algodão para mostrar o tamanho da fibra”.

Quanto às facas existentes por entre a maciez algodoeira, as perspectivas que se abrem são variadas e propositais. Desde a já comentada desforra paterna, até as agruras vividas e revividas pelos personagens, nas diversas épocas e dimensões apresentadas. O sertão de outrora, violento pelo coronelismo. Um pouco da vida moderna, como registros em voos de Brasília a Fortaleza.

Tudo isso sob a pena de quem não é amador no ofício. João Almino coleciona prêmios com outros romances, além de respeitado ensaísta em questões políticas e sociais.

Enfim, entre a poesia de Hildeberto e o romance de Almino, caro leitor, vi-me imbricado num mundo de facas sentimentais por entre um algodoal poético romanesco. Duas obras que enriquecem sobremaneira as letras brasileiras.

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* David de Medeiros Leite é professor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte. Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha. Entre outros, publicou os seguintes livros; Incerto Caminhar; Ruminar (Poesia); Cartas de Salamanca; Casa das Lâmpadas (Crônica). Contato: davidmleite@hotmail.com