À Palomar, de Ítalo Calvino* | João Paulo Nascimento de Lucena**

Camaragibe, domingo, 8 de julho de 2018.

As coisas são assim. Com o olhar fixo, voltado para dentro, penso: “é o vazio, meu Deus?”. De jeito maneira. Pois enxergo tantas coisas…  E alguns dos meus melhores insights vêm dos afazeres cotidianos, que se acumulam e, erroneamente, não dou prioridade, afundando-me na insistência de que o texto vai sair agora ou nunca! E geralmente… Espero a água sanitária agir. Enquanto isso, tomo banho de sol sem camisa sentado do outro lado da rua. É tão bom. Há quanto tempo não saio da caverna? Elas saem. Vêm aproveitar o sol do inverno dos trópicos, tão intermitente e por isso mesmo gostoso, entre uma chuva e outra. O nosso inverno é bipolar. Pretinha, a mais velha, com quatro Copas do Mundo nas costas, já não enxerga mais e seu olfato, aliado à memória, lhe guia. A mais nova vem atrás – é a recém chegada à família. Maia. Chegou nesse último mês de maio. Mas o nome veio duma breve enquete que fiz entre amigos no Whatsapp. Mãe, que a adotou, gostou e assim ficou. Maia passa a comer esses matos que se acumulam na casa frente à nossa. Sei que é para melhorar a digestão… Ela vomita. Eis o propósito. Como é inteligente! Mas quem a ensinou? A natureza é realmente fantástica! Eu que subestimei a pobre. Quando foi a última vez que comi mato? Pouco antes de Maia chegar, acho que na mesma semana, havia lido o livrinho daquela garota do Hare Krishna. Maia não me era estranha. Depois de batizada voltei ao glossário de nomes e termos sânscritos. Mãyã significa ilusão. Mãyãvãdis é nome que se dá aos filósofos proponentes de que, quando Deus faz Seu advento, é encoberto por mãyã. De que ilusão é Maia? Acho que agora o lodo já está mole. Tenho de aproveitar, precaver-me de acidentes. Com a vassoura esfrego. Aguo-o. Esfrego. Lavo… Começa a chover. Já deu. Até as meninas já entraram. Agora, Inverno, ajude-me a terminar.

 

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* Conto de férias do participante dos Estudos em Escrita Criativa de Recife, João Paulo Nascimento de Lucena.

** João Paulo é mestrando em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Contato: jpn.lucena@gmail.com