Eu amo os advérbios| Cilene Santos*

08/01/2013

Amo todas as palavras da Língua Portuguesa; mas tenho uma especial predileção pelos advérbios. Mesmo não sendo palavras substantivas, por sua vez, inconcretizáveis, têm a capacidade de alterar qualquer resultado. Inserindo-se na frase, impõem valores. Vejamos o enunciado: “O rapaz quase morreu”. Que alegria! Ler esta frase. Que alívio! O advérbio “quase” não deixou a tragédia acontecer.

Há casos em que ele se torna um verdadeiro delator: observando um comercial de uma determinada marca de café, detectamos que o nosso cafezinho não estava sendo bem elaborado, quando foi veiculada a propaganda: “Café tal, agora com torra perfeita”. Quer dizer que antes tomávamos um café mal torrado.

Um outro caso interessante acontece quando alguém faz o seguinte elogio: “Você está lindo(a) hoje”. Ao ouvir este discurso, fique triste, chore, esperneie! Ora, se você está lindo(a) hoje, significa que ontem ou nunca esteve bonito(a).

E ainda existe o caso em que o advérbio imprime esperança em quem está apaixonado. Quando alguém diz a alguém “Ainda não te amo!”, isto significa, então, que em algum dia, poderá surgir um grande amor. Neste caso, o advérbio assume um ar de cumplicidade.

É por esta e muitas outras razões que tenho um grande apreço por estas palavrinhas, capazes de me deixarem triste, alegre ou até furiosa, quando espero um sim e me aparece, intrometidamente, um não, que obriga a tomar decisões diferentes daquelas que eu havia planejado.

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* Cilene Santos é professora aposentada, grande poeta e participante dos Estudos em Escrita Criativa em Recife. Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com