Uma crônica e um poema de viagem | Bernadete Bruto* & Elba Lins**

DOZE HORAS EM TRÊS DIAS

 

                                                                                                           Bernadete Bruto

 

Primeiro dia

 

Em Recife, dia de eleição, o bairro estava lotado de carros, um senhor engarrafamento…xiii acho que calculei o tempo errado.… Enquanto ligava para minha amiga informando do atraso, pensava que talvez perdesse o voo…como chegar a tempo? No trajeto, combinava a possibilidade da amiga pegar o voo sozinha e me maldizia! Nunca foi tão atemporal esse percurso! A angústia desse entremeio me fazia repetir comigo: deveria ter saído às 12 horas! Mas finalmente às 13:42 entrei no aeroporto, justamente na hora do embarque. Na verdade, DOIS MINUTOS APÓS O PRAZO PARA EMBARCAR…  Ainda bem que Ela havia imprimido os tíquetes. Ainda bem que ela chegou antes… e me prometo que nunca, nunca mais vou me atrasar!

E depois, só na tranquilidade de um bom papo e um bom vinho, encerramos o dia em outro estado às doze horas!

 

Segundo dia

 

Naquele estado, dentro de um estado de espirito favorável, há sempre de novidade, mundo novo, outros olhares. Foi assim o passeio delas pela cidade até as doze horas. Depois a defesa de uma tese. Era por uma história que estavam ali… Aquela história iniciada lá trás. Na sala, as duas viajando em fragmentos de uma história dentro de outra. Estavam apenas orientadas pelo prospecto de instruções de voo e teorias. O veredito, um orgulho. Logo após, uma palestra, na mesma sala gelada, esquentando  suas almas. Falava sobre arte, dos livros de artistas e caligramas!

E depois, só na tranquilidade de um bom papo e um bom vinho, encerraram o dia em outro estado, naquela noite que se celebrava uma história em doze horas!

 

Terceiro dia

 

Um passeio pela cidade, uma visão do alto, como se estivessem no Olimpo, quatro pernambucanas. Depois só na tranquilidade, um bom papo, um bom vinho, o dia em outro estado encerrando as doze horas!

Durante a conexão, em Campinas, uma pensava que ia para São Paulo, em pensamento, já ensaiava até a canção: “alguma coisa acontece no meu coracão….”. A outra sabia que iam para Minas!  Risos sobre essas pequenas besteiras que dão graça à vida.

Em Minas, um ótimo pretexto para comprar o doce de leite que uma delas levará aos colegas uma lembrança nada significativa do local de onde vieram. Com toda certeza perguntarão: Você foi mesmo para onde?

Ainda em Minas, a felicidade de ir na prioridade, uma faz algo que leva a outra retrucar: se fui pobre não lembro.

No terceiro voo do terceiro dia, as duas riam de qualquer situação. Até de um livro que a moça ao lado riscava de vermelho com tanta agonia, como grafada estava a autoria. Tantos erros de português e o quanto mais a moça pintava, mais parecia um livro de artista! Enquanto o avião seguia em direção ao Recife, as duas riam sem motivo, por qualquer coisa, como duas meninas que aproveitam a vida.

Antes, ao embarcar e pelo caminho,  agradeciam a oportunidade oferecida pela vida, de realizarem um passeio no meio do cotidiano, em apenas três dias… Dentro de uma sala, presenciaram uma linda história, sobre uma bela pessoa que se passava em doze horas e falava de um caminho de uma vida inteira.

 

Fecho meu caderninho de notas desta viagem ao Rio Grande do Sul refletindo o quanto podemos aproveitar da vida em três dias, o quanto podemos vivenciar num voo e o quanto pode acontecer apenas em doze horas! Não vejo a hora de ler o livro!

 

Recife, 10 de outubro de 2018.

 

 

Já votei

Já fui a Porto Alegre

Já voltei

Já cheguei

Já recebi irmãs

Já viajei para João Pessoa

Já caí

Já levantei

Já me aperriei

Já me animei

Já me preocupei

Já me politizei

Já tento a esperança

Já li

Já ouvi

Já chorei

Já pensei

Já estou aqui

Já espero o sol

Já espero a luz

 

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ELBA LINS, ESSA VIAGEM CHAMADA VIDA, 18/10/2018, 07:15

 

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* Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores – UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014) e A menina e a árvore (2017). Participa de antologias, assim como de diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

 

** Elba Santa Cruz Lins (Monteiro/PB, 1957) é formada em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Pernambuco (1979), fez MBA em Gestão de Negócios (EAD) pela PUC-PR. Trabalhou durante 34 anos na área de Telecomunicações da CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco). Atualmente aposentada, dedica-se à escrita. Fez curso de Contação de Histórias no Zumbaiar (Recife). Faz poesias e há dois anos participa dos Estudos em Escrita Criativa, sob a coordenação de Patricia Gonçalves Tenório. Lançou em 2017 seu primeiro livro de poemas, Do outro lado do espelho: O feminino em estado de poesia. Contato: elbalins@gmail.com