“A mulher faminta”* | Tiago Germano**

Tenta fechar os olhos, mas o barulho do interfone não o deixa dormir. No colchão em que cabem três dele, camadas de lençol amarrotado modelam um corpo. Tem a nítida impressão de que ela ainda está ali. Da janela, uma luz difusa se reflete na parede do quarto. As mãos procuram o celular. Confere o mostrador do relógio. Três e meia da madrugada e o interfone que não para de tocar. Desliza para o lado e coloca os pés no lugar mais seguro que encontra. Um cânion aberto por pilhas de livros e papéis assume o espaço que os poucos móveis não conseguem preencher. Desvia cambaleante de cada um dos obstáculos. Uma pilha tomba e uma cascata de páginas forma um pequeno estuário no chão. Projeta os membros de um lado para o outro do corredor. Desloca-se mais com as mãos tateando as paredes que com os pés tropeçando nas caixas. O som do interfone ecoa metálico pelo apartamento. É quase possível senti-lo vibrar na superfície das paredes. A porta do quarto de hóspedes está aberta e trancá-la é a primeira coisa que faz antes de continuar a seguir o eco até a cozinha. Liga a luz e uma rajada incandescente atravessa a retina. Procura o aparelho entre a pia de louças acumuladas, uma coluna parcialmente submersa de porcelana barata, um iceberg que vai dos pratos maiores para os pires menores, os talheres por cima, os copos encaixados uns dentro dos outros, as panelas de alumínio num caos perfeitamente organizado. — O senhor sabe que eu só faço minha obrigação — diz a voz roufenha do porteiro, do outro lado da linha. No sexto andar do prédio, o vazio é tal que o silêncio consegue se sobrepor às desculpas pela hora. — A vizinha de baixo tá perguntando se o senhor não deixou alguma coisa estragar na geladeira ou no forno. A geladeira está vazia, e é preciso esfregar muitas vezes os olhos antes de verificar as quatro bocas do fogão apagadas, a válvula do gás fechada há sei lá quanto tempo e nem um traço de lixo na área de serviço, não fosse o pequeno lodaçal que demarca o trajeto de chorume das sacolas recém-recolhidas. Na pia, as roupas sujas permanecem mergulhadas em uma solução de sabão em pó e água sanitária. As janelas continuam fechadas. — O senhor sabe como é gente velha. Já é a terceira vez que ela me pede pra ligar perguntando. Larga o aparelho no suporte. Vai até a sala e tenta sentir o cheiro. O notebook hiberna na mesa de jantar. Confere o dia da semana na tela. Na avenida, ouve um carro frear e acelerar subitamente. As rodas parecem se desconjuntar na lombada, os pneus cantando à medida que o carro se afasta.

Solta as trancas da porta corrediça e só então percebe o reflexo da TV ligada no mudo. Abre a porta de vidro que dá para a varanda e o vento começa a uivar invadindo a sala. Não se lembra de ter posto o DVD no aparelho. Não se lembra de ter abandonado o filme no meio. Tira a camisa suada e deita no sofá. Há uma sensação de alívio em colocá-la sobre o rosto, o suor do corpo ainda quente encharcando a malha. Aumenta o volume no controle remoto. Pela gola aberta da camisa, acompanha a cena que se repete na tela. É noite e um grupo de criaturas cerca uma caminhonete ardendo em chamas. Dentro da cabine, um corpo carbonizado desprende uma espessa nuvem de fumaça. Faces desfiguradas aglomeram-se no para-brisa. As criaturas arrombam a cabine e desmembram o cadáver, roubando restos de carne humana com as mãos. O vermelho das tripas salta no colorido digital. Um homem devora um pedaço de pele lacerada, uma tira que parece do tamanho exato da epiderme que lhe falta no pescoço. Começa, enfim, a se lembrar. Tudo, de fato, aconteceu no quarto ao lado. Sabe agora exatamente de onde vem o cheiro. Tem alguém morto neste apartamento.

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* Trecho do primeiro capítulo do livro A mulher faminta, de Tiago Germano.

** Tiago Germano nasceu em Picuí (PB) e foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura e do Prêmio Açorianos de Criação Literária com o seu primeiro livro de crônicas, Demônios domésticos, lançado em 2017 pela Le Chien, de Porto Alegre. O texto “Óculos Ray-Ban”, que abre este volume, venceu o Prêmio Rubem Braga de Crônicas em 2016. A mulher faminta, finalista do Prêmio Açorianos de Criação Literária 2016, é seu primeiro romance e publicado pela Moinhos, de Belo Horizonte, em 2018. Contato: tdgermano@gmail.com