O fogo da criação* | Patricia Gonçalves Tenório**

Descobrimos em A psicanálise do fogo, do filósofo francês Gaston Bachelard, alguns dos temas mais caros à literatura universal, tanto nos clássicos quanto nos contemporâneos, e que investigamos durante 2018, nos encontros dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife e em Porto Alegre.

Nos encontros, navegamos pelo tempo e nos lembramos d’“O que é, pois, o tempo?”, e o triplo presente de Agostinho de Hipona nas suas Confissões, onde só o presente do presente existe na alma distendida da percepção. Intuímos o conceito de figura que Erich Auerbach tomou emprestado dos primeiros padres da Igreja Cristã, quando, para angariar mais fiés entre os judeus, gentios, pagãos, tentavam ligar figuras do Antigo Testamento, tais como Davi, Moisés, Josué, à figura do Cristo no Novo Testamento, os primeiros prefigurando o preenchimento pleno com a vinda do Messias. Auerbach aplicou o conceito de figura tentando ligar textos clássicos, um apontando para o outro, desde Homero até chegar ao romance moderno com Virgínia Woolf.

Buscamos em Yuval Harari, e no seu Sapiens: Breve história da humanidade, o motivo para mais de 150 indivíduos caminharem na mesma direção: a construção do mito. Mito que, segundo André Jolles, nasce quando uma pergunta essencial encontra uma resposta perdida, uma sendo feita para a outra de maneira inexorável.

E o que dizer sobre a viagem? Esse tema que vem lá dos nossos pais portugueses com Luís Vaz de Camões em Os Lusíadas, atravessa a Jornada do Herói ou da Heroína, de Chistopher Vogler e Maureen Murdock, e desemboca n”Os devaneios de um caminhante solitário, de Jean-Jacques Rousseau?

A música nos traz a Teoria Barroca dos Afetos, e lembramos de Ludwig van Beethoven quando afirma que “Não apenas pratique sua arte, mas force seu caminho em seus segredos, pois ela e o conhecimento podem elevar os homens ao Divino”.

O amor nos apresenta o maior sentimento agregador, aquele para o qual viemos ao mundo, pelo qual retornaremos dele um dia, e que o poeta trovador Guirault de Borneilh nos abre as janelas da alma, de ponta a ponta, lá n’O poder do mito, de Joseph Campbell.

O sonho e a imagem dialogam entre si, quando Carl Gustav Jung extrai dos sonhos a imagem individual, no meio das inúmeras imagens coletivas que nos são impostas todos os dias, e Roland Barthes nos apresenta o punctum da fotografia que nos fere e atinge. Com isso mergulhamos em nós mesmos na direção de nossa essência, e reverberamos em ficção, poesia, imagens teóricas ou poéticas.

E o fogo reunindo em si cada um desses temas elencados para nos provocar, para nos alimentar com teoria de várias áreas de conhecimento, nos iluminar com diversas áreas de arte, o fogo quase nos queimando por inteiro, nos transformando por inteiro, para renascermos feito uma Fênix desmesurada, e escrevermos uma obra de arte.

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* Ao final dos Estudos em Escrita Criativa 2018, Recife e Porto Alegre.

** Patricia Gonçalves Tenório (Recife/PE, 1969) escreve prosa e poesia desde 2004. Tem onze livros publicados, com premiações no Brasil e no exterior, entre elas Melhor Romance Estrangeiro por As joaninhas não mentem (em outubro, 2008) e Primo Premio Assoluto por A menina do olho verde (em outubro, 2017), ambos pela Accademia Internazionale Il Convivio, Itália); Prêmio Vânia Souto Carvalho (2012) da Academia Pernambucana de Letras (PE) por Como se Ícaro falasse, e Prêmio Marly Mota (2013) da União Brasileira dos Escritores – RJ pelo conjunto da obra. Mestre em Teoria da Literatura (2015, UFPE) e doutora em Escrita Criativa (2018, PUCRS). Contatos: patriciatenorio@uol.com.brwww.patriciatenorio.com.br