Amizade de teclado | Mara Narciso*

11 de outubro de 2018

 

Cultivando amizades virtuais desde 2001, desperto e tenho afetos despertados através de letras. Nessa esteira, conheci Pedro João Bondaczuk, escritor e jornalista em fevereiro de 2007, quando, no curso de Jornalismo conheci o site Comunique-se. Logo me aproximei da sessão de Literatura. Pedro era um dos editores desde anos antes. Insatisfeito com as atualizações, que ele queria diárias, criou o Blog Literário, no qual atualizou como queria, somando 12 anos. Naquele espaço fui publicada semanalmente, desde sua criação.

Eu li Pedro Bondaczuk todos os dias, especialmente o Editorial. Assustei-me com a sua morte, pois desconhecia estar doente. Aos 75 anos, a partida se deu no dia nove de outubro, e no dia oito tinha postado no Blog Literário e no Facebook. Pasmada, mão no queixo, agradeço o quanto ganhei com esse convívio virtual. Escrevendo com qualidade, de forma compulsiva e na primeira pessoa, trazia informações de preciosa credibilidade. O seu cérebro destacado, somado ao afã por conhecimento, vivia pesquisando. Em cada um dos seus textos éramos convidados a refletir. Um absurdo perder tudo isso num fechar de olhos.

Quem escreve como ele escrevia já se imortalizou. Estas sede e fome de escrever miravam a justa imortalidade, tema preferencial, assim como a imensidão do universo e a morte. Ele não acreditava em nada depois dela. Discreto, íntegro, colocando a correta informação em primeiro lugar, evitava se abater com a pouca resposta dos leitores nos blogs (tinha também o Escrevinhador) e redes sociais. Estóico, imbatível, insistente, continuava seu caminho pelo prazer de semear ideias.

No Facebook, em meio às desconstruções, escrevia sobre temas edificantes. Utilizou a estratégia de dividir abordagens complexas em fragmentos e fotos, numa postagem atraente, aumentando os acessos. Os comentários cresciam quando reclamava de algo. Publicava em todas as mídias, jornais virtuais, impressos, blogs e Twitter, o local onde ele se manifestava politicamente.

Não comentava obras que não gostava, assim como não contava enredos. Apresentava autores do mundo todo e de várias épocas, especialmente os premiados. Falou muito dos não agraciados com o Prêmio Nobel de Literatura. Ensinava de forma profunda e simples, para se aproximar do leitor, um destinatário misterioso que sofria transformações. Seus escritores preferidos eram Jorge Luiz Borges, seu guru dos espelhos e dos labirintos e o poeta Mário Sampaio, seu amigo, entre centenas de outros novos e velhos.

Reverberava muito do seu pensamento e pouco da sua vida pessoal, a não ser sobre sua caótica biblioteca de mais de três mil livros e sobre sua rotina matinal de banho, café puro, jornal e meditação. Escreveu centenas de poemas à “Sua Doce Amada”, recebedora de amor e elogios pela sua ação humanitária, cujo nome só soube agora: Maria Ignês.

Campeão das citações e considerado arrogante pelo excesso de erudição, foi por mim citado em meu TCC de Jornalismo: Entrevista: paralelo entre a prática jornalística e a prática médica. Eu li tanto Pedro Bondaczuk, que ele se tornou um pouco meu, assim, sei mais sobre o que ele pensa do que sobre o que eu penso. Admito não conhecer ninguém tão bem quanto conheço Pedro, que dizia que as pessoas não querem pensar.

Andava de muletas devido à sequelas de Poliomielite contraída aos seis anos. Para salvá-lo, a família partiu de Horizontina no RS para São Paulo. Queria ser médico, foi jornalista de ponta, editor de Política Internacional. Queria ser jogador de futebol pela Ponte Preta, sua paixão, e foi técnico de futebol. Deu milhares de palestras. Doou ao CCV os direitos autorais do seu livro “Por uma Nova Utopia”.  Publicou “Lance Fatal” e “Cronos & Narciso”. Queria publicar “Copas ganhas e perdidas” e “Dimensões infinitas”. Não deu tempo. O que sei dele, conheci através do seu teclado criativo, e nunca ouvi a sua voz de profissional do rádio.

Quem vai me ofertar gratuitamente informação segura, útil e fresquinha? Está sofrido, com se eu tivesse perdido um tio. Partiu, deixando seus pensamentos filosóficos imortalizados, não só na Academia Campinense de Letras, sua outra casa, como também em mim, que pranteio sua perda. Eu não o enxergava, mas ele estava lá. Agora, se esgotou a mais doce e generosa fonte.

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Mara Narciso é médica e escritora de Montes Claros (MG) e toda semana, desde 2012, também me presenteia com suas crônicas belíssimas. Contato: yanmar@terra.com.br