O fogo* de Gabriel Nascimento**

Madrugadas, outrora silenciosas, são preenchidas por um choro, que trespassa meus fones como uma faca. Minha mente manda que meu corpo continue sentado, apático ao sofrimento da criatura, ignorando que, de algum jeito, a criatura que chora na cozinha entende o que é solidão, por isso teme estar sendo deixada. Sei que não, mas ela não concebe essa ideia, sente mais do que pensa. O que nos possui a fazer isso? Adotar algo menor, torna-la dependente de nossa vontade, e molda-la no que queremos, ao invés de deixa-la como a natureza a fez? Precisamos tanto nos sentir poderosos? Mas ninguém quer saber disso. Ninguém quer admitir que escravos alimentados e adorados ainda são escravos.

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* Texto escrito no último encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2018, Porto Alegre, em 07/11/2018.

** Gabriel Nascimento participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018, Porto Alegre. Contato: gsabritto@yahoo.com.br