Estudos em Escrita Criativa – Junho, 2018 | De Recife a Porto Alegre

Os Estudos em Escrita Criativa do primeiro semestre de 2018 cumpriu sua missão. Cumpriu a missão monstruosa de tentar unir as duas pontas do Brasil, as duas cidades em que eu flutuava nas idas e vindas do doutorado em Escrita Criativa da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS, única com graduação, mestrado e doutorado na área do país.

As duas cidades se fizeram unas sob as temáticas do tempo – e Agostinho de Hipona, Erich Auerbach, Oscar Wilde –; do mito – e Yuval Harari, André Jolles, Vincent Van Gogh –; da viagem – e Michel Onfray, Luiz Vaz de Camões, Christopher Vogler –; da música – e Thomas Mann, Hermann Hesse, Platão.

E os conceitos se ampliaram – o Eterno e o Tempo agostiniano, Figura dos Primeiros Padres Cristãos, a Pergunta que se anula na Resposta do mito, os viajantes e sedentários desde Abel e Caim, a Teoria Barroca dos Afetos.

E os convidados especiais – Alexandra Lopes da Cunha, Alexandre Santos, Débora Ferraz, Fátima Quintas, Flávia Suassuna, Gustavo Melo Czekster, Jacques Ribemboim, Júlia Dantas, Guilherme Azambuja Castro, Tiago Germano.

E os escritos grandiosos dos participantes – Adriano B. Cracco, Ana Elisabete Cunha, Antonio Ailton, Bernadete Bruto, Cilene Santos, Dulce Albert, Elba Lins, Eliane Mascarenhas, Gabi Vieira, Gabriela Guaragna, Gabriel Nascimento, Giliard Barbosa, João Orlando Alves, Ina Melo, Inalda Dubeux Oliveira, João Paulo Nascimento de Lucena, Luciana Beirão de Almeida, Marco Polo Laufer, Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva, Monique Becher, Rackel Quintas, Rodrigo Ribeiro.

A infinita gratidão por tudo que constuímos juntos. O segundo semestre vem com muitas novidades e desafios. Mas, com vocês, sei que conseguiremos dar o salto e transformarmos a nossa Escrita Criativa em obra de arte.

Com vocês, os escritos dos participantes de Junho, de Recife a Porto Alegre, dos Estudos em Escrita Criativa – 2018.

Grande abraço e até breve,

 

Patricia Gonçalves Tenório.

 

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Ana Elizabete Cunha

Recife, 09/06/2018

Contato: anaelisabetecunha@gmail.com

Venha ao colo de leite

e diga o som que Aninha;

Brinca sem tempo de fim

sentando em pele rosa, tão branca, rosinha.

 

Mas ao silêncio adormece, entorpece,

Respirando anseios de mãe.

Fita o nada e enlouquece;

Renova toda a vida em outro instante.

 

Respira… Já vou;

Respira… Aqui estou:

Um sempre nunca distante.

 

Quem foi cria de puro alento

é o todo e o tudo

a que seja remetido.

 

Se tem a escuridão nos olhos,

ofusca o sol por um sorriso.

Cachos, castanhos e noite

até que se faça esquecido…

 

(“A criança de sonho” – Ana Elisabete Cunha, 09/06/2018, 11:30h)

 

O SOM DA ANCESTRALIDADE

Bernadete Bruto

Recife, 09/06/2018

Contato: bernadete.bruto@gmail.com

Olhou a foto pendurada na parede do quarto, sorrindo ao se rever naquele instante mágico. Atrás da silhueta risonha o TAJ MAHAL e como ele, o som, cheiro, cores retornando para aquele instante mágico inesquecível.

Antes, jamais poderia imaginar o que aconteceria, parodiando com a escrita da própria canção, cuja letra e melodia ecoam de uma lembrança longínqua, tão distante quanto sua ancestralidade provém.

Era criança num terraço. A música ressoava do aparelho radiofônico seduzindo para uma dança (som de harmônio indiano), explicitava um convite: “a Índia fui em férias passear, tornar realidade um sonho meu…”

Hoje, após dez anos, feliz por um sonho realizado, retorna aliciadoramente ao trecho daquela canção da infância, cuja melodia produz um verdadeiro encontro do corpo com a alma: “Se nada mudar no ano que vem, a Índia vou voltar para ver meu bem.” (som do harmônico indiano)

 

A Canção Proibida

Cilene Santos

Recife, 15/06/2018

Contato: cilenecaruaru2013@gmail.com

 

O ano, 1957. Exatamente quando eu me preparava para a Primeira Comunhão, uma canção foi lançada e fez muito sucesso.

Mas fomos orientadas pelas nossas catequistas para não cantar nem ouvir aquela música. Segundo elas, quem cantasse “Eu vou pra Maracangalha, eu vou…” fazia apologia ao inferno.  Seria o mesmo que dizer: “Eu vou pra o inferno, eu vou…” e eu tinha medo do inferno e do capeta. E na minha inocência, eu levava a sério o que elas  ensinavam. E sofria porque sendo algo proibido, aguçava mais o meu pensamento e só a canção proibida manifestava-se. Tentava pensar nas brincadeiras, nas bonecas, mas nada adiantava.

A música teimava, insistia e ficava. Eu pedia a Deus e aos santos para me libertar daquele peso.

Com o passar do tempo, mudei meus conceitos religiosos, passei a ter uma visão diferente do pecado e de Deus. Descobri que Deus não era um carrasco, como me foi apresentado. O inferno não existia. E eu perdi os medos que me afligiram  a infãncia. Eu não seria mais uma pecadora meramente pelo fato de cantar aquele samba tão bonito de Dorival Caymmi.

Todos esses acontecimentos ficaram enclausurados em minhas memórias. Entretanto, hoje, quando me encaminhava ao trabalho, fui surpreendida por aquela melodia. Um alto-falante em alto e bom som tocava a canção, na voz estrondosa do seu compositor.

Nem tive medo! Até segui cantarolando feliz e achando graça. Como pude sofrer tanto, em meus sete anos de idade, por causa de uma canção tão bela. E todo aquele passado veio à tona, justamente quando ouvi a “Canção Proibida”. E nem doeu!

 

Dulce Albert

Recife, 09/06/2018

 

UMA CANÇÃO PARA MAMÃE

Para a mãe já acamada que diziam não mais ouvia, nem falava e, talvez, visse muito pouco, só vulto, ficou junto a sua cama, e, ao confortá-la, cantarolou: “E a fonte a cantar… e a mãezinha: ‘Chuá, chuá’”… Ouviu…respondeu ao seu carinho. Com emoção gritou: mamãe cantou…mamãe cantou!

 

Elba Lins

Recife, 09/06/2018

Contato: elbalins@gmail.com

 

Na praia o sol escaldante lhe queimava a pele, potencializando o fogo que se espalhava pelo corpo.

Os olhos azuis refletiam o sol, refletiam o mar…

E sem saber que de longe alguém lhe observava, andou sem destino, procurando a companhia que melhor se adaptasse à emoção que estava sentindo.

Era solidão, era poder, era desafio…

Lembrou do filme, bem antigo.

Mergulhou na amplitude do pensamento e abordou a primeira pessoa que cruzou o caminho.

A profecia se fez, e de longe observei…

 

(A Moça com Olhos de Blues

Durante o exercício na aula de Escrita Criativa – A Música

Pensando na música La Belle de Jour, de Alceu Valença e no filme A Bela da Tarde)

 

Gabi Vieira

Recife, 09/06/2018

Contato: gabi.vieira.araujo@gmail.com

 

Ouviu o velho som emitido pelo aparelho quase tão velho quanto, distraindo-se do que estivesse fazendo. Na solidão do pequeno quarto, sentiu ondas de lembranças lhe levarem para outra época, outra casa, outra vida.

Uma vida na qual morava em um enorme casarão, não no minúsculo apartamento atual. Tempos em que corria por vastos jardins que faziam os simples cactos – as únicas plantas que tinha tempo para cuidar – na varanda de hoje se encolherem de vergonha. Em fantasias e com apetrechos em mãos, dançava seguindo o ritmo e a história daquela música emitida pelo mesmo aparelho – em suas memórias, limpo e recém-adquirido – que agora se empoeirava em sua sala.

Sorriu.

Com o lápis em mãos e o coração cheio de saudade, deixou que o Pirata José guiasse seus pensamentos até a princesa tão linda, ambos personagens insubstituíveis de seus sonhos de criança.

 

João Paulo Nascimento de Lucena

Recife, 09/06/2018

Contato: jpn.lucena@gmail.com

 

“Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante”. A conformação é sempre algo que mexe com a gente. Nalguns mais do que noutros. Disseram ter a ver com o amadurecimento e citaram um romance de formação, desses em que um jovem tem sua vida apresentada no olho do furação e, no desenrolar da estória, é ou não resolvida. Algo como Truman saindo da caverna de seu próprio Big Brother – com ou sem paranóia. De tanto ouvir, de tão visível, é, por vezes, subestimado. Vai ver conformar-se é com-formar-se, em seu sentido radical: radical de raiz, de individual e coletivo. Sofreu porque, talvez, como dissera o Maluco Beleza, é “chato chegar a um objetivo num instante”. Maldita procrastinação do ser-humano.

 

Maria Eduarda Tenório de Oliveira e Silva

Recife, 09/06/2018

Contato: duda.tenorio@hotmail.com

 

É engraçado o que girar faz com as pessoas e como a música leva a isso.

Girar por dentro em busca de algo ou girar o corpo junto com a melodia e o ritmo.

Era primeiro dia de Carnaval e, ainda reunidos na casa de um amigo,…

“Eu ia lhe chamar

Enquanto corria a barca”

Corpos que nem sempre trocam palavras iniciam um processo de trocar movimentos que vêm do som.

Arritmia. A expressão do som no espaço, o éter acima de todo e qualquer elemento, afinal, ele vem antes de tudo, até da luz.

É de onde tudo nasce. E éter é espaço. O som não se propaga no vácuo.

E é por isso que, ao se embeber de música, o ser nasce de novo.

“Abre a porta e a janela e vem ver o sol nascer”

 

Rackel Quintas

Recife, 09/06/2018

Contato: rackelquintas@gmail.com

 

Tomaram-lhe orelha,

garganta e boca,

entre pães e cigarro aceso;

entre-vinhos.

Naquela mesa,

era só e presente

feito a passadeira,

enfeitando todas as coisas.

Era fantasma colorido

de gozo e som

de voz grave que cantava saudade

em tons amarelos, azuis e pretos;

em lutos.

E olhava janelas-retratos,

Olhava pessoas e pássaros,

Imagens inacabadas;

Olhava pegadas.

Amarelas, azuis e pretas.

Ninguém sabia que doía tanto

uma mesa no canto

e pranto… tanto.

Tomaram-lhe as mangas, os sulcos:

Manto.

Naquela mesa está faltando

Encanto

E a saudade dele tá doendo, enfim.

 

Gabriel Nascimento

Porto Alegre, 13/06/2018

Contatos: gsabritto@yahoo.com.br e https://www.facebook.com/Reimundo45/

 

5 anos. Não mantive contagem, mas é natural que ela sim. Sou interrompido pelo concerto matutino de buzinas e gritos. Minha cabeça faz uma apresentação surpresa, o ruído das baquetas quase me leva ao frenesi.  O concerto da manhã atinge o crescendo pelas 18:00, as buzinas da Ipiranga se juntando no refrão. O zunido me mantém acordado até a madrugada, quando o dia reserva sua melhor performance. O vento toca as folhas nas árvores com dedos praticados, um maestro exemplar. A música traz sensações, e com ela lembranças, resultando em marcas úmidas em meu rosto, lembrando-me dos tempos atuais, da pessoa que não pode mais ouvir essa orquestra muda.

 

Luciana Beirão

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: lubeirao@hotmail.com

 

Nota MI

 

Dó, Ré, Mi, Fá, SOU.

De .

SOU de , SI.

MI FA LÁ

SI SOU,

Ou não SOU.

Ai, que DÓ.

 

Página em branco

 

Da página em branco

Sai uma nota.

Sai uma música.

Da página em branco,

Sai uma palavra.

Uma poesia.

A página em branco vira música,

Batida,

Sentimento.

Sentimos música,

Ouvimos poesia.

Aquela página virou vida.

 

Dor de cotovelo transcontinental

Marco Polo Laufer

Porto Alegre, 13/06/2018

Contato: falecom.marcopolo@gmail.com

 

Sou brasileiro. Nunca saí do Brasil. Gostaria muito de conhecer o Velho Mundo e, enquanto isso não acontece, crio mundos onde meus personagens possam viver suas vidas sem serem perturbados.

Meu sangue é bem misturado, e desde pequeno tive contato com muita gente: negros e italianos, portugueses e índios, árabes e japoneses. Mas o que mais me fascinava era quando meu pai falava com o seu Erich e a dona Sylvia, vizinhos nossos.

Fui crescendo e descobri: aquilo era alemão. O Erich Huebel nascera nos confins da Áustria e fugira para cá assim que a Segunda Guerra acabou, e falava um português todo cheio de remendos; e a dona Sylvia, benzedeira e cartomante, nascera num lugar dentro do Brasil onde todo mundo falava só naquela língua, que não se ensinava na minha escola.

O destino me levou a São Paulo, onde morei por dez anos. Aquilo foi para mim um paraíso: a babel onde se falavam mil línguas, e eu não me importava que o cheiro do esgoto se misturasse com o cheiro das especiarias e dos segredos escondidos na curva da cada esquina.

Mas uma certeza eu sempre tive: meu coração bate dentro de um iceberg no mar do norte. Não posso ouvir holandês, sueco ou qualquer desses xingamentos que lembrem neve ou um sol triste e meio apagado, que meu coração fecha os olhos e sinceramente chora.

Lembro quando isso começou a se tornar uma verdade inegável.

Eu era jovem, nervoso e desorganizado, e tudo dava errado. Só pra mim.

Um colega do cursinho teve de sair mais cedo e perguntou se eu podia ficar com uma sacola dele, que ele pegaria no dia seguinte. Eu disse que sim.

Cheguei em casa e, claro, fui bisbilhotar.

Tinha uma fita K7 escrita Björk*.

Nome estranho. ‘O’ tremado. Podia ser alemão.

Botei no som da minha irmã, rezando a Elfos e Exus que a fita não mascasse.

Era uma música muito estranha para meu ouvido inculto e muito pouco musical. Mais tarde aprendi que aquilo era um piano e um violoncelo, com uma vassourinha varrendo a bateria, e que assim tocava-se jazz.

Aquela música mexeu muito dentro de mim. Especialmente a segunda faixa.

Não entendia uma palavra. Nem inglês nem espanhol. Doce e áspera, triste e calma, uma voz de criança com trinados de gato. Era massagem em minhas orelhas e meus demônios, prontos a afiar machados e ceifar cabeças, queriam agora encontrar uma flor e dar-lhe terra, água, adubo e um vaso.

Quando findou, sentia-me órfão, não sei de quê.

Pedi uma cópia pro meu colega, que me deu a ficha completa**. Era um disco de música islandesa. Islandeses são descendentes diretos dos vikings, e era bem possível que aquelas canções anunciassem a vinda do deus do trovão ou o crepúsculo dos deuses.

Mas pelo menos me acalmavam.

Anos depois, já na era da informação, fui atrás das letras.

Realmente são faixas de jazz de estilos variados, muitas são versões de clássicos americanos, e as letras mais raivosas falam apenas de corações despedaçados.

Em especial a minha preferida, a faixa 2, com o singelo título de “Luktar Gvendur”.

A letra fala de Gvendur, o ‘acendedor de lampiões’ (Luktar), que passava pelas ruas ao cair da noite e acendia as luzes do passeio público.

“Tinha a cabeça grisalha, e a luz fazia seu cabelo brilhar; se ele avistasse um jovem casal, ele não acendia o lampião e os deixava sob a sombra da escuridão; lembrava de seu doce amor, o ressentimento passava e seu coração quebrado até conseguia sorrir um pouco.”

Meu coração ainda pulsa, um pouco mais fraco talvez, numa geleira, mas quando estou com os nervos à flor da pele, ouvir essa música é o que basta para acalmar meus monstros e dar mais um tempo até o próximo apocalipse.

* (OBS: era o começo da era do CD, eu nem tinha aparelho).

** (CD: Gling-Gló, Cantora: Björk, ano: 1990).

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