O acordar de Newma Cynthia*

Patricia Tenório

02/01/2011

Dizem que talento nasce com o artista. Outros acreditam que se pode ensinar.

Newma Cynthia me revela o despertar de um sonho antigo: “sempre tive facilidade para escrever”. Mas quando sentimos que o artista é nato, que carrega consigo a doce (e amarga) missão de se expressar através das palavras?

Para o artista, a expressão é a única forma através da qual ele é capaz de imaginar a vida. Para ele, tudo o que está mudo, está morto. ([1])

Newma nos convida a desvendar quem são Dona Mariquinha e Bartolomeu. Nessa viagem, identificamos elementos tão nossos, “um copo barato de extrato de tomate”, ou a curiosidade encoberta pela vergonha de querer tudo saber sobre a vida dos outros. Mas a descoberta de quem são esses personagens é feita aos poucos, em detalhes escondidos na “cadeira de bambu reforçada”, ou quando “Bartolomeu sempre alerta que podem fazer fuxico a respeito”, para deduzirmos que “os quase cento e cinqüenta quilos exige todo ar que ela respira”.

Kafka nos lembra que

só posso retraçar com palavras humanas o que então era sentido à maneira de macaco ([2]).

Vestimos a pele do personagem para revelarmos, em primeiro lugar a nós mesmos, vertigens do que não será, ou se fosse o que seríamos. Alargamos fronteiras, “experienciamos” paragens que nos une a algo maior, uno e diverso da criação.

Mas a própria experiência empírica, a própria observação dos fatos estéticos em tempos e espaços variados termina revelando uma unanimidade dos melhores espíritos a respeito dos artistas colocados acima da média, isto qualquer que seja o tipo de cultura ao qual eles pertenceram([3]).

Quando o artista se torna independente? Quando as influências transmutam-se em sangue, e o sangue em carne das palavras? Pulsa nas veias de Newma os mestres, os livros que leu e tomou como seus, o que ouviu falar sobre o escrever. Mas somente ali, quando com papel e lápis se inscreve no ser, quando vivencia a absoluta solidão, as palavras sussurram segredos do que está por vir, os mistérios somente a si desvendados.

“Mesmo assim, caminhou até a esquina com dificuldade, encostou-se num muro de chapisco, tirou do bolso o conjunto de folhas para fazer anotações enquanto atocaiava”.

Por

que eu lhe agrado e tenho importância para você exatamente por ser como um espelho seu, porque dentro de mim há algo que responde e compreende o seu ser? ([4])

Despeço-me de Newma Cinthia fazendo-lhe um apelo: não perca o olhar curioso, explorador da novidade, de ser criança e anciã ao mesmo tempo, de se perguntar se é isto realmente o que desejava dizer, de sempre duvidar e de sempre acreditar em si…

Quando alguém permanece muito tempo sozinho, quando se passam anos e anos sem que um diálogo vivificante e inquiridor o estimule a levar essa modesta civilização da alma que se chama lucidez até as zonas mais intricadas do instinto, até essas terras realmente virgens, inexploradas, dos desejos, dos sentimentos, das repulsas, quando essa solidão se converte em rotina, quando alguém vai perdendo inexoravelmente a capacidade de se sentir sacudido, de sentir que ainda vive. Mas vem Avellaneda e faz perguntas, e a partir das perguntas que faz, eu faço outras tantas, e então sim, agora sim, sinto-me vivo e sacudido. ([5]) 

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*  Sobre “Acorda Mariquinha”, Newma Cynthia Ferreira, “Contos de Oficina VI”, 2010, Organização Raimundo Carrero.

(1) De Profundis, Oscar Wilde.

(2) Um relatório para uma academia, do livro de contos O médico rural, Franz Kafka.

(3) Iniciação à Estética, Capítulo XXXV, “A estética Filosófica”, Ariano Suassuna.

(4) O lobo da estepe, Hermann Hesse.

(5) A trégua, Mario Benedetti.