DE CRIAÇÃO E FOGO DA MEMÓRIA* | Bernadete Bruto**

Fechou os olhos e deu de encontro com a escuridão da alma. Que buscar no Íntimo sobre o fogo habitante na sua escrita? No íntimo sabe:

O QUE SURGE

DA ESCURIDÃO

EMERGE FORTE

PURO MAGMA

COMO UM VULCÃO

 

Hoje, o silêncio impera na escuridão. Uma escuridão morna de forma que se põe em meditação no aguardo da faísca sagrada. Abriu os olhos deparando-se com um holofote vermelho, qual o tema proposto, iluminando esse chão de vermelho aveludado e se viu num espaço de silencio onde os únicos ruídos presentes provinham do papel manuseado por outras mãos na proximidade.

Todos, no silencio, escreviam imersos no fogo-fátuo de suas almas crepitantes na vizinhança daquela criatura, que ali presente, observava uma nova forma de escrever nesse silencio em conjunto, durante todo aquele ano.

Se alguns papéis se dobravam e amassavam à procura da bendita fagulha, o dela permanecia intacto, ao sabor do deslizar da caneta que lhe conduzia a uma história, sobre uma pessoa, cujo coração tão profundamente abrasado, um dia ardeu em chamas. Do coração em cinzas, com um único tição alimentado, iluminando o caminho, daquela vista meio cega pelas lágrimas, seguiu uma rota apenas conduzida pelo fogo da memória, escreveu algo assim, somente para si, como um conto de fadas:

 

Era uma vez uma menina, tão pequenina, como outra qualquer. Atemporal, que pegou a flor da chama e iniciou uma vida nova, inteirinha, de lindas tramas!

 

Recife, 10 de Novembro de 2018.

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Texto escrito no último encontro dos Estudos em Escrita Criativa 2018, Recife.

** Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores – UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014) e A menina e a árvore (2017). Participa de antologias, assim como de diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com