Filmes e filosofia de vida & Cinco textos curtos* | Bernadete Bruto**

Recife, 18 de julho de 2018

 

Além de diversão, os filmes podem ser fonte de excelentes reflexões sobre a vida, como no filme A Jovem Rainha (2017), uma ficção baseada em história real, a Rainha Cristina da Suécia, uma mulher muito além de seu tempo, incentivou o uso do conhecimento e gosto pelas as artes no seu país, e deste filme, separei parte do discurso de Cristina quando tornou-se rainha e cita o filósofo Descartes: “René Descartes diz que a curiosidade é um grande trunfo. Ele diz que nos predispõe a adquirir conhecimento científico. Ele diz: o melhor remédio para admiração excessiva é adquirir conhecimento de muitas coisas e praticar a apreciação daqueles que parecem ser mais raros e estranhos.”  Sim, a curiosidade e o conhecimento, excelentes trunfos em qualquer época, assim como a apreciação do novo e inusitado. Foi assim com o filme O garoto de Liverpool (2009), também uma ficção baseada na vida do astro John Lennon, o comportamento estranho do jovem inglês na escola fez com que o professor lhe chamasse em particular e sentenciasse: “só conseguirá emprego nas docas, não está indo a lugar nenhum aqui em Quay Back, lugar nenhum.” Engraçado verificar que a sua “profecia” foi por água abaixo: como aquele menino de Liverpool tornou-se um grande músico e mudou costumes. A resposta do menino Lennon no filme já dá essa dimensão: “Esse lugar nenhum está cheio de gênios, senhor? Então deve ser o meu lugar.” Que felicidade comprovar esse final feliz para nós que já presenciamos essa ascensão do menino na vida real, e, como pessoas, abrir nossa mente para enxergar no outro diferente, trazendo o novo e que podemos aprender.

Nesse mesmo foco a questão da diferença reaparece no filme Anomalisa (2017), interessante desenho no qual a protagonista enxerga todos com a mesma aparência e voz até encontrar uma moça, que lhe chama a atenção, talvez por sua diferença dos demais, inclusive na voz,  que ele escuta de forma diferente. No filme que analisa a questão das anomalias, a moça chamada Lisa, recebe o codinome de Anomalisa, que em japonês significa “Deusa do Céu”. E Anomalisa traz muito na sua fala. Tocou-me a observação sobre o Brasil; “o único país que fala português” (uma anomalia) e encontrei imensa sintonia com sua canção preferida, também uma das minhas prediletas, do tempo da juventude, Girls Just Wanna have fun: “Adoro Cyndi Lauper. Ela tem uma ótima voz e não liga para o que diz. Ela é ela mesma, e isso requer coragem.” Por essa informação trazida pela Lisa adorei o filme, que nos estimula a fortalecer nosso comportamento e sempre buscarmos força para sermos nós mesmas apesar de distanciar-se do dito como “normal”. Além da música que me fez retornar ao final dos anos setenta e cantar: Girls just wanna have fun!

Por fim, totalmente encantada como o filme A GANHA PÃO. Meditei sobre o quanto temos em termos de liberdade individual e o quanto ainda tem gente sofrendo nos seus direitos individuais. Pensei ainda, se a condição da mulher no mundo ocidental ainda é precária, como classificar a situação das mulheres em países como o Afeganistão? Triste e inclassificável..infelizmente! E no meio ao sofrimento da história, apresentada com maestria neste desenho, há uma história dentro de uma história, com a contação feita pela protagonista, a menina Parvana. A contação toma ares de fantástico do conto de fadas, um mito do imaginário popular daquele recanto, e, bem perto do final, se mistura  com a história principal, revelando o segredo guardado sobre o irmão de Parvana, cujo paredeiro ninguém mencionava no filme: “Meu nome é Sulayman. Minha mãe é escritora, meu pai professor. Minhas irmãs vivem sempre brigando. Achei um brinquedo na rua e ele explodiu. FIM’

O filme foi tão bem concebido que mesmo no final, fiquei ainda presa naquele povo, que lembra um pouco meus ancestrais, observando o quanto são parecidos, como se irmãos fossem…e desejando que Parvani e todas mulheres e homens do Afeganistão, ou de qualquer outro país, onde a realidade seja semelhante, pudessem alcançar um oásis, um paraíso, que no filme sugeria uma praia em Goa.

Este filme proporcionou muitas reflexões sobre nossa existência, por conta do sofrimento de uma nação. Muito embora, tenha sido profundamente tocada pela beleza da alma de um povo incólume, mostrada na descrição que fazem de si, nos presenteando no final do filme: “Somos uma terra cujo povo é o maior tesouro. Estamos nos limites de impérios em guerra. Somos uma terra dividida nas montanhas do indocuche queimada pelos olhos ardentes dos desertos do norte, escombros negros contra picos de gelo, somos Auriana, a terra dos nobres.”

Filmes nos divertem, mas também nos ensinam como contar histórias de forma diferente, nos instrui e são meios de denúncia de condições humanas, sociais e ambienteis. A filosofia da vida encontramos em vários lugares, na própria natureza, nos livros, nos meios de comunicação, também nas palavras, basta conservar os olhos, ouvidos e coração abertos, em qualquer lugar, até mesmo assistindo a um filme como A Ganha Pão: “Levante suas palavras, não sua voz. É a chuva que faz as flores crescerem, não o trovão.”

 

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Texto 1: Um buquê para a minha amada

De vermelho a saudade se agarra ao que sobra do mundo particular da juventude, ainda presente lá no fundo do coração. O tempo em que subia sem medo nas árvores e o céu estava perto passou. Presa no chão,  olhos cansados procuram mocinha de sonhos azul que recebia flores…a vista tão longe:…”Adeus menina, linda flor da madrugada!”

Texto 2: Cada uma tem sua Tróia particular

Aprisionada entre quatro linhas daquela história, que pode ser antiga, procura a menina uma saída. Sua mãe observa o enredo, naquele local de degredo, onde todas as mães vão parar na maturidade. Sentada no anfiteatro da vida e na torcida, aguarda o segundo tempo, o fim da guerra, tempos de realizações! Ela estuda o caminho enfrenta a luta, tem foco. Do outro lado, a mãe espera por um futuro como seu nome,  resplandecente!

Texto 3: Eram muitas vezes

A figura caiu no colo do livro inutilizado. Que aborrecimento! E agora? Qual era a história? Livro todo manchado de tinta preta. Nada se vê.  Lamentou. Olhou a imagem que restava. Uma moça vai em busca de algo, vislumbra uma descida ou vai subir na árvore? Quaisquer das ideias poderiam iniciar! Sorriu. Ficou feliz porque descobriu tantas possibilidades, numa só imagem muitas histórias! Assim, começou a escrever.

Texto 4: Nos tempos do quintal

Houve um tempo em que o mundo era pequeno, íntimo e lhe bastava. Um quadrado onde uma menina vestida de vermelho divagava, abraçada ao arvoredo. Tudo era possível para o local se tornar uma terra encantada, do nada! Na segurança do lar e liberdade do pensamento sonhava com fadas, castelos. Mal sabia que era a verdade muito mais bonita que seus sonhos. A doce e encantadora realidade daquele tempo.

Texto 5: Assim na terra como no céu

João subiu na vida por aquela árvore. Maria ficou embaixo, vendo-o cada vez mais distante. Olhando para o céu, segurava a árvore. Olhando para o alto, não vê a terra… Pobre Maria! Perdeu seu chão…Tudo por causa de João! Toma uma atitude menina. Ou sobe lá pra cima ou se mete pela floresta e vai fazer da vida festa aqui mesmo no chão. Quando notar nem saberá mais quem é João! João? Aquele do pé de feijão? Sei não!

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* Resenha apresentada e exercício de um encontro extra do grupo original dos Estudos em Escrita Criativa, em Recife, com Bernadete Bruto, Elba Lins, Luisa Bérard e Talita Bruto em 17/07/2018.

** Bernadete Bruto (Recife/PE, 1958) é bacharel e licenciada em Sociologia, com especializações na área de Recursos Humanos e Direito Administrativo. É analista de Gestão do metrô de Recife e poeta performática. Membro da União Brasileira de Escritores-UBE, da Associação dos Amigos do Museu da Cidade do Recife – AMUC, parceira da Cultura Nordestina Letras e Artes e participa da Confraria das Artes e dos Estudos em Escrita Criativa. Tem quatro livros publicados, todos coletâneas de poesias: Pura impressão (2008), Um coração que canta (2011), Querido diário peregrino (2014) e A menina e a árvore (2017), participação em antologias, assim como diversas apresentações poéticas e performáticas. Contatos: bernadetebruto@gmail.com e www.bernadetebruto.com

*** Birdsong, 1893, Károly Ferenczy.