O FOGO CAMONIANO* | Cilene Santos**

E esse fogo,

Do qual tratou Camões,

É chama abrasadora,

Que queima e arde.

Por ser intangível,

Não faz alarde.

Não deixa marcas.

No corpo. Só na alma.

Às vezes dá prazer,

Noutras, uma dor infinda.

Cuja cura, a ciência não

Não descobriu ainda.

Se está chama não for

Tão vigorosa,

O próprio tempo cuida de apagar.

Soprando está chama crepitante,

Desraigar e deixa o chão propício

Para que outra chama

Possa cintilar.

Mas, este mesmo tempo é capaz

De, lá no peito, num momento

O fogo camuflar.

Fá-lo virar cinzas, fingir estar extinto.

Entretanto, num instante inexato,

Ressurgir do pó, tal qual a Fênix,

Mais robusto do que antes já o fora

E tão mágico quanto o poder da pedra Ônix.

Rasga o peito. Deixa-o sangrando.

Transfigurado num olhar, numa ternura.

Talvez querendo confessar ao mundo

Que o amor é um sentimento eterno

E profundo.

 

________________________________

* Poema escrito no último encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2018, Recife, em 10/11/2018.

** Cilene Santos, escritora, poeta, cordelista. Professora graduada em Letras, com especialização em Língua Portuguesa. Membro da Academia Caruaruense de Literatura de Cordel, ocupando a cadeira nº 08, e tem como patrono Dimas Batista. Publicou Branca de Neve e os Sete Anões em Versos e a vida de Joel Pontes, em cordel. Participou dos Estudos em Escrita Criativa 2018 de Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com